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LÍNGUA PORTUGUESA O RESGATE DO PRONOME CUJO

02/12/2009 por Eduardo de Moraes Sabbag

Há poucos dias, um aluno me perguntou:

 

- "Professor, o pronome "e;cujo"e; deixou de existir?"

 

Categoricamente, respondi:

 

- "Claro que não!"

 

A indagação, por ser bastante pertinente, merece uma reflexão, o que me levou a elaborar este artigo.

 

O uso do pronome relativo "cujo" tem se tornado bastante raro na escrita. Qual seria o motivo de tal isolamento? Talvez seja a sua engenhosa aplicação, que demanda certa desenvoltura no tema gramatical afeto ao "uso dos pronomes relativos". Por outro lado, há os que o condenam por ser ele pouco eufônico. Existem, ainda, muitos que afirmam viver muito bem sem ele...

 

De uma maneira ou de outra, é possível resgatá-lo do "ostracismo" com bons argumentos.

 

Em primeiro lugar, devemos entender que o pronome relativo cumpre importante função nas orações: designa uma relação de posse entre o termo que ele antecede e o outro a que sucede. Verifique:

 

                                               Homem cujo terno (...)

A frase indica que o terno pertence ao homem, e o pronome "cujo" veio intermediar o elemento "possuidor" (homem) e o elemento "possuído" (terno).

 

Por essa razão, meus alunos têm assimilado em sala de aula um recurso mnemônico importante para a aplicação desse pronome:

 

Possuidor CUJO Possuído

 

Vamos treinar com outro exemplo:

 

Com os termos "árvore" e "frutos", pode-se dizer "árvore cujos frutos", pois se destacam o elemento possuidor (árvore) e o elemento possuído (frutos). Portanto:

 

ÁRVORE CUJOS FRUTOS  =  "POSSUIDOR CUJO POSSUÍDO"

 

No exemplo acima, aliás, foi possível notar algo importante: o pronome relativo "cujo" deverá concordar em gênero e número com o termo que a ele sucede, ou seja, com o termo seguinte. Note que se disse "árvore cujOS frutOS". Da mesma forma, teremos que estabelecer a concordância em "homens cujas esposas"; "pássaros cujos cantos"; "leis cujos artigos"; "Constituição cujo preâmbulo" etc.

 

Evidencia-se, desse modo, que o formato da estrutura pronominal acima demonstrado não tende a ofertar grandes problemas ao estudioso da gramática. Aliás, as Bancas de concurso preferem "apimentar" os testes sobre o tema, trazendo situações em que o pronome relativo "cujo" aparece ao lado de preposições, como nas formas "para cujo", "de cujo", "ante cujo", "sobre cujo", "a cujo", entre outras. Como isso ocorre?

 

Vou demonstrar a situação por meio da seguinte frase:

 

Esta é a árvore DE cujos frutos DEPENDO.

 

Note que o período trouxe a preposição "de", própria do verbo transitivo indireto "depender" ("quem depende, depende de algo ou de alguém"), tendo sido inserida antes do pronome ("de cujos"). Daí se falar que, nos casos de verbos transitivos indiretos, que trazem a reboque a preposição, passaremos a ter uma fórmula mnemônica um pouco mais sofisticada:

 

 

Possuidor PREP. CUJO Possuído

* PREP.: significa "preposição", ocorrendo a abreviatura na fórmula para facilitar a pronunciação do macete.

 

Vamos reforçar com outro exemplo:

 

Com os termos "pessoas" e "palavras", no contexto do verbo "acreditar", pode-se dizer "pessoas EM CUJAS palavras eu ACREDITO", destacando-se o elemento possuidor (pessoas), o elemento possuído (palavras), o pronome relativo em adequada concordância (cujas) e, finalmente, a preposição (em), inserida antes do pronome relativo. Portanto:

 

PESSOAS EM CUJAS PALAVRAS (...)  =  "POSSUIDOR PREP. CUJO POSSUÍDO"

 

 

Vamos, agora, apreciar algumas elucidativas frases, com o formato acima destacado:

 

1. CONTRA CUJA: Foi o paciente absolvido em revisão criminal do crime contra cuja condenação é impetrado o "writ".

 

2. SOBRE CUJO: Apreciei muito o discurso sobre cujo estilo vou escrever.

 

3. A CUJA: O concurso a cuja premiação eu me referi aceita inscrições até amanhã.

 

4. COM CUJO: A Renascença, com cujo advento a nossa civilização começou, teve origem em diversos elementos.

 

5. DE CUJAS: Comprei o disco do compositor de cujas músicas você sempre fala.

 

6. PARA CUJAS: A instituição de caridade para cujas obras você contribuiu espontaneamente fez bom uso da doação.

 

7. POR CUJO: O jogo por cujo resultado ansiamos está na iminência de acabar.

 

 

Diante do exposto, é indubitável admitir que o bom uso do pronome relativo traz elegância ao texto, além de exprimir a precisão da ideia a ser transmitida.

 

Sua relevância no plano gramatical, a propósito, pôde ser ratificada, no último dia 22, quando o maior vestibular do Brasil - o da FUVEST - exigiu dos candidatos a uma vaga na USP o bom uso do pronome relativo "cujo", em uma das duas questões de gramática, formuladas na prova. Observe a frase considerada correta no indigitado teste:

 

A janela propiciava uma vista para cuja beleza muito contribuía a mata no alto do morro.

 

Com os termos "vista" e "beleza", no contexto do verbo "contribuir", diz-se "vista PARA CUJA beleza muito CONTRIBUÍA", destacando-se o elemento possuidor (vista), o elemento possuído (beleza), o pronome relativo em adequada concordância (cuja) e, finalmente, a preposição (para), inserida antes do pronome relativo.

 

Assim, para aquele aluno que me questionou, disse algo mais:

- "Meu caro amigo, não há nenhuma dúvida que o pronome relativo "e;cujo"e; continua existindo".

 

E, complementei, em trocadilho, afirmando:

 

- "Na batalha dos pronomes relativos, já é hora de fazermos "e;o resgate do pronome cujo"e;"...

Comentários

  • Alexandra Menezes
    09/06/2014 09:48:38

    Todas as minhas dúvidas sobre o uso do "cujo" foram, enfim, solucionadas!! Muito obrigada!!

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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