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FILOSOFIA O mais perverso e, paradoxalmente, o mais sublime do Universo!

03/11/2015 por Luciene Félix

 

Eis o relatório preliminar sobre nós que um visitante de outra galáxia acaba de enviar a seu grupo:

 

Estimados, terráqueos são fascinantes! A maioria é cônscia da finitude. Embora essa consciência não paute – necessariamente – a conduta. Retomando sábios antigos, circunscreverei o Todo alicerçado-o nos quatro elementos: Fogo, Terra, Ar e Água.

 

Fogo porque a metafísica (metá tá physica, o que está para além da física) é responsável por toda sorte de crenças e superstições, enraizadas desde os primórdios. O indizível, o inabarcável presentifica-se do nascimento à morte, suscitando sentimentos de gratidão bem como de desespero por dádivas e bênçãos. É comum que a metafísica seja manipulada por grupos que intermedeiam a conexão com o divino, eventual e paradoxalmente, fomentando discórdia.

 

Terra, porque estão circunscritos e intimamente ligados à matéria, ao físico, sensorial, tangível, àquilo que chamam de “real”, daí a tal “realidade” concreta na qual se movem.

 

Ar, pois o que os difere dos demais viventes é a capacidade de raciocínio e linguagem, através da qual aprimoram e avançam em técnicas, legando conhecimentos.

 

E, Água porque são susceptíveis às emoções, reféns das variações de humores no sentido hipocrático (ilustre curandeiro), culminando em gestos de comovente benevolência em termos de generosidade e – quando em desequilíbrio – responsável por inúmeros distúrbios psíquicos, de origem emocional.

 

Submetem-se e também imprimem de si no espaço que habitam (há regiões favoráveis e aprazíveis, bem como o contrário) e subdividiram o tempo conforme a própria physis: diâmetro, extensão e conformação do planeta (ciclos de estações anuais, de lunação e solar). Para consenso preciso e eficaz tanto do Tempo quanto do Espaço, desenvolveram e utilizam as ferramentas de ciências físicas e matemáticas.

 

A constituição física é frágil, o que é compensado pela engenhosidade, dom que atribuem à metafísica. Curiosos, subdividem a própria existência em fases, cujas três principais são: infância, maturidade e decrepitude. Atualmente consideram uma série de fases intermediárias (recém-nascido, bebê, criança, pré-adolescente, adolescente, adulto, maduro, idoso, etc.) e quanto mais nos extremos, maior a vulnerabilidade e probabilidade de vivenciarem violência imputada por seus algozes.

 

No entanto, essas subdivisões não são estáticas. Amostras do que denominam séculos a.C. (marco do nascimento de Cristo, figura das mais importantes), do século XV e do atual XXI, por exemplo, apontam que distinção de acepção e denominação dos períodos de vida sofre variações ao longo do tempo.

 

Devido à perecividade, o fator “Tempo” é algo que os limita e define. Julgam-no algo “valoroso”, no entanto, revelam dificuldades em lidar com ele: sentem-no como infindável no início e, à medida em que vão avançando em idade, desesperam-se pela escassez, sacando de todo tipo de subterfúgio para que o corpo não revele esse avanço. Escamoteiam letargia, flacidez, rugas, embranquecimento capilar e tudo o