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LÍNGUA PORTUGUESA O tal Mesmo, maníaco dos elevadores

05/03/2018 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

Traremos à tona uma antiga e sempre atual questão gramatical: o uso inadequado do pronome “mesmo”, com destaque à tão conhecida frase de advertência endereçada aos usuários dos elevadores – “Antes de entrar no elevador, verifique se o ‘mesmo’ encontra-se parado neste andar”.

 

Hoje em dia, tem sido recorrente a utilização equivocada do pronome “mesmo”. Ouve-se com frequência o vocábulo no lugar do nome de uma pessoa (ou coisa) ou substituindo um pronome pessoal. Tal prática virou moda, e a “praga” parece ter se espalhado, aparecendo com as repetidas expressões “o mesmo fez” e “a mesma faz”. Trata-se de modismo que empobrece o texto e fragiliza o discurso.

 

Em bom português, não se deve dizer, por exemplo:

 

Conversei com o professor, e “o mesmo” me confirmou o ocorrido. 

 

No intuito de evitar a expressão, sugerimos três boas soluções para a frase:

 

1ª. Elimine a expressão:

“Conversei com o professor, e me confirmou o ocorrido.”

 

2ª. Substitua o pronome por palavra equivalente:

“Conversei com o professor, e o mestre me confirmou o ocorrido.”

 

3ª. Substitua o pronome por outro pronome equivalente:

“Conversei com o professor, e ele / o qual me confirmou o ocorrido.”

 

Deve-se registrar, todavia, que as expressões “o mesmo” ou “a mesma” podem ser toleradas em alguns casos, conforme se nota abaixo:

 

1. Quando seguidas de substantivo, ocupando a classe gramatical de adjetivo:

“O professor ensinou a mesma regra.”

“Foi sempre pelo mesmo caminho.”

 

2. Como advérbio, na acepção de “justamente, até, ainda, de fato”:

“É lá mesmo que comprei o carro.”

“Esta moto é mesmo veloz?”

 

3. Como palavra de realce, após substantivo ou pronome:

“Eles mesmos retornaram à escola.”

“As professoras mesmas foram à festa.”

“Eles feriram a si mesmos.”

 

4. Como forma masculina invariável, no sentido de “a mesma coisa”:

“O professor ensinou a regra; esperamos que os demais façam o mesmo.”

“Disse a ela o mesmo que disse ao irmão.”

“Acatar não é o mesmo que acolher.”

 

É perceptível, à luz dos exemplos em epígrafe, que o vocábulo “mesmo” será bem empregado quando acompanhar substantivo, pronome ou adjetivo. Entretanto, não os substitui. Em nenhum caso de boa redação será permitida a substituição, embora saibamos que muitos estudiosos da língua portuguesa, mais liberais em seus ensinamentos, até aceitam o uso do “mesmo” como pronome substantivo, isto é, substituindo um termo anterior.

 

Apesar disso, entendemos que se deve evitar o uso. Ainda que não seja “erro”, caracteriza inegável pobreza de estilo. A nosso ver, muitas vezes usa-se a palavra “mesmo”, ou porque falta vocabulário, ou porque não se sabe usar outros pronomes.

 

Isso nos faz voltar à paradigmática frase explorada no vestibular:

 

“Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado no andar.”

 

O aviso, transitando em plaquinhas aqui e acolá, recomenda algo importante, mas o faz com pouca elegância e clareza. Além disso, o descuido na elaboração do aviso desafia os cânones da colocação pronominal. É que há vício na forma “se o mesmo encontra-se”. Nesse caso, recomenda-se a chamada “próclise”, isto é, a antecipação do pronome, alterando-se inicialmente para “se o mesmo se encontra”.  Portanto, procedendo-se à colocação pronominal adequada e buscando-se uma “solução mais abrangente” para o impasse, seguem algumas sugestões de correção:

 

1ª. Substitua o vocábulo por pronome pessoal ou por pronome demonstrativo, preferindo-se a próclise:

“Antes de entrar no elevador, verifique se ele/este se encontra parado no andar.”

 

2ª. Faça a inversão e elimine o pronome:

“Antes de entrar, verifique se o elevador encontra-se parado no andar.”

 

3ª. Utilize forma mais concisa:

“Não entre sem ver se o elevador está parado no andar.”

 

A ideia da inadequada substantivação do pronome “mesmo”, no aviso dos elevadores, é exatamente o motivo de brincadeiras bem-humoradas que, inteligentemente, no jogo de palavras, continuam “substantivando” o pronome ao associá-lo a uma pessoa – o tal Mesmo, maníaco dos elevadores.

 

O tema é atual – por provar que o estilo deve ser adequado, e o pensamento, preciso – e atemporal, quando demonstra que “a primeira qualidade do estilo é a clareza” – uma máxima, aliás, de Aristóteles.

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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