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Língua Portuguesa O uso dos comparativos de superioridade

05/12/2018 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

 

É comum a dúvida: a renda deve ser “melhor distribuída” ou “mais bem distribuída”?

A questão se liga ao uso dos comparativos de superioridade. Vamos à análise:

Se digo que o candidato é um “bom aluno”, posso também afirmar que ele é “melhor aluno” do que outros. Note que o termo “melhor” serviu como comparativo de superioridade do adjetivo “bom”, assim como seria possível usar a forma “pior” como comparativo de inferioridade do adjetivo “mau”. Há consenso nesse ponto entre os gramáticos.

Exemplos:

 

Ele é bom aluno – Ele é melhor aluno (do que outros).

Ele é mau aluno – Ele é pior aluno (do que outros).

 

Observação: não se pode comparar, utilizando a forma “mais bom”, quando o termo “melhor” for adjetivo.

 

Além disso, se digo que o aluno foi “bem” na prova, posso também afirmar, no plano comparativo, que ele foi “melhor”. Observe que o termo “melhor” serviu como comparativo de superioridade do advérbio “bem”, assim como seria possível usar a forma “pior” como comparativo de inferioridade do advérbio “mal”. Exemplos:

 

O aluno foi bem. (ou mal)

O aluno foi melhor. (ou pior)

 

Por outro lado, se digo que o candidato é “bem preparado”, as coisas mudam de figura. Observe que o advérbio “bem” acompanha o particípio passado “preparado”. Devo usar qual comparativo? “Melhor” (preparado) ou “mais bem” (preparado)? É possível comparar, utilizando “melhor”, quando este termo for morfologicamente um advérbio?

 

Aqui está toda a celeuma, dividindo os estudiosos: há os que aceitam apenas o comparativo “mais bem”, repudiando a forma “melhor”; de outra banda, há aqueles que admitem indiferentemente as duas formas, apenas se recomendando uma em detrimento da outra. Como se notará abaixo, filiamo-nos à última corrente.

Se diante do comparativo aparecer uma forma verbal no particípio passado, ou seja, aquelas flexões geralmente terminadas por -ado ou -ido, recomenda-se substituir os comparativos sintéticos (“melhor” e “pior”) pelas formas analíticas “mais bem” e “mais mal”. Assim será utilizado o intensificador “mais”, ao lado de “bem” ou “mal”, no lugar de “melhor” ou “pior”. Exemplos:

 

- A aluna é mais bem orientada que a colega (no lugar de “melhor orientada”);

 

- O candidato está mais bem preparado este ano (no lugar de “melhor preparado”);

 

- Este projeto está mais mal realizado do que o outro (no lugar de “pior realizado”);

- Aquele foi o casamento mais mal organizado a que já fui. (no lugar de “pior organizado”). 

Observação: frise-se que o mesmo raciocínio se estende ao comparativo “menos”, ao lado de “bem” ou “mal”, embora os registros sejam raros (Portugal é o país menos bem preparado para lidar com a pandemia).

 

Voltando ao caso, podemos assegurar que há uma certa lógica: quando se diz “bem orientada”, o advérbio “bem” tem forte ligação com o particípio que a ele sucede (orientada), quase formando um “todo indissociavelmente significativo”. Tal atração se torna nítida nos inúmeros casos de palavras hifenizadas (adjetivos) com tais advérbios: bem-acabado, bem-acostumado, bem-apessoado, bem-aventurado, bem-disposto, bem-educado, bem-humorado, bem-sucedido, bem-vestido, entre outros. Da mesma forma, destacam-se com o advérbio “mal”: mal-agradecido, mal-amado, mal-educado, mal-entendido, mal-humorado, entre outros.

Como tais palavras funcionam como adjetivos, é natural que se deva dizer “mais bem orientada”, no lugar de “melhor orientada”, tal como dizemos “mais feia” (e não “melhor feia”) ou “mais bonita” (e não “melhor bonita”). Veja que o intensificador "mais" incide sobre o conjunto representado por "bem+particípio", e não exata e exclusivamente sobre o advérbio "bem".

 


Portanto, tem-se a seguinte visualização: [ mais + (bem+particípio) ].

 

Daí se justificar a preferência da gramática normativa pela tradicional utilização, antes de particípio, da forma adverbial analítica “mais bem” em vez da forma adverbial sintética “melhor”.

A propósito, observe este exemplo pelo qual ora demonstramos predileção, cobrado “ipsis litteris” no vestibular da Escola Paulista de Propaganda e Marketing (ESPM), tendo sido considerado “correto” e “sem transgressão de concordância”, uma vez que se preferiu o intensificador “mais” ao comparativo “melhor”:

 

“A mais bem colocada na Malásia foi a Virgin, única que ainda não havia chegado ao fim de nenhum GP.”

 

No âmbito dos vestibulares, recordo-me, ainda, de assertiva elaborada em prova da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), em que se considerou “correta” a frase abaixo:

 

“Se os professores fossem mais bem pagos e qualificados, a educação daria um salto em qualidade.”

 

Por isso, temos recomendado em sala de aula, sobretudo aos concurseiros e vestibulandos, que se adote, exemplificativamente, o quadro abaixo:

 

 

USO RECOMENDÁVEL

 

 

O QUE SE PODE EVITAR

Testemunha mais bem informada

Testemunha melhor informada

 

Time mais bem colocado

 

Time melhor colocado

 

Candidato mais bem indicado

 

Candidato melhor indicado

 

Cálculo mais bem feito

 

Cálculo melhor feito

 

Questão mais bem aceita

 

Questão melhor aceita

Pessoa mais bem aconselhada

 

Pessoa melhor aconselhada

 

Frase mais bem elaborada

 

Frase melhor elaborada

 

Texto mais bem escrito

 

Texto melhor escrito

 

Casa mais bem decorada

 

Casa melhor decorada

 

Música mais bem tocada

 

Música melhor tocada

 

Ação mais bem vista

 

Ação melhor vista

 

 

Como se verifica, é da índole da língua e da prática da gramática normativa que se impugne o comparativo “melhor”, anteposto às formas participiais.

Entretanto, como a língua não é uma entidade monoliticamente fixa, é importante registrar que há exemplos clássicos – e autorizados! –, que abonam o uso pouco recomendado, em que o “melhor” aparece como modificador do particípio, sinalizando o aceite de ambos os usos na variante culta formal. Exemplos:

 

- "(...) a demonstração (...) seja melhor confirmada pelos fatos" (Alexandre Herculano);

 

- “(...) que ande ele melhor avisado na organização (...)” (Machado de Assis);

- “O ponto (…) melhor tornado no terreno alheio (…)” (Camões, em “Os Lusíadas”, IX, 58);

- "Santarém é das terras de Portugal a melhor situada e qualificada." (Almeida Garrett);

- “(…) aceitou um almoço melhor adubado que o da ceia (…)” (Camilo Castelo Branco, em “O Santo da Montanha”);

- "Levou seu prêmio melhor logrado" (Padre Manuel Bernardes);

- "(...) mais decidida, senão melhor armada” (José de Alencar).

 

 

Tais exemplos ratificam a ideia de que a escolha é pura questão de preferência, de estilo e, talvez, de agrado.

Posto isso, ante a robusta divergência diante dos fatos da língua, recomendamos – e não mais que isso... – a utilização do comparativo analítico antes das formas do particípio. Apenas, enfatizamos: é melhor assim... Por outro lado, o leitor não estará menos bem acompanhado se seguir Camões, Garrett, Machado, Camilo etc.

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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