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Língua Portuguesa O "Sugerimento" de Dunga

06/12/2006 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

O "Sugerimento" de Dunga

 

  

Faz poucos dias, o técnico da Seleção Brasileira, ao ser questionado se sua roupa era uma escolha da filha, estudante de moda, respondeu:

 

"Ela faz o sugerimento, eu escolho as peças."

 

"Sugerimento" não é uma palavra vernacular, embora todo falante de português seja capaz de compreendê-la. Dunga valeu-se de um neologismo, como sinônimo de "sugestão". Antes de rir do "deslize", recomendo que tenhamos cautela.

 

Se de "ferir" desponta "ferimento", se de "deferir" exsurge "deferimento", por que tal parâmetro não poderia ser tranqüilamente adotado no caso?

 

O que se viu foi o uso de associação - método bastante empregado pelas crianças, quando não encontram a palavra ideal para exprimir o que querem dizer, recorrendo a analogias. Elas seguem uma lógica diferente - e pertinente -, raciocinando por associações. Do ponto de vista lingüístico, os pimpolhos "pensam diferente", não cometendo erros condenáveis. Parece lícito, portanto, supor que Dunga se tenha confundido ao formar o substantivo que designa o ato de "sugerir" com uma terminação (-mento).

 

É evidente que tal neologismo não deve ser repetido. Entretanto, parece ser justificável. O técnico foi buscar a palavra no italiano. Afinal, o ex-jogador tem ascendência italiana, além de ter vivido naquele país durante bons anos, o que pode ter contribuído para o lapso.

 

Sabe como se diz "sugestão" em italiano?

 

"Suggerimento" (com "gg"), oriundo do verbo "suggerire", bastante parecido com o nosso "sugerir". Que pena! Dunga pagou o preço de quem cria raízes em dois lugares. Parafraseando Pablo Neruda, "sofrerá duas vezes". E o treinador se viu tropeçando na língua, ao sofrer com a confusão entre o italiano e o português - duas línguas neolatinas.

 

Nelson Piquet, em semelhante situação de "contaminação lingüística", demorou anos para trocar o curioso "lavorar" (extraído do verbo italiano "lavorare") por "trabalhar".

 

Penso, pois, que o deslize não foi catastrófico. Nossa língua não se sentiu ultrajada ou prostituída. Em particular, nutro certa simpatia pelos neologismos. O descuido, quase sempre, dá-lhes uma pitada de humor, o que avoca a nossa condescendência.

 

Roberto Rivelino, como comentarista esportivo, trouxe à baila algo inusitado: "lançação", no lugar de "lançamento". É engraçado! E o turista brasileiro, quando chega a Buenos Aires: sai pedindo uma "sugestión" de restaurante, uma "sugestión" de espetáculo, e o argentino deve achar que viemos de outro planeta. "Sugestión" não existe , nem aqui!

 

"Sugerimento" é tropeço, reconheço. Todavia, não é o fim do mundo. Aliás, o mundo e a língua são mutáveis.

 

Quem não se lembra do adjetivo "imexível" do então ministro Antônio Rogério Magri? Na época, houve incontáveis celeumas e risadas. Hoje, a brincadeira pegou: "imexível" habita os dicionários e o próprio Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, podendo alegrar com "autoridade" nossos bate-papos.

 

E mais: ao abrir o "Grande Sertão: Veredas", o leitor verá que Guimarães Rosa, para quem "um léxico não era suficiente", teria utilizado "depressamente", "acostumação", "caras sujadas", "vigiação", entre tantos outros neologismos. Resta-nos saboreá-los, sem uma patrulha antipática e inibitória. A não ser que queiramos apontar o dedo em riste diante da sapiência singular do eminete literato. Eu não arriscaria...

 

Escrever direito é fundamental. Falar corretamente, também. Todavia, nosso português é língua que, a um tempo, se traduz em "esplendor e sepultura". Olavo Bilac prenunciava que deveríamos imitá-lo, amando nosso "rude e doloroso idioma"! Se a língua é viva, os equívocos não são inafastáveis.

 

Nós e Dunga temos uma certeza: o que se deve, sim, rechaçar são as derrotas em campo. O ex-jogador, hoje técnico da seleção brasileira, sabe que seu pecadilho lingüístico é perdoável. Entretanto, se êxito pôde ter na superação de seu descuido no campo das palavras, talvez não o tenha nos gramados, se não levar nossa abatida seleção para a próxima Copa do Mundo. Afinal, melhor "sugerimento" que "quadrado mágico"...

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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