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LÍNGUA PORTUGUESA O objetivo é impactar

02/06/2014 por Eduardo de Moraes Sabbag

A mídia tem utilizado o verbo “impactar” com frequência em suas notícias e textos. Ouve-se “A crise impactou...” aqui; lê-se “A globalização impactou...” acolá. A propósito, há algumas semanas, uma artista brasileira destacada, ao comentar sobre sua turnê nos EUA, revelou: “Meu objetivo é impactar”. Diante disso, uma celeuma desponta: o verbo “impactar” está dicionarizado? Faz parte de nosso léxico?

 

O referido verbo, pelas suas peculiaridades, é daqueles que muitos evitam, por não terem certeza de sua existência, enquanto outros abusam de sua utilização, sem saber se ele de fato existe. Encontramos, no dia a dia, “impactou”, no pretérito perfeito; “impactando”, no gerúndio; “impactado”, no particípio; “algo irá impactar”, em locução verbal; entre outras formas. Esse verbo virou “moda” e tem tido ampla circulação no discurso oral e escrito.

 

Mas o fato é que o verbo “impactar” consta, sim, do dicionário! E também as outras formas são aceitáveis: “impactando”, “impactado”, entre outras possibilidades. No sentido de “exercer um forte efeito sobre alguém”, pode-se falar tranquilamente que “algo impacta” ou que “algo impactou”.

 

A propósito, convém mencionar que “impactar” chegou a nós pela tradução do verbo inglês “to impact”. Houve uma tradução grosseira que nos fez aproximar o “to impact”, que tem sentido próprio, no inglês, de outro verbo - o “to affect” -, o que não se mostra de todo correto. Tal aproximação, de certa forma, legitimou-nos a positivar o termo “impactar”, como sinônimo de “afetar”, “influenciar” ou “impressionar”. Dessa forma, o verbo ganhou vida em nossos dicionários, nestes constando desde o final da década de 50.

 

Assim, não é de hoje que o verbo já faz parte da estrutura de nosso léxico. O Dicionário Houaiss registra os vocábulos “impacto”, “impactante”, “impactação”, além do verbo “impactar”. Aliás, este será conjugado em todas as formas (eu impacto; ele impactou; nós impactávamos; eu impactarei; entre outras).

 

Nessa esteira, a ABL (Academia Brasileira de Letras), entidade incumbida oficialmente de determinar as palavras existentes em nosso idioma, as quais se encontram previstas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), prevê o verbo “impactar”, além dos vocábulos “impacto” e “impactante”. Além disso, registre-se que existe um termo sinônimo de “impacto”, constante do VOLP e dos dicionários, que é “impacção” - o mesmo que “impactação”, embora este seja mais comum à linguagem médica.

 

Em tempo, há ainda um aspecto do tema que merece atenção, no que se refere à regência do verbo. Pergunta-se: devemos dizer “a greve impactou O serviço bancário” ou “a greve impactou NO serviço bancário”?

 

Passemos à resposta. O verbo “impactar” repele a preposição, sendo verbo intransitivo (A greve impactou bastante) ou verbo transitivo direto (A greve impactou o serviço bancário). Não é adequado utilizá-lo como “transitivo indireto”, dependente da preposição “em”. Portanto, são errôneas as frases: “O estudo impactou no resultado”; “As provas impactaram no julgamento da lide”. Por outro lado, “aquilo que causa impacto, causa impacto em”. Daí se admitir, com acerto, em locução verbal, as frases: “O estudo causou impacto no resultado”; “As provas causaram impacto no julgamento da lide”.

 

Portanto, é inadequado o uso do verbo com transitividade indireta. Ainda mais agora, quando o verbo “caiu nas graças” das pessoas, sobretudo naquelas que utilizam o “economês” em seu dia a dia. O erro de regência causa um grande e negativo “impacto”. Mas, sem dúvida, é menos “impactante” que o inadequado desconhecimento da existência do verbo.

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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