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LÍNGUA PORTUGUESA O problema dos porquês

02/08/2013 por Eduardo de Moraes Sabbag

O uso dos porquês sempre volta à discussão. As dúvidas surgem quando devemos usar a forma separada (por que), a outra forma, unida (porque), e ambas com o acento a tiracolo (por quê e porquê).

 

Recordo-me da prova de concurso que trouxe a seguinte frase: “Que língua! Tantos quês...por quê?

 

Na alternativa, coube ao concursando enfrentar o problema dos porquês além da acentuação no pronome que. O candidato deveria julgá-la e perceber que a frase estava totalmente correta, ainda que, eventualmente, perturbassem-no os acentos circunflexos (quês / quê) e a separação na forma “por quê”.

 

A verdade é que o pronome “que” requer esforço do estudioso, tanto no plano da acentuação quanto na identificação da estrutura morfológica à qual pertence. Sem contar que essa palavrinha, aparentemente singela, provoca celeumas diversas, em virtude de suas múltiplas funções sintáticas.

 

Passemos ao detalhamento:

 

Na frase inicial “Que língua!”, o termo sublinhado apresenta-se, morfologicamente, como pronome indefinido, ao se ligar a um substantivo em frase exclamativa. Exemplo: Que frio terrível! Nesse caso, presume-se que o concursando não teria sentido dificuldade na análise, haja vista a simples utilização do pronome na estrutura frástica. 

 

Quanto à frase seguinte – “Tantos quês...por quê?” –, a história já começa a mudar de figura. Antes de enfrentarmos os detalhes da explicação, é oportuno lembrar um verso da letra da canção “Meu Bem Querer”, de Djavan:

 

“Meu bem querer / Tem um quê de pecado...”

 

O termo em destaque aparece acentuado, pois se trata de substantivo. Da mesma forma que digo “um quê de pecado”, poderia dizer “uma aparência de pecado”. Nesse sentido, se afirmo que há “tantos elementos em algo”, posso também assegurar que “há tantos quês em algo”. Nesse caso, como monossílabo tônico e na condição de substantivo – singular ou plural –, receberá o acento circunflexo (quê e quês).

 

Aliás, a forma “quê”, acentuada, poderá aparecer em várias outras situações:

(I) com a letra Q, deve ser escrita com acento. Exemplo: A palavra “queijo” deve ser escrita com a letra quê; 

(II) quando se exprime sentimento ou emoção, por meio de uma interjeição. Exemplo: Quê! Você de novo!;

(III) quando se tratar de pronome indefinido pronunciado tonicamente, em frases interrogativas. Exemplos: O produto é feito de quê?; ou, ainda: Isso tem gosto de quê?;

(IV) com a expressão “um não sei quê”. Exemplo: Em seu semblante, havia um não sei quê de irônico.

 

Prosseguindo na análise da frase proposta – “Tantos quês...por quê?” –, a forma “por quê”, separada e com acento, ocorre em virtude da junção da preposição por com o pronome interrogativo que [por + que], equivalendo a “por qual motivo, por qual razão”.

 

Nesse passo, diga-se que o fato de surgir no final da frase, imediatamente antes de um sinal de pontuação – ponto de interrogação, no caso –, torna tônico o termo, avocando-se-lhe o acento circunflexo [por + que (tônico) = por quê (sinal de pontuação)].

 

Pixinguinha e João de Barro, na emblemática canção “Carinhoso”, brindaram-nos com elucidativo exemplo:

 

 “Meu coração, não sei por quê, bate feliz quando te vê.”

 

Observe que a forma por quê em epígrafe antecede a vírgula, o que lhe impõe o acento circunflexo, sem contar o fato de que pode ser facilmente substituída pela expressão “por qual motivo”, justificando a separação da preposição daquele pronome.

 

Embora tenhamos resolvido as dúvidas em torno da frase apresentada, urge relembrarmos os outros “dois porquês” –, ambos não separados, só variando o acento (porque e porquê).

 

A forma porque, unida e sem acento, é uma conjunção, servindo para unir orações. Exemplos: Luto porque preciso; Cheguei cedo porque dormi pouco; entre outros.

Observe que é impossível tentarmos substituir a forma utilizada pelo macete “por qual motivo, por qual razão”, hábil a detectar a ocorrência da estrutura “por que”, separada. Perceba a incoerência:

I.  Luto [por qual motivo] preciso (?) 

II. Cheguei cedo [por qual motivo] dormi pouco (?)

 

Assim, não nos parece algo complicado identificar a necessidade da conjunção nos períodos e, portanto, optar pela forma “porque”, unida e sem acento.

 

Por último, frise-se que “porquê”, assim grafado, é um substantivo, na acepção de “causa, motivo”. Exemplos: Dê-me um porquê para seu atraso; Quero saber o porquê da discussão.

 

É bom afirmar que as discussões gramaticais em torno do assunto são bastante desafiadoras. Se quisermos apimentar o debate, poderemos trazer à colação, por exemplo, o problema da partícula expletiva. Observe a dúvida:

Qual a função da palavra “que” na seguinte frase:

“Que vida boa que você tem!”?

 

Aqui aparece a tal da partícula expletiva (ou de realce), ou seja, aquele termo que pode ser retirado da frase sem prejuízo ao sentido. Observe que se poderia dizer, omitindo-se a palavra: “Que vida boa você tem!”.

Tal partícula desponta quase sempre na locução “é que”, e, nesse sentido, Machado de Assis apresentou-nos algo relevante. Observe a frase de sua autoria:

Que suplício que foi o jantar!

 

O primeiro “que” é pronome indefinido – já mencionado neste artigo; o segundo, por sua vez, é a partícula expletiva.

 

A propósito, Casimiro de Abreu oferta-nos exemplo bastante semelhante, no qual se encontram as mesmas classificações morfológicas – pronome indefinido e, depois, partícula expletiva:

Oh! Que saudades que eu tenho / Da aurora da minha vida, / Da minha infância querida (...)

Veja que há um quê de recorrente na questão dos porquês. Nem precisamos nos esforçar para saber por quê...

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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