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FILOSOFIA O mito como fundamento da moral - Parte I

03/10/2016 por Luciene Félix

A psicologia moderna viu-se obrigada a fixar sua atenção nos mitos e constatar que eles contém uma significação de ordem psíquica cujo alcance revela-se profundo, atemporal.

 

Encontramos nos primevos relatos mitológicos significações do tipo cósmico, meteorológicos e agrários e, sobre esses últimos, os mitos remetem aos movimentos dos astros e sua observável influência sobre fenômenos (estações anuais, tempestades, inundações, etc.), que favoreciam ou não nossas condições de vida.

 

Decisiva, essa criação mítica teve início quando as tribos nômades se fixaram e, reféns da  regularidade (e previsibilidade) dos fenômenos cósmicos e meteorológicos que influíam nos ciclos agrícolas, garantiu-lhes sobrevivência.

 

Sendo assim, a imaginação afetiva tornou-se função predominante na psique primitiva, incitando os antigos a tomar esses fenômenos cíclicos – ora benéficos, ora hostis – como forças ativas     intencionais.

 

Fora então essa imaginação afetiva que, personificando a “phýsis” (natureza) como divindades que se empenhavam em favorecer ou prejudicá-los (a aurora, a chuva fecundante e o despontar da primavera, por exemplo), eram recebidos como dádivas dos deuses, aos quais consagravam gratidão ou apelos.

 

No entanto, se os mitos não passassem de imaginação afetiva, fruto de preocupações utilitárias, seu sentido oculto seria tão somente – como atesta o estudioso Paul Diel – alegorias infantis em conformidade com o entendimento rudimentar de uma psique primitiva. E o interesse nessas “fábulas” seria unicamente de ordem histórica, uma vez que toda essa “ingenuidade” deu origem às criações artísticas que documentam hábitos e costumes ao longo da evolução humana.

 

Em alusão aos conflitos humanos, a psicologia reconhece os combates míticos como pano de fundo, no entanto, trata-se de uma forma de interpretação sutil, tal qual a própria natureza dos mitos.

 

Sem dúvida, os movimentos dos astros (ciclos solares e lunares), representados enquanto luta entre divindades benéficas e maléficas, não tem somente consequências de ordem utilitária, como dissemos acima. Isso porque a imensidão desses fenômenos contrasta [e ultrapassa] a breve duração de vida humana para que a alma primitiva tivesse condições de evitar colocar-se a questão essencial que visa ao mistério da existência: “De onde vem o mandato que faz que o ser humano seja chamado a viver no meio dessa imensidão que o apavora e que, no entanto, o acalenta; e o que lhe sucede depois de sua morte?”

 

Ao longo da vida, a súplica dirigida à toda natureza divinizada ganha sentido somente se o próprio homem, por seu trabalho e disciplina, ou seja, através da ação consciente e dirigida, consegue preencher as condições específicas que podem tornar útil a fertilização do solo e a criação de seus rebanhos.

 

E assim, mostrando-se dignos do favorecimento concedido pelos deuses, denominados “imortais” (cuja instância preside a vida humana de geração em geração), os “mortais” alcançaram esse intento, a saber, o de uma subsistência satisfatória.

 

É sabido que, à época do desabrochar das culturas agrárias, a psique humana evoluiu em direção a uma complexidade muito mais ampla do mero primitivismo alegórico do cosmos: “A imaginação não é somente afetiva e divagadora, mas também é expressiva e simbolizadora, assim, tornamo-nos capazes de criar símbolos, que são imagens de significação precisa, tendo por objetivo exprimir o destino do homem.”

 

À partir disso, dessa imaginação que expressa e simboliza conferindo às imagens significações precisas, abre-se à psique a contemplação do plano metafísico e, à atividade e ação humana, o plano moral, pois incluídos nessa simbolização está o próprio homem, suas aspirações (desejos, vontades), seu destino.

