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CRÔNICAS FORENSES O quebra-cabeça

01/09/2012 por Roberto Delmanto

Meu pai Dante Delmanto foi, durante quatro décadas, um dos principais advogados criminalistas de São Paulo. À época, meados do século passado, não havia computadores e os advogados, assim como os promotores, datilografavam suas alegações a princípio nas máquinas mecânicas e mais tarde nas elétricas. Os juízes, por sua vez, faziam o mesmo em suas sentenças e votos.

 

Embora fosse um bom datilógrafo, meu pai preferia escrever seus trabalhos à mão, entregando-os depois à secretária para que os datilografasse. Intimado para oferecer contra-razões em uma importante causa, tentando manter a absolvição de seu cliente em Segunda Instância, dedicou-se a elas com o costumeiro afinco: reestudou minuciosamente toda a prova dos autos, com vários volumes, analisou a sentença absolutória e as razões de apelação do promotor, pesquisou as melhores doutrina e jurisprudência aplicáveis ao caso e, após, passou a escrever suas contra-razões.

 

O prazo se findava na segunda-feira e ele, a fim de terminar suas alegações a tempo, levou-as para casa. Como fazia muito calor, preferiu trabalhar na sala de jantar de nossa casa, que era mais fresca do que o escritório existente no andar superior. No sábado à noite, concluído o alentado serviço, deixou, organizado como era, as cerca de trinta páginas escritas em um canto da mesa, para revisá-las no domingo.

 

Minha mãe Cecília, que era extremamente cuidadosa com o lar, tinha o hábito de rasgar os papéis inúteis. Não acostumada com o fato de meu pai, excepcionalmente, ter se utilizado da sala de jantar para trabalhar, vendo aquelas folhas com várias correções e emendas em vermelho, e julgando tratar-se de um rascunho já passado a limpo, não teve dúvida: rasgou-as todas, em pequenos pedaços.

 

Quando, na manhã seguinte, meu pai viu o que tinha acontecido, quase enfartou. A solução encontrada foi convocar todos os familiares, inclusive as crianças como eu, para como em um quebra-cabeça localizar e colar cada pedaço em sua respectiva página, reconstituindo-as.

 

Domingo à noite, o extenuante trabalho terminou. As trinta páginas, com todas as colagens feitas com durex, tinham se transformado em uma enorme pilha. Assim foram entregues, na segunda-feira bem cedo, à secretária, exímia datilógrafa, que terminou o serviço à tarde. E, bem no fim do expediente forense, foram as contra-razões de apelação protocoladas a tempo no Tribunal de Justiça de São Paulo.

 

Herdei de minha mãe essa mania de rasgar papéis. Certa vez, há muitos anos, cheguei desavisadamente a rasgar um cheque. Quando tive de explicar ao cliente o que acontecera, pedindo-lhe outro em substituição, ele me gozou: “Doutor, não pensei que o sr. estivesse tão rico a ponto de rasgar cheques”. A partir de então, passei a tomar mais cuidado com tal herança genética...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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