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FILOSOFIA O último dia de um condenado Victor Hugo

05/11/2012 por Luciene Félix

“E a Alma, meu Deus, o que faz a morte com nossa alma? Qual passa a ser a sua natureza? Que pode ela, a morte, dar-lhe ou retirar-lhe? Onde a guarda? Será que de vez em quando lhe empresta uns olhos de carne, para ver a face da Terra, e chorar?” Victor Hugo

 

Victor Hugo (1802-1885) é considerado o maior escritor francês do séc. XIX. Com 27 anos, ele publica o que afirma ser um manifesto contra a pena de morte. Mesmo os familiarizados com as tragédias, concordarão que essas linhas guardam os pensamentos mais dilacerantes com os quais já nos deparamos.

 

Segundo Bénédicte Houart, a grande repercussão dessa obra contribuiu para que Portugal fosse o primeiro país europeu a abolir a pena de morte, em 1876.  

 

Da sentença à lâmina da guilhotina, em menos de cem páginas, empreendendo uma crítica ao sistema judicial vigente, o eminente humanista nos envolve, de forma magistral, na espera desesperada e lúcida de um homem que sabe o dia e a hora de sua morte. Para um ser consciente, há algo mais cruel?

 

Não sabemos qual delito o atormentado cometeu, mas entrevemos tratar-se de um homicídio.

 

“Condenado à morte!”.

 

É com essa dramática sentença que Hugo inicia sua obra para, logo a seguir, nos fazer adentrar a psique do infeliz que, outrora, era um homem cheio de vida: “Cada dia, cada hora, cada minuto trazia consigo uma ideia nova (...). Entretinha-se desenvolvendo-as umas após outras, sem ordem e sem objetivo, bordando com arabescos inesgotáveis esse rude e frágil tecido de vida (...). Podia pensar no que quisesse, era livre.” Tão livre quanto nós.

 

O relato abarca as seis semanas que antecedem a degola. Atordoado por portentoso sofrimento psíquico, o condenado tenta amenizar o inaceitável absurdo de estar ciente de sua hora, aventando sobre quantos, sem o saber, não morrerão antes dele, quantos não caminham e respiram e, no entanto, passarão à sua frente, para depois reconhecer no funesto, o abominável de sua situação. 

 

Imbuído de articular para si mesmo o angustiante tormento que vivencia, escreve suas memórias de condenado, como diz, inacabadas, mas nem por isso incompletas: “Não haverá nesse corpo a corpo do pensamento agonizante, nessa progressão aritmética da dor, nessa espécie de autópsia intelectual de um condenado, mais do que uma lição para aqueles que julgam e condenam? Talvez que a sua leitura lhes torne a mão menos ligeira quando se tratar outra vez de atirar um corpo pensante, uma cabeça humana, para aquilo que eles chamam a balança da justiça?”.

 

Questiona se os ‘operadores’ da justiça “teriam refletivo sobre essa lenta sucessão de torturas que a expedita formulação de uma condenação à morte encerra”, se teriam meditado haver nesse homem que despedaçam “(...) uma alma que não se preparou para morrer”.

 

O cérebro do condenado à morte agoniza a cada linha é sua tortura é de magnitude tal, que nos faz invejar a condição dos condenados aos trabalhos forçados na prisão perpétua.

 

Sabe que deixará a mãe, mulher e filhinha ainda pequena. Admite que esteja a ser punido com justiça, mas ignora o que essas “três viúvas pela lei”, fizeram para merecer tal infortúnio.

 

Fica indignado com a postura algo vaga, fria e formal com que todos veem aos condenados. Nem mesmo o titular capelão da prisão se exime desse distanciamento: “Mas o que me diz esse ancião? Nada de sentido, nada de carinhoso, nada de emocionado, nenhum derrame da alma, nada que se soltasse do seu coração e se dirigisse para o meu, nada que nos tornasse um do outro cúmplices”.

