Página Inicial   >   Colunas

FILOSOFIA O mito do Minotauro: a tragédia da ganância

03/10/2014 por Luciene Félix

Aristóteles estabelece e explica a estreita relação que se dá entre o mito e a filosofia. Na “Metafísica”, ele afirma que é a admiração que impele os pensadores às especulações filosóficas. O estagirita diz ainda que, no começo, a admiração (ou o espanto) se voltou para as dificuldades que se apresentavam primeiramente ao espírito: “Ora, aperceber-se de uma dificuldade e admirar-se é reconhecer sua própria ignorância. É por isso que mesmo o amor pelos mitos é, de alguma maneira, amor pela sabedoria, pois o mito é uma composição de coisas maravilhosas”. Os relatos mitológicos geralmente culminam em tragédias, causam espanto, impelem a pensar e tem por finalidade dar um norte aos cidadãos, estabelecer valores e propor uma ordem, uma conduta moral.

 

O mito do Minotauro põe em relevo a questão da posse, personificada pelo rei Minos, soberano da Ilha de Creta e de sua mulher, a rainha Parsifae. 

 

Antes do relato, vale esclarecer que desde os primórdios, esse robusto animal – o touro – está associado à força, sobrevivência, riqueza e, consequentemente, ao poder sobre os demais. E de onde vem esse “poder”?

 

O poder que o touro simboliza vem dos recursos que o animal dispõe. Da saciedade da fome (carnes, leite, queijos, manteiga, etc.), do privilégio de vestes e calçados (e demais acessórios, tais como botões, bolsas, cintos, chapéus, pentes, etc.), da força física, quando ele é utilizado de forma instrumental para cultivo da lavoura, enfim, tudo isso traduz a solidez e a segurança que a posse dele representa. O touro – com seus diversos recursos – é a insígnia primeva de elevado status material (vide o touro de bronze na Bolsa de Valores, em Wall Street).

 

Esclarecida a associação do touro aos bens, vejamos como o mito que trazemos explicita as consequências da ganância e do quanto é vão querer esconder, a todo custo, aquilo que nos constrange, pois nada nos envergonha mais que testemunhar a transmissão de nossas falhas aos nossos descendentes.

 

Minos era um rei visivelmente abençoado pelos deuses. Muito próspero, em seu reinado os animais – saudáveis – davam crias robustas, a agricultura florescia pujante, farta e todos os súditos reconheciam seu discernimento para tratar dos assuntos polêmicos, agindo sempre com justiça, harmonizando tudo e todos à sua volta.

 

Como a paz é o maior sinal de sabedoria, Minos era reverenciado e bem-quisto, gozava não somente do poder, mas também da autoridade que lhe outorgavam.

 

Certo dia, prestes a iniciar mais sete anos de governo, o rei Minos fez uma oração a Zeus, rogando que lhe enviasse um sinal que aprovasse seu bom governo, autorizando-o a permanecer no poder por mais sete anos.

 

Atendendo ao pedido, o soberano do Olimpo enviou-lhe um sinal divino. No amanhecer, ao postar-se diante do mar, Minos e todos os habitantes da Ilha de Creta ficaram estupefatos ao ver, emergindo das ondas do mar, um magnífico, imenso e imponente touro branco.

 

O touro era fantástico, gigante. Sua pele, de uma brancura que ofuscava os olhos da plateia que, maravilhados, compreendendo o sinal de Zeus, saudavam o rei.

 

Obviamente, todos sabiam que o touro deveria ser sacrificado e incinerado num altar, remetendo-o de volta ao verdadeiro dono, em agradecimento e honra a Zeus.

 

Mas Minos, que também possuía sua belíssima criação de gado, ficou fascinado pelo animal. Impaciente, passava os dias em angústia e as noites insones, pensando: – Esse touro é o animal mais belo que meus olhos já viram.

 

Ardilosamente, se indagava: − Desfazer-me de um animal robusto e perfeito como este? E, se eu escolher meu melhor touro e sacrificar no lugar desse portentoso touro divino? Zeus nem perceberia... E que linhagem extraordinária de touros eu posso desencadear!

 

Sem conseguir tirar isso da mente – vir a possuir o mais valioso rebanho – Minos decide sacrificar o seu melhor touro e o incinera, oferecendo em gratidão ao todo poderoso.

 

Onisciente, Zeus não aprova nem um pouco a atitude de Minos e, com desgosto, mesmo contrariado, pois sentia apreço pelo rei, lhe prepara uma lição.

 

Na calada da noite, a rainha Parsifae, esposa de Minos, entra no estábulo e prostra-se diante do imponente animal. Tomada por uma – inicialmente terna –, mas depois, louca e furiosa paixão, começa a acaricia-lo, beijando-o todo, sem parar.

 

E lá fica: não come, não dorme, não tece, não faz mais nada senão maravilhar-se do touro, de sua pele macia, branquíssima, de sua docilidade... O touro parecia compreendê-la e, até mais que isso, o brilho em seus olhos denunciava retribuir-lhe a paixão.

 

Desesperada, a rainha vai até o ferreiro divino, Hefestos (Vulcano na mitologia romana) e lhe implora: -− Por favor, Hefestos, construa uma imponente vaca de madeira, cubra-a com uma branca e macia pele, que seja enorme, bela e majestosa.

 

O mestre da technné hesita em atendê-la, mas em se tratando de um pedido da realeza, cumpre o solicitado: constrói a grandiosa vaca de madeira e a cobre com um branquíssimo e macio couro, tão perfeita que ninguém diria ser artificial.

 

De madrugada, a rainha Parsifae – discretamente – para que ninguém a veja, caminha até o estábulo onde se encontra o magnífico touro. Entra dentro da vaca construída por Hefestos e copula com o touro.

 

Passado um tempo, qual não foi sua surpresa em descobrir-se... Grávida! Sim, a rainha engravidara do touro de Zeus!

 

Após o período de gestação, dá à luz a uma aberração: corpo de humano, cabeça de touro. Trata-se do famoso Minotauro.

 

Perturbadoramente impressionado, Minos logo compreende, percebe que o responsável pela geração daquela anomalia, de certa forma, era ele mesmo. Sente-se impedido de condenar a rainha por ter se apaixonado pelo touro, assim como ele mesmo também se apegara.

 

Vê que aquele monstro é uma demonstração da insatisfação de Zeus. Constata que toda desgraça – castigo dos céus – é fruto de sua própria ganância, de seu desvario em se apropriar de algo que não era seu.

 

Tratou de chamar outro mestre da technné, Dédalo, e pediu que construísse um labirinto para confinar a criatura, escondendo dos olhos de todos a besta, nascida de sua ambição irrefletida às riquezas mundanas.

 

O que este mito nos ensina é que tudo está posto, tudo nos é dado, à nossa disposição, mas cabe a nós usufruirmos das coisas, sem permitirmos que elas sequestrem nosso juízo, corrompam nossos valores, dominem nossa alma (psique).

Não convém nos escravizarmos, nos tornar cegos a ponto de permitir que a cobiça nos domine. Agindo com desmedida (hýbris), nossos descendentes explicitarão essa falta: ora pródigos, ora avaros, sempre descomedidos.

No exercício do desapego está a maior das riquezas; pois, em geral, o que mais tem é aquele que menos precisa.

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2019 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br