 

Considerando que a aspiração do homem e a benevolência da natureza divinizada (como outrora imaginamos Zeus ou Athena, por exemplo) fundem-se numa mesmíssima sublime e nobre intenção, portanto, comum (realizando desse modo seu encontro no interior de um mesmo plano simbólico), o homem, ao purificar sua aspiração (almejando a Justiça, por exemplo) pode atingir o ideal representado pela divindade.

 

O destemido herói é, simbolicamente, elevado ao status de divindade; e o símbolo divindade, por sua vez, pode tomar a forma humana e vir a visitar os mortais.

 

Por correspondência: “As divindades, que antes representavam forças [imutáveis, eternas, imortais, ideais] astrais, transformaram-se na imagem idealizada da alma humana e de suas qualidades”. A criação de mitos que relatam as aventuras dessas divindades humanizadas  ultrapassam em muito as antigas alegorias relativas à sobrevivência, mas permanecem, entretanto, co-determinadas pelo quadro da antiga significação cósmica ou meteorológica ao qual pertenciam inicialmente, afirma o estudioso.

 

Assim, por exemplo, Zeus lança o raio, o que é, no plano da significação meteorológica, uma simples alegoria. Essa alegoria torna-se um simbolismo ao incorporar uma significação de alcance psicológico: Zeus torna-se o símbolo do espírito, e o raio por ele lançado passa a simbolizar o esclarecimento do espírito humano, o pensamento iluminador (a intuição), imaginado como enviado pela divindade.

 

Convém atentar ao fato de que a significação simbólica que substitui o sentido alegórico é de ordem psicológica pelo fato de que sustenta a atividade intencional das divindades antropomorfizadas.

 

Visto que as intenções simbólicas das divindades apresentam-se tão somente como a projeção das intenções reais do homem, cria-se uma corrente de obrigações entre o homem real e o símbolo “divindade”, amalgamando criador e criatura.

 

O homem se encontra, em função do efeito de retração de sua própria projeção idealizante, como que “convidado” a participar (através de seu combate heroico) da luta travada pelas divindades benevolentes para alcançar, tanto seu bem-estar quanto seus ideais, explicitados nos virtuosos atributos conferidos ao “divino”.

 

Sendo assim, as antigas fabulações referentes à “luta” da natureza (estações do ano, sol, lua e demais cortejo a favorecer ou não o florescimento), que são divindades antropomorfizadas, só existem em função do homem e suas necessidades.

 

Porém, estas necessidades, por estarem de acordo com as intenções ideais cujo símbolo é a divindade, não concernem mais somente às utilidades exteriores da vida, a saber, a mera sobrevivência física, elas se referem cada vez mais a uma satisfação essencial cara a todos nós: a  disciplina na ação e a harmonia dos desejos, que acompanha a orientação sensata da vida.

 

Esta satisfação essencial, enfim, a felicidade, dádiva última da divindade, realiza-se através da ação que promove a atividade utilitária, MAS também encontra-se determinada pelas intenções (purificadas ou desordenadas), pelos desejos secretos, diante dos quais a divindade torna-se (simbolicamente) o juiz e o distribuidor da recompensa e do castigo.

 

Uma vez que as intenções desordenadas desencadeiam a hostilidade dos homens entre si – imperfeitos, reais e mortais –, produzindo os males terrestres, a purificação das intenções são impostas ao homem pela divindade tal qual ele a enxerga simbolicamente: perfeita, ideal, imortal.

 

Conscientes ou não, a psique que aspira ao ideal de virtude –, a do herói, por exemplo – deve combater as intenções impuras que, em última análise, são representadas por males, mazelas e monstros a serem vencidos.

 

Assim, a representação mítica, que na origem primeva detinha-se basicamente na garantia da vida, termina por exprimir conflitos intrapsíquicos da alma humana.

 

Que conflitos são esses e como ultrapassá-los, é do que trataremos em nosso próximo artigo. Por ora, simbolizando a imortalidade através da Primavera, rejubilemo-nos pela alegria da deusa da agricultura, Deméter (Ceres) em festa com o retorno de sua filha Perséfone (Prosérpina) do reino de Hades (dos mortos).

 

PS: Confiram meu novo vídeo no Youtube.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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