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CRÔNICAS FORENSES Os dentes de ouro

02/08/2012 por Roberto Delmanto

Na pequena comarca do interior paulista, o escritório do conceituado causídico ficava na frente do cemitério. Daí porque o coveiro, sempre que a caminho do trabalho encontrava o advogado, o cumprimentava, sendo correspondido por este.

 

Certo dia, o coveiro foi ao escritório do advogado queixando-se de estar sendo vítima de grave calúnia por parte de alguns familiares de pessoas falecidas. Acusavam-no de violação de sepulturas, repulsivo crime previsto no art. 210 do Código Penal, apenado com reclusão de um a três anos. O coveiro, funcionário público exemplar, mostrava-se indignado.

 

O advogado propôs, então, irem até o Fórum falar com o Juiz. Lá, inteirado do que estava ocorrendo, o Juiz mandou chamar os acusadores. Comparecendo ao Fórum, eles insistiram na acusação, dizendo que haviam encontrado evidências de terra mexida nos túmulos e suspeitavam do furto de dentes e incrustações de ouro, que só poderia ser obra do coveiro, pois o cemitério estava sempre bem vigiado pela guarda municipal e o portão não tinha sinais de arrombamento.

 

O Juiz disse-lhes que ia determinar as exumações dos corpos para resolver de vez a questão. Chocados com a possibilidade dos entes queridos serem desenterrados, os parentes pediram ao Juiz que não os exumasse. O Juiz solicitou-lhes que, nesse caso, parassem imediatamente com as acusações, tendo eles assumido tal compromisso. O coveiro ficou muito agradecido ao advogado que, em virtude dos anos de convivência que tinham, sequer quis cobrar honorários.

 

Uma semana depois, ao voltar do Fórum, o advogado foi informado por sua secretária que o coveiro por ali passara, deixando-lhe um presente. Ao abrir a pequena caixa cuidadosamente embrulhada, o advogado levou o maior susto com o conteúdo: vários dentes e incrustações de ouro...

 

Não podendo denunciar o coveiro em virtude do sigilo profissional, pensou em jogá-los fora. Depois, melhor refletindo, resolveu deixar a caixinha em sua estante, como uma pitoresca lembrança...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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