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Língua Portuguesa Onze Mil Verbos

02/06/2015 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

Onze mil. Esse é o número aproximado de verbos em nosso idioma. Muitos deles, é fato, estão em desuso, não fazendo parte da fala do brasileiro. É o caso de “apropinquar-se”, de “soer”, de “resfolegar”, de “aprazer”, de “moscar”.

 

Em sentido oposto, vários verbos, bem mais comuns, transitam com frequência na linguagem do falante, como “cantar”, “perder”, “sorrir”, entre tantos outros.

 

Há ainda aqueles que apresentam conjugação capciosa, que acaba levando o emissor à dúvida: é “intermedeio” ou “intermedio”?; é “requereu” ou “requis”?; e, ainda, é “previu” ou “preveu”? Respostas corretas: as primeiras formas! Deve-se falar “intermedeio, requereu e previu”.

 

De outra banda, sobressaem os verbos abundantes, que permitem a conjugação dupla no particípio: são legítimas as formas “pago” e “pagado”; “pego” e “pegado; “gasto” e “gastado”; “impresso” e “imprimido”. Algumas dezenas desses verbos nos perseguem por aí e, às vezes, “pegam” alguns que falam, equivocadamente, “chego”. Cuidado! O verbo “chegar” não é abundante, só admitindo a forma participial “chegado”.

 

Sem contar os verbos cujas conjugações fazem parte da rotina do operador do Direito, podendo causar-lhes dúvidas. Deve-se falar, com exatidão: eu requeiro ao juiz (requerer); eu protocolizo a petição (protocolizar); ele sobrestou o feito (sobrestar); ele proveu / eu provejo o recurso (prover); ele reouve o bem (reaver).

 

A bem da verdade, são inúmeras as encruzilhadas que se encontram no desafiador estudo dos verbos. O tema é fértil para debates...e para vários outros artigos, aliás. Hoje vamos nos ater a algumas questões pontuais.

 

Não faz muito tempo, fui inquirido sobre a forma verbal correta para o verbo “maquiar”. A dúvida era se, na primeira pessoa do singular (eu) do tempo presente (modo indicativo), existia a forma “maqueio”. A resposta é negativa. Devemos escrever e falar “maquio”. A conjugação completa será: eu maquio, tu maquias, ele/ela maquia, nós maquiamos, vós maquiais, eles maquiam. A propósito, na ocasião, complementei que este verbo apresenta uma tripla prosódia, todas dicionarizadas: maquiar, maquilar ou maquilhar (esta última, mais comum em Portugal). Portanto, são aceitáveis as formas eu maquio, eu maquilo e eu maquilho. Da mesma forma, admitem-se os substantivos maquiagem, maquilagem e maquilhagem.

 

Em termos mais técnicos, os verbos terminados por -iar seguem a regular conjugação: eu abrevio (para “abreviar”); eu calunio (para “caluniar”); eu copio (para “copiar”); eu premio (para “premiar”); eu plagio (para “plagiar”); entre outros tantos. Como exceção à regra, destacam-se cinco verbos que terão a substituição do “i” por “ei” em certas conjugações: 1. Mediar (eu medeio); 2. Ansiar (eu anseio); 3. Remediar (eu remedeio); 4. Incendiar (eu incendeio); 5. Odiar (eu odeio). Como recurso mnemônico, sugerimos somar as letras iniciais dos verbos, acima destacadas, formando-se a palavra “M-A-R-I-O”.

 

Vamos a mais um recado do verbo. Em minhas aulas, procuro enfatizar algumas conjugações, lembrando aos alunos que “elas existem, sim!”...e devem ser bem cultivadas. Refiro-me às seguintes construções: eu adiro ao plano (verbo “aderir”); eu diagnostico o problema (verbo “diagnosticar”); se isso lhes aprouver (...) (verbo “aprazer”); eu me valho do tema (verbo “valer”).

 

No plano da prosódia, também busco pronunciar com ênfase certas conjugações que reputo úteis a todos os alunos: eu impugno a notificação (e não “eu impuguino”); eu designo a autoridade (e não “eu desiguino”); eu estagno o andamento (e não “eu estaguino”); ele rouba a ideia (e não “ele róba”); ele estoura a bomba (e não “ele estóra”); eu me inteiro do problema (e não “me intéro”). Aliás, a palavra mal pronunciada é como um passarinho que sai da gaiola: depois que voa, não volta mais. Daí a necessária atenção com a pronúncia de certos verbos.

 

Aproveito, ainda, para anunciar mais um recado. Aqueles que prestam concursos públicos devem ficar atentos aos verbos que se aproximam na escrita e pronúncia, mas possuem sentidos diferentes. Enquadram-se no vasto rol de termos parônimos. Note alguns exemplos:

 

Eu arreio o cavalo (verbo “arrear”, ou seja, pôr arreios); Eu arrio o menino do cavalo (verbo “arriar”, ou seja, fazer descer);

 

Eu infrinjo a norma / Ele infringe a norma (verbo “infringir”, ou seja, desrespeitar); Eu inflijo a pena / Ele inflige a pena (verbo “infligir”, ou seja, aplicar). Atente-se para a oscilação das consoantes “g” e “j”;

 

O escândalo emergiu (verbo “emergir”, ou seja, vir à tona); O mergulhador saltou do barco e imergiu no oceano (verbo “imergir”, ou seja, mergulhar);

 

O trabalhador braçal sua muito / Eu não suo pouco (verbo “suar”, ou seja, transpirar); O sino soou a noite toda (verbo “soar”, ou seja, tilintar).

 

E, finalmente, o verbo manda o último recado. Note-o. Quando “baterem na sua porta” as formas CRI, CREU, RIO e MOO, saiba que são simples conjugações dos verbos CRER (eu cri e ele creu, ambas no passado), RIR (eu rio, no presente) e MOER (eu moo, no presente, sem acento circunflexo, já à luz do Novo Acordo Ortográfico).

 

A propósito, se “a bom entendedor, piscada de olho é recado”, é melhor prestarmos atenção aos “avisos dos verbos”. Não será bom claudicar depois de tantos recados... Aliás, o verbo “claudicar”, na acepção de “capengar”, é mais um entre os onze mil. Dá-lhe estudo!

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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