Página Inicial   >   Colunas

Filosofia O que é a Verdade?

30/06/2006 por Luciene Félix

Sophistés (Sábios) fora a denominação empregada a um grupo de práticos intelectuais estrangeiros (metecos) que, na Atenas do século V, proporcionavam seus ensinamentos sobre a arte do bem falar, fundamentando o discurso em argumentos logicamente coerentes e por isso mesmo, unânimes. Ministravam aulas de retórica àqueles que tinham por aspiração dedicarem-se à carreira política e dinheiro para pagar-lhes. Este detalhe prático (Ta Prágmata) viria a causar certo desdém e repugnância por parte daqueles que se consideravam verdadeiros "Filósofos" (Ta Onta).

Sofistas, Protágoras, Górgias e Trasímaco são, por excelência, os maiores nomes do ensino da arte da retórica na Grécia de Sócrates e Platão. Para Górgias, o discurso é entendido como o veículo no qual o mundo se torna possível para a compreensão humana. Para ele, "o ordenamento duma cidade está na coragem dos seus cidadãos, o dum corpo na sua beleza, o duma alma na sua sabedoria, o duma ação na sua excelência e o dum discurso na sua verdade. O contrário será o caos".

Os sofistas sabiam que a palavra é instrumento do lógos e este manifesta-se através do discurso que pode ser também manipulado com eloqüência para seduzir e impressionar a platéia objetivando atingir um propósito (télos) definido. Obtinham reconhecido sucesso na Ágora, conduzindo os ouvintes pelo discurso persuasivo considerando o momento oportuno para determinadas colocações, utilizando argumentos convincentes, levavam em conta o perfil do ouvinte e esmeravam-se em falar o que (bem como "de que modo") agradaria ser ouvido. O emprego da persuasão não se baseia somente na lógica, mas apropria-se da intuição, sensibilidade ao que toca no coração, despertando emoções tais como indignação, revolta, coragem, enternecimento, compaixão, camaradagem etc.

Léthe é o famoso "rio do esquecimento", em cujas águas as almas bebem a fim de olvidarem completamente a existência terrena e numa elucidação mítico-singela, a deusa Léthe é a Verdade. Após ter sido assediada por Zeus, Léthe sofreu as terríveis perseguições por parte da esposa do Olímpico, Hera, protetora dos amores legítimos. Em vão, tentava a todo custo escapar, buscando para isso sempre novos lugares nos quais pudesse ocultar-se. Desse relato, a interpretação de que "a verdade, "alethéia", é aquilo que nunca se esconde".

Os religiosos mânticos conectavam-se com a Verdade do divinatio através das artes adivinhatórias e a revelavam por meios obscuros, aparentemente ininteligíveis, passíveis de interpretações.

Sendo a palavra orientada conforme o ethos, a conduta, o modo de ser interior de cada um, o indivíduo é o único critério prático (razão do sucesso dos sophistés?) da verdade. Não alcançamos a verdade objetiva, somente opinião (doxa) particular.

Diante de uma verdade velada, cabia aos detentores do poder das palavras, retóricos da pólis, argumentar e convencer para desvelar a verdade. Ocorre que esta se des-vela ao ser re-velada. Re-velar é tornar a velar, a encobrir. Paradoxalmente, descobrindo o que esta velado, revela-se a "verdade". A verdade da maneira de pensar do intérprete e de sua visão de mundo, que é decorrência de seu éthos pessoal. Desse modo, a verdade é sempre subjetiva, relativa ao sujeito que a profere/revela.

Na Ágora, nas querelas judiciais, o choque das opiniões (dialética) dos retóricos busca revelar a melhor solução. Muitas vezes a mais útil para quem a defende, não necessariamente para toda a sociedade: "Ele, o retórico, é o vilão do discurso e aliciador de razões desprotegidas, que sempre sucumbem ao seu encanto perverso. Retórica é prestidigitação verbal que envenena o espírito e o escraviza. É, em uma palavra simulacro". Era como se os sofistas tivessem o dom de ensinar a fabricar o que os gregos chamavam de pharmakón - o remédio/veneno. Obviamente não podiam responder pelo uso que seus aprendizes davam ao domínio desta poção mágica que tanto pode curar quanto matar. A linguagem não é simplesmente o espelho da realidade, mas é um meio pelo qual pode-se estabelecê-la, sendo assim, instrumento de poder.

 Eis algumas verdades sobre a verdade: subjaz no ethós (sujeita à conduta ética humana), que por sua vez obedece a um telos (propósito definido); passível de manipulação, troca, venda... mantém, como no mito, a magia de sua natureza: velar/revelar/tornar a velar. Tomando-nos de sobressalto, ela ressurge, vez ou outra, num lampejo de lucidez. De estupefata lucidez posto que, como o homem, tem sua própria lógica, o que corrobora a máxima de Protágoras: "O homem é a medida de todas as coisas; das que são porque são e das que não são porque não são".

 

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br