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LÍNGUA PORTUGUESA O "Trânsito" sem trânsito...e com gramaticalidade!

02/03/2010 por Eduardo de Moraes Sabbag

"Caos", nos dicionários, é vocábulo com acepção de "vazio primordial de caráter informe, ilimitado e indefinido, que precedeu e propiciou o nascimento de todos os seres e realidades do universo" (Houaiss). Para o renomado dicionarista, o mesmo substantivo tem o sentido de "mistura de coisas em total desequilíbrio; desarrumação, confusão".

Se o nobre leitor estivesse no trânsito de um grande centro urbano, às 18 horas, em uma sexta-feira, na véspera de feriado, é bem provável que conseguisse compreender a extensão das definições supracitadas, notando que a primeira acepção - atrelada ao "vazio ilimitado e indefinido" - não se apresenta fiel à realidade das grandes cidades, que estão mais próximas da "desarrumação" ou "confusão", mencionadas no sentido complementar.

Curioso é perceber que o vocábulo "trânsito", usado no sentido coloquial, designa a situação oposta àquela decorrente do verbo "transitar" - ir de um lugar para o outro. É que, quando se faz menção ao termo "trânsito", pensa-se em uma realidade na qual não se pode ir para lugar nenhum. Pura contradição! É o intrigante "trânsito" sem um trânsito, de fato.

Não é difícil perceber que, em qualquer grande centro urbano, passando por Pequim, Roma, Dakar ou São Paulo, há algo em comum: o caos no trânsito. Os motoristas disputam, palmo a palmo, cada pedaço da rua, em uma verdadeira confusão urbana. Tem-se a nítida impressão que se assiste em "cidades de máquinas", pertencentes aos automóveis e às motocicletas.

Vivendo em São Paulo, acabo engrossando a massa dos oprimidos e impacientes motoristas que transitam pela cidade. Há poucos dias, estava ao volante, naturalmente em marcha lenta, pensando no "inferno" do trânsito e em todos aqueles que ficam literalmente "presos" em seus veículos, quando me vieram à mente as sábias palavras de Sartre: "O inferno são os outros". Olhando para os lados, dimensionava a caótica situação como produto de uma simples equação: a impaciência de cada motorista adicionada à irritabilidade de todos.

Vi que, a poucos metros dali, um motoboy discutia com um motorista de táxi. O motivo parecia ter sido a parada inopinada(1) do profissional do automóvel que, ao atender à solicitação imprevista de passageiro na calçada, parece não ter indicado a manobra com a seta. Era possível ouvir os gritos do motoboy:

- "Você parou sem dar a seta...e ainda parou à toa!!!"

E o taxista respondeu, entendendo o ataque como uma ofensa pessoal:

- "Quem é "à toa" aqui? Só se for você!..."

A propósito, ouvindo as hostilidades recíprocas, percebi a desconexão no diálogo. Aliás, não pude deixar de notar a utilização pelos contendores(2) do vocábulo "à toa", em duas acepções diferentes.

É sabido que a expressão "à toa", sempre escrita sem hífen, é locução adverbial, acompanhando o verbo, o adjetivo e o próprio advérbio. Por sua vez, será possível utilizar a mesma expressão "à toa" como locução adjetiva, estando ao lado de substantivo (Exemplos: sujeito à toa; sangramento à toa). Frise-se que a grafia desta última expressão apresenta-se sem o hífen em razão da modificação trazida pelo recente Acordo Ortográfico, uma vez que este veio substituir a forma hifenizada "à-toa" por "à toa". Ainda que, na altercação(3) pública, os motoristas do táxi e da motocicleta tenham discutido sem se entenderem - utilizando cada um a expressão em uma acepção própria -, no plano da escrita ambos teriam que escrevê-la sem o hífen, ou seja, "à toa".

Acompanhei a contenda com natural ar de reprovação. Sempre atribuí a conduta hostil das pessoas no trânsito à perda da noção de civilidade. O "trânsito" a que nos submetemos acaba sendo uma espécie de palco das relações sociais, expressando a individualidade do homem moderno e a dificuldade de lidar com o espaço público.

Aos poucos, os veículos se movimentavam. Os automóveis - ditos bens tradutores de praticidade, funcionalidade e, por que não dizer, de liberdade pessoal para alguns -, represavam os condutores, representando, sim, uma verdadeira falta de liberdade, diante do congestionamento monstro. Nesse passo, os motoristas buscavam desviar a atenção da monotonia, ouvindo música, olhando para os lados, entre outras formas.

Nesse momento, fixei o olhar na placa do veículo à minha frente: indicava a cidade de "Mogi-Guaçu". Perguntar-se-ia: há algo de errado com a grafia do nome da cidade? Vamos analisar com vagar.

É que o topônimo(4) afeto à cidade paulista ("Mogi Guaçu") apresenta nesta grafia uma impropriedade. O problema é duplo: "Mogi", com -g e separação indevida das palavras.

