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FILOSOFIA O Mito de Sísifo - O que você faz, enquanto Thánatos não vem?

02/12/2011 por Luciene Félix

"Combati o bom combate, percorri o caminho e guardei a fé"- Paulo de Tarso


Prestes a brindar o início de um novo ciclo, é comum nos flagrarmos planejando a conquista de novos objetivos, nos dispondo superar desafios: os exercícios físicos, a matrícula numa pós-graduação, num curso de línguas, enfim, no aprendizado e domínio de novas técnicas.

Muitas vezes, na medida em que os meses vão se passando, somos tragados por uma rotina enfadonha da qual, somente com muito empenho e força de vontade, conseguimos nos libertar.

Mas, se das constantes tarefas exigidas é quase impossível se esquivar, qual seria o segredo para desempenhá-las com prazer e alegria, evitando a sensação de estar carregando um pesado fardo a cumprir?

Clássico na mitologia grega (perdoem a redundância), Sísifo é aquele infeliz que, condenado por Zeus a empurrar uma rocha morro acima, com desgosto, testemunha o rolar da gigantesca pedra, ladeira abaixo. Preso a essa condição, diariamente, o pobre amaldiçoado é obrigado a retomar essa extenuante e infindável tarefa.

Dentre tantas revelações extraídas nesse simbolismo, podemos aventar a luta constante de um trabalho exaustivo, a empreitada infrutífera, cuja perda de tempo revela um ocupar-se em vão.

Devido à falta de entusiasmo e de perspectiva, advém-nos o tédio, a apatia e a angústia, esse extraviar-se a troco de nada, culminando numa nulidade sem saída, à qual só resta resignar-se, enfim, no "Absurdo" que é a existência humana, conforme alerta o filósofo existencialista Albert Camus (1913-1960), em sua obra "O Mito de Sísifo".

No mito, filho de Eólo (vento), Sísifo é um dos quatro grandes criminosos a receber as maiores penalidades infligidas pelos deuses, ou seja, os maiores suplícios. Os outros são Títio, Íxion e Tântalo (vide artigo já publicado na Carta Forense).

Somente dois semideuses conseguem enganar a morte, transgredindo a ponto de colocar em perigo toda a ordem do universo: Asclépio (também já publicado na Carta Forense) e Sísifo. Mas enquanto o antecessor de Hipócrates, Pai da medicina, recorrendo à ciência, o faz pelos moribundos, Sísifo saca de astúcia em benefício próprio. Ambos incorrem em "hýbris" (desmedida), o que há de mais condenável à humanidade.

Há controvérsias entre os antigos aedos (poetas) sobre a insolência que culminou em seu castigo. Para Homero, por exemplo, ao prender a Morte (Thánatos), Sísifo evitou a guerra, mantendo a paz entre vizinhos. Noutras versões, ele exercia todas as espécies de latrocínios, imolando os estrangeiros que porventura lhe caíssem nas mãos.

No entanto, maioria dos relatos desse mito aponta que sua imprudência foi, por interesse, ter revelado ao deus fluvial Ásopo que sua encantadora filha Egina (há tempos desaparecida, para desespero do pai), havia sido raptada pelo soberano do Olimpo, o todo poderoso Zeus.

Sísifo negociou informar o paradeiro da jovem com a condição de que Ásopo, divindade dos rios, fornecesse uma fonte eterna à prestigiada cidade de Corinto, administrada por ele.

Punindo-o por essa traição, Zeus ordenou que a Morte fosse buscá-lo. Precavido, Sísifo a trancafia até que Ares, o deus da guerra, se vendo prejudicado diretamente, encontra e resgata Thánatos.

Extremamente inteligente, astuto, antes de partir para o reino dos mortos, presidido por Hades, Sísifo orienta sua esposa Mérope a não o enterrar sob hipótese alguma, suplicando que não o sepulte nem lhe preste as devidas homenagens fúnebres, como a toda boa e virtuosa esposa cabe fazer, quando o marido morre.

Assim que chegou à sombria morada de Hades, Sísifo dirigiu-se diretamente à consorte deste, Perséfone e, fingindo perplexidade e indignação, se queixa da agonia que é não ter sido velado nem sequer honrado com os rituais de costume. Expondo o desgosto que o ultraje e a humilhação o obrigam a sofrer, implora para retornar ao mundo dos vivos a fim de punir a negligência de sua mulher.

Argumentando que sua presença ali é demasiada irregular, promete voltar em três dias. Comovida por seu pedido, Perséfone o autoriza a regressar, mas assim que se vê novamente sob a luz do Sol, Sísifo, fingindo "esquecimento", propositalmente, não retorna ao reino dos mortos. Agradece a mulher por ter cumprido à risca sua orientação e tem muitos filhos com ela, vivendo tranqüilo, por muitos e muitos anos.

Quando finalmente Thánatos, a morte da qual ninguém escapa, o encontra novamente, já idoso, Sísifo é obrigado a regressar outra vez ao reino dos mortos. Zeus decide então, aplicar uma punição exemplar: o eterno suplício de executar um trabalho cansativo e interminável, portanto, em vão.

Sabemos que a todo e qualquer mortal é vetado escapar à finitude e que a punição de Sísifo nos remete a outra necessidade inerente à condição humana: a de nos ocuparmos, rotineira e preferencialmente, exercendo um trabalho digno, bem remunerado, que nos contente.

Aspirar por conquistar os benefícios de desempenhar uma atividade que, diferente de Sísifo, não seja um estorvo infindável, mas fonte de alegria e até reconhecimento é uma das mais lícitas ambições humanas, pois ansiamos poder fazer algo gratificante e, quando generosos, útil.

Honestidade, bom senso e lucidez na escolha - pessoal e intransferível - de nossa própria rocha transmutam punição em benção, castigo em graça. Tenhamos, portanto, discernimento: "O rochedo que ele rola sem descanso, pode bem ser o emblema de um príncipe ambicioso que revolveu muito tempo na cabeça projetos sem execução", alerta o estudioso P. Commelin. Sem dúvida, pautar-se pelos valores de outrem, tornará seu peso realmente insuportável.

Cônscios de Thánatos sempre à espreita, façamos desse imperativo uma dádiva. Até que, já bem idosos, quando presididos por seu irmão gêmeo, Hypnos (o Sono), ela nos arrebate, conduzindo ao mistério. Desejo a todos, "Feliz Ano Novo!".

Dedico este artigo aos Drs. Lucio Maia e Paulo Stanich, diretores do jornal jurídico Carta Forense e ao Prof. Dr. Marcelo Lamy, Diretor da renomada Escola Superior de Direito Constitucional - ESDC, por contribuírem com o grande prazer, aliado à responsabilidade, que tem sido abraçar minha preciosa pedra.

 

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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