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FILOSOFIA O mito da parelha de corcéis em Platão

01/02/2018 por Luciene Félix

 

“(...) não é a alma uma dessas realidades aparentadas com as Ideias [...] que servem de traço de união entre o sensível e o inteligível? ”

 

Após nos sentirmos dilacerados com o desolador artigo na edição do mês passado (O que é o niilismo?), voemos às esferas supra celestes e vislumbremos a fonte da verdade sobre nossa alma imortal.

 

No diálogo intitulado Fedro, Platão (427 a.C – 347 d.C.) apresenta a hipótese da imortalidade da alma, discorre sobre sua natureza (confira a triplicidade da alma em Platão na edição de janeiro de 2009 da CF) e, embora afirme que, para dizer o que ela é, seria preciso uma ciência, uma arte absolutamente divina, narra um mito (analogia simbólica) apresentando uma imagem ao que a alma se assemelha.

 

Imaginemos a alma, diz ele, com um poder no qual se reúnem naturalmente uma parelha de cavalos alados e um cocheiro. Mas eis que, enquanto os cavalos e os cocheiros dos deuses são todos bons e de boa raça, para o homem as suas qualidades não são puras.

 

O cocheiro (parte da alma logística, lógos, discernimento, inteligibilidade) é quem comanda e conduz os dois cavalos atrelados.

 

Um dos cavalos é excelente e de excelente raça (parte da alma timocrática corajosa, que anseia por honras e glórias).

 

O outro cavalo é exatamente o contrário, em si mesmo e pela sua origem (parte da alma epitimética, animalesca, que anseia por satisfazer os desejos concupiscentes).

 

Eis porque a condução da nossa alma, digo, da parelha de corcéis ser uma tarefa árdua, difícil e muitas vezes ingrata.

 

Há almas em que as parelhas avançam com grandes dificuldades: um cavalo puxa para baixo, fazendo inclinar o carro para terra, fazendo sucumbir o cocheiro que não o soube adestrar.

 

Quando a alma é perfeita e tem asas, eleva-se nas alturas e governa o mundo inteiro. Mas quando perde ou danifica suas asas, é arrastada até alcançar algo de sólido; aí estabelece a sua morada, tomando um corpo terrestre que parece mover-se com movimento próprio graças à força que pertence à alma.

 

As que seguem melhor os deuses e se lhes assemelham erguem a cabeça do seu cocheiro para o espaço que está fora do céu, o movimento circular transporta-as.

 

As almas a que chamamos imortais, quando atingem o cume saem, erguem-se no dorso da abóbada celeste, e aí, de pé, deixando-se levar pela revolução circular, contemplam as realidades inteligíveis que estão num espaço fora do céu: “A essência que não tem cor nem forma, e que não podemos tocar, a essência que realmente é, a única que é capaz de ver o piloto [cocheiro] da almaa inteligência, enfim, aquela que é objeto do verdadeiro saber, ocupa este lugar [a região supra celeste, o espaço fora do céu]”.

 

Platão prossegue esclarecendo que a partir dessa altura, o pensamento divino (belo, sábio, bom e justo), que se alimenta da inteligência e do saber puro, experimenta alegria ao avistar finalmente O SER EM SI e, nesta contemplação da verdade, encontra o seu alimento e a sua delícia.

 

Quando volta, tendo contemplado a Justiça em si, a Sabedoria em si e a Ciência que não está sujeita ao devir, adquire discernimento para conduzir aparelha de corcéis.

 

A razão deste grande esforço das almas para alcançar a Planície da Verdade é que a pastagem que convém à melhor parte da alma [o cocheiro] provém da pradaria que aí se encontra. A asa, à qual a alma deve a sua leveza, deve tomar aí o seu alimento.

 

A asa recebeu da natureza o poder de levar para o alto o que pesa, pois participa do divino.

 

O divino é belo, sábio, bom e justo, alimenta e desenvolve as asas da alma. A deformidade, a ignorância, o mal e a injustiça causam ruína e destruição das asas da alma dos mortais.

 

Algumas almas, não divinas, tão depressa se erguem como se baixam, não dominam bem os seus cavalos, apercebem-se de certas realidades imutáveis, mas outras lhes escapam.

 

Quando embaraçadas pelos seus cavalos, tem grande dificuldade em dirigir os olhos para os objetos reais [ideais, imutáveis, o Ser em si e por si, o Absoluto em sua pureza].

 

Outras almas, aspiram elevar-se, mas a sua fraqueza as faz soçobrar no turbilhão que as arrasta: atropelam-se umas às outras, empurram-se, tentando cada uma ultrapassar as demais.

 

Desordem, agitação, tumulto, confusão, rivalidade, esforços violentos e vãos atingem o auge, e então, por erro dos cocheiros, muitas almas ficam estropiadas, com as suas asas danificadas; apesar dos seus esforços, se afastam sem ter atingido a contemplação do Ser, e a partir daí tem a “opinião” (dóxa) por alimento.

 

Isso porque, esclarece, se todas as almas estão ávidas por seguir e aspiram elevar-se, muitas acabam reféns dos caprichos de seu cavalo indócil. Com todo desassossego, asas se estragam, as parelhas tornam-se mais pesadas e caem. A alma ganha corpo e, ao encarnar, esquece aquilo a que teve acesso lá em cima.

 

Fica assim explicada a desigualdade dos destinos humanos: “que diferença, com efeito, entre aquele que noutro tempo avistou a Verdade e que será por toda a vida amante da sabedoria ou da beleza, e aquele que então só pôde contentar-se com a opinião e que, cá embaixo, estará condenado a amar apenas mentiras e poderes falaciosos...”.

 

A visão pré-empírica das coisas que São (eternas, imutáveis, ideais) enraíza a alma, dota-a de convicção.

 

Essa realidade (da imortalidade da alma) é em si mesma indemonstrável, mas perseguir o saber, ainda que seja um saber imperfeito, recordar o imutável, ainda que sob a forma de uma reminiscência tênue, vale a pena, pois nos leva a ascender às mais altas esferas celestes e a vislumbrar aquilo que por “métexis” (participação) comungamos com os deuses imortais.

 

Obs.: Confira em meu blog (lucienefelix.blogspot.com) o decreto de Adrástea (Nêmesis, justiça distributiva) onde Platão (no Fedro) relaciona e estratifica os tipos de alma que encarnam e reencarnam na vida terrestre. E adicione meu WhatsApp (13) 98137-5711 para receber a Programação de Maio na Itália.

Luciene Felix Lamy

Professora de Filosofia e Mitologia Greco-romana

lucienefelix.blogspot.com

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
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E-mail: mitologia@esdc.com.br

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