 

Conclui que esse comportamento deve-se ao fato de já estar acostumado ao que faz estremecer os outros, que já envelheceu a encaminhar homens para a morte e que por isso tudo é mecânico. 

 

Anseia por uma alma sensível, por um padre ‘comum’ que compreenda: “Há um homem que está prestes a morrer, e é preciso que sejais vós a confortá-lo. É preciso que estejais presente quando lhe atarem as mãos, quando lhe cortarem o cabelo; que subais para a carroça com o vosso crucifixo para lhe esconder da vista o carrasco (...); que o abraceis no degrau do cadafalso, e que permaneçais junto dele até que sua cabeça e o seu corpo jazam cada qual para seu lado”.

 

Victor Hugo nos comove: “Então, que mo tragam, de coração a palpitar, a tremer da cabeça aos pés; que me atirem para os seus braços, que me ponham de joelhos a seus pés; e ele há de chorar, e havemos de chorar ambos, e ele será eloquente, e eu sentir-me-ei reconfortado, e o meu coração, demasiado cheio, esvaziar-se-á no seu, e ele tomará a minha alma em suas mãos, e eu abraçarei o seu Deus”.

 

Rechaça como podem estar tão certos que o método criado para aliviar o sofrimento, pelo médico Guillotin seja realmente indolor: “Quem lho confirmou? Alguma vez uma cabeça decepada se ergueu sanguinolenta na beira do cesto onde jazia e gritou para o povo: não, isto não dói nada!”.

 

Durante toda via-crúcis rumo ao cadafalso, não escapa ao aflito nenhum detalhe de tudo o que, pela última vez seus olhos podem enxergar. Ao ouvir os festivos “comerciantes de sangue humano”, ávidos em negociar lugares para o horrendo espetáculo: “Quem quer um lugarzinho? Quem quer um lugarzinho?”, sentiu raiva e teve vontade de gritar-lhes: “E quem quer o meu?”.

 

Após o término da ‘toilette do condenado’, ao se deparar o clamor da multidão, “um mar de cabeças na praça”, pondera que “Por mais que um rei fosse amado, a festa não seria tão grande”. Tomado de incredulidade, confessa ter sido para esse temido momento que tinha tentando guardar todo o seu sangue-frio.

 

Estava preparado, mas não estava pronto: “Esta multidão na qual todos me conhecem e eu não conheço ninguém.... É uma sensação insuportável esse peso de tantos olhares sobre nós”.

 

Ao avançar pelo pátio atulhado da populaça que ria e batia os pés na lama, sentiu-se “violentamente conquistado pelo terror. Receei desfalecer, ó última vaidade! Então, atordoei-me voluntariamente, para estar cego e surdo a tudo, exceto ao padre (...). Ó meu Deus, tende piedade de mim (...)”.

 

Ao ver um magistrado que acabara de chegar, uniu as mãos e arrastando-se de joelhos, implorou que o agraciasse: “A minha graça! A minha graça! Repeti, ou, por piedade, só mais cinco minutos”.

 

Em desespero: “Estou sozinho. – Sozinho com dois policiais. Oh! O povo horrível com os seus gritos de hiena! Quem sabe não lhe escaparei? (...) É impossível que não me concedam uma graça! Ah! Miseráveis!”. Pressente... O carrasco sobe a escada.

 

Mesmo cônscios de que por trás de todo berço existe um túmulo, ignorar o quando de nosso último suspiro constitui indicativo incontestável da benevolência divina.

Tags: Filosofia

Comentários

  • Leônidas Nogueira de Souza
    09/11/2012 18:25:14

    Dileta Professora Luciene, Seus artigos são uma verdadeira aula de Filosofia, e sempre cercados de um fundo de realidade. O desespero do autor é muito grande; chega a calar fundo em nosso íntimo. Muito obrigado por mais esse artigo. Um abraço

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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