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LÍNGUA PORTUGUESA Os escarcéus dos réus revéis

01/11/2017 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

O título do presente artigo é provocativo: qual será o plural da expressão “escarcéu do réu revel”?

Mais uma vez, o problema da acentuação vem à tona. Para solucionarmos a questão, devemos relembrar o conceito de palavras “oxítonas” e “monossílabas”.

As palavras oxítonas são aquelas cuja sílaba tônica é a última. Exemplos:

 

1. Mural (Mu-ral): a sílaba tônica é “-ral”, portanto, a palavra é oxítona (não acentuada graficamente);

 

2. Caju (Ca-ju): a sílaba tônica é “-ju”, portanto, a palavra é oxítona (não acentuada graficamente);

 

3. Cajá (Ca-já): a sílaba tônica é “-já”, portanto, a palavra é oxítona, recebendo o acento agudo em razão da terminação em “-a”. Da mesma forma, acentuam-se Pará, Paraná, gravatá e outras.

 

Por sua vez, os vocábulos monossílabos são aqueles que contêm apenas uma sílaba:

 

1. Mal : a palavra é monossilábica (não acentuada graficamente);

 

2. : a palavra é monossilábica, recebendo o acento agudo em razão da terminação em “-e”. Da mesma forma, acentuam-se fé, ré (feminino de réu) e outras.

 

3. Céu: a palavra é monossilábica, recebendo o acento agudo em razão da presença do ditongo aberto “-éu”. Da mesma forma, acentua-se réu e outras.

 

Os exemplos acima permitem, de um lado, que associemos as palavras “revel” e “escarcéu”, sem grande dificuldade, ao conjunto das oxítonas. A primeira (revel), como uma oxítona não acentuada; a segunda (escarcéu), como uma palavra que atrai o acento agudo em virtude da presença do ditongo aberto “-éu”, à semelhança de troféu, chapéu etc. De outra banda, quanto à palavra “réu”, temos um nítido monossílabo, acentuado pela própria presença do ditongo aberto.

O problema é que, mesmo diante dessas orientações iniciais, não conseguimos ainda decifrar o enigma que nos foi posto: a expressão “escarcéus dos réus revéis” é vernácula?

De fato, ainda que saibamos que os termos “escarcéu” e “revel” se ligam à categoria das oxítonas, enquanto “réu” se mostra como palavra monossilábica, percebemos que o problema está, verdadeiramente, na pluralização delas. E é sobre isso que falaremos agora.

A gramática normativa impõe que devemos acrescentar o “-s” final quando a oxítona terminar por éu. Exemplos:

 

Chapéu – Chapéus

Troféu – Troféus

Ilhéu – Ilhéus

 

Nesse passo, conclui-se que o plural de “escarcéu” será ESCARCÉUS.

A título de complemento, destaque-se que a mesma regra – a do acréscimo do “-s” final – deverá ser aplicada aos monossílabos que apresentem o referido ditongo aberto éu: céu (céus), véu (véus) e, finalmente, réu (réus). Portanto, para o singular “réu”, teremos o plural RÉUS.

O problema é que, se tudo parece simples, poderemos nos enganar diante de certas encruzilhadas da acentuação.

Veja que a mesma oxítona, quando vier com a terminação em el, fará com que este se transforme no plural em “éis”. Exemplos:

 

Fiel – Fiéis

Papel – Papéis

Anel – Anéis

 

Diante disso, temos a solução do plural de “revel”: REVÉIS.

Embora a dúvida já se mostre solucionada, uma vez que conseguimos descobrir o plural das três palavras pesquisadas – escarcéu (escarcéus), réu (réus) e revel (revéis) –, a verdade é que o tema ainda apresenta detalhes curiosos.

 

É que, se estivermos diante da tal terminação (el), porém a palavra for uma paroxítona – aquela em que a sílaba tônica é a penúltima –, a história mudará: o plural será na forma “eis”, agora, sem o acento tônico. Exemplos:

 

Túnel – Túneis

Possível – Possíveis

 

Assim, já temos condições plenas de treinar o aprendizado:

 

1. Se digo, no singular, “chapéu do fiel”, direi, no plural, “chapéus dos fiéis”;

 

2. Se digo, no singular, “troféu com papel”, direi, no plural, “troféus com papéis”;

 

3. Se digo, no singular, “ilhéu com anel”, direi, no plural, “ilhéus com anéis”;

 

4. Se digo, no singular, “o réu viu o céu”, direi, no plural, “os réus viram os céus”.

 

A propósito, levando-se em conta que os dicionários conceituam “escarcéu” como algazarra, bagunça, alarido, tome cuidado com o plural de certas palavras, sob pena de o “escarcéu” não ser apenas do réu revel...

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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