Página Inicial   >   Colunas

CRÔNICAS FORENSES O sétimo selo

02/12/2015 por Roberto Delmanto

No episódio inicial do Sétimo Selo, famoso filme de Ingmar Bergman, um guerreiro medieval montado em seu cavalo anda na praia. Em dado momento, depara-se com a Morte, sentada em um banco defronte a um tabuleiro de xadrez, que o convida a jogar.O guerreiro aceita, desce do cavalo e o jogo se inicia.

 

A simbologia da cena, depois transformada em conhecido quadro, mostra o drama humano: não podendo vencer tão terrível adversário, que um dia sempre nos alcançará,  só nos resta tentar prolongar ao máximo o jogo, ou seja, nossa própria vida...

 

Foi a estratégia que tive de adotar na defesa de um empresário. Homem de meia idade  e compleição franzina, sócio -proprietário de conceituada firma, divorciado há tempos, apaixonou-se perdidamente por uma jovem funcionária de rara beleza.

 

Transformado em um misto de amante e pai, passou a lhe dar tudo: pagamento de cursinho e depois faculdade, curso de inglês, automóvel, lipoaspiração e até um apartamento mobiliado para ela e familiares. Depois de receber todos esses “presentes”, ela o trocou por um jovem.

 

Quando este foi assassinado na frente dela por dois homens desconhecidos, as suspeitas da autoria intelectual  recaíram sobre o empresário . Apontado no inquérito policial como autor de ameaças à moça e a quem da mesma se aproximasse, chegou a ter a prisão preventiva pedida, embora negada.

 

Assumindo sua defesa, contra quem as provas eram meramente circunstanciais e que negava com veemência ter sido o mandante, passei a sustentar a inocência dele e a inépcia da denúncia, pois os autores materiais do homicídio jamais foram identificados .

 

Minha maior preocupação era, contudo, com a saúde do empresário que se deteriorava a olhos vistos. Convencido de que, se condenado, não resistiria mais de um mês na prisão, usei de todos os recursos legais para mantê-lo em liberdade.

 

Considerado culpado no primeiro júri, apelei arguindo preliminarmente a nulidade do julgamento, tendo obtido um voto favorável que me permitiu opor embargos infringentes.Antes que estes fossem julgados, recebi a notícia do falecimento do cliente.Treze anos e meio haviam se passado e ele não fora preso, como era meu principal objetivo.

 

Agora, ao invés da justiça humana, plena de erros ao absolver culpados e, pior ainda, ao condenar inocentes, iria prestar contas à Justiça Divina que, embora magnânima, nunca se equivoca...

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br