Para a boa compreensão do tema, faz-se necessário conhecermos um pouco sobre a cidade vizinha ("Mogi Mirim"). Sua grafia correta, à luz das normas cultas, deveria ser Mojimirim - grafada com -j e sem hífen. Outros vocábulos há com o adjetivo "mirim", que são grafados sem o hífen. São eles: mojimirinense, guamirim, Itapemirim, potimirim, quatimirim. O hífen somente deve aparecer se o elemento anterior à forma "mirim" acabar em vogal acentuada ou nasal. Exemplo: socó-mirim, cajá-mirim, tamanduá-mirim. Dessa forma, o nome da cidade paulista ("Mogi Mirim") é inadequado. Aliás, o g em Mogi é de "gelar"... O recomendável seria, como se destacou, Mojimirim.

Voltando agora ao termo inicial, "Mogi Guaçu", devemos notar que o antônimo de "mirim" é "-açu". Assim, o nome recomendável para indicar a cidade ora analisada seria Mojiguaçu (com -j e sem o hífen), e não como vem grafado por aí. Tenho afirmado que, quanto a erros, de mirim a grafia de "Mogi Guaçu" não tem nada...

Naquele caos do qual não havia conseguido ainda escapar, procurava me ocupar, enquanto o tráfego se mostrava quase insuperável. Resolvi, assim, ligar o rádio para ouvir notícias. Passei a acompanhar uma entrevista da qual participava um importante funcionário do alto escalão do governo. Ao ser este inquirido sobre um procedimento burocrático realizado, o entrevistado respondeu:

- "Eu me adéquo sempre que posso às situações que surgem".

Vê-se que a resposta foi, à luz das normas cultas e na trilha da maioria dos gramáticos e dicionaristas, demasiado infeliz e malsonante(5). O verbo "adequar" só deve ser usado nas formas verbais em que a sílaba tônica cair depois do -q, isto é, nas formas arrizotônicas. Exemplo: adequava, adequar, adequei, adequarei, adequasse. As formas problemáticas (rizotônicas) devem ser substituídas pelos verbos "adaptar, ajustar, acomodar", entre outros, ou por expressões equivalentes. Portanto, evite a forma "eu me adéquo", preferindo eu me adapto; ou, ainda, substitua a expressão "ele se adéqua", trocando-a por ele se ajusta. Dir-se-á que é bem mais adequado, assim...

Resolvi mudar a rádio e encontrei uma que tocava algo que aprecio: a música popular brasileira. Tocava na ocasião a canção "Fora de si", de Arnaldo Antunes. Uma coincidência sem tamanho! A singular composição do autor mostra a perda da noção das outras pessoas e a loucura em si. Nos versos iniciais "Eu fico louco / eu fico fora de si / eu fica assim / eu fica fora de mim", é possível perceber que há um desarranjo sintático gradual, que se desenrola à medida que o poema segue - eu fico... (1° verso); eu fico... (2° verso); eu fica... (3° verso); eu fica...fora de mim (4° verso). Com efeito, essa assimetria crescente representa o fato de que o sujeito vai ficando louco gradativamente, e os versos vão mostrando a relação gradualística da perda da consciência. Evidencia-se, portanto, que o compositor pretendeu problematizar a própria questão existencial em um poema de teor metalinguístico, ao usar uma linguagem que se volta para si mesmo. Achei a coincidência ímpar!

 A corroborar, diga-se que a metalinguagem é recurso deveras interessante. Nos versos magistrais de Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça, em "Samba de uma nota só" ("Eis aqui esse sambinha / Feito numa nota só / Outras notas vão entrar / Mas a base é uma só"), a metalinguagem se faz igualmente presente, à medida que o trecho é entoado em uma nota só. Experimente cantá-lo...

Como é grande o poder da música! Ainda mais se for de boa qualidade! Acabei, naquele momento, distraindo-me com a reflexão musical. E algo surpreendente começava a acontecer: os veículos se moviam com maior velocidade, e o tráfego passava a ter certa rapidez. No momento, pensei "oxalá(6) não pare novamente...".

Por falar em "oxalá", a rádio anunciava a próxima canção: "Opachorô", de Gilberto Gil - uma composição que avoca o otimismo diante das situações desfavoráveis. Encontrando-me mais relaxado, e mais "otimista", aprovei a rádio e aumentei o som. Os versos traziam o pertinente contexto: "Oxalá Deus queira / Oxalá tomara / Haja uma maneira / Deste meu Brasil melhorar (...)".

Com tanta coincidência, concluí que aquele "trânsito", que não tinha trânsito, estava repleto de gramaticalidade. São "coisas da língua", como já dizia o mestre Paulinho da Viola.

Pequeno Dicionário Remissivo

1. Inopinada: súbita, de supetão, repentina;

2. Contendor: adversário, rival;

3. Altercação: discutir, polemizar, contender;

4. Topônimo: nome geográfico próprio de cidade, região, vila etc.

5. Malsonante: desagradável ao ouvido, malsoante;

6. Oxalá: interjeição que expressa desejo que certa coisa ocorra; tem o sentido de tomara ou queira Deus.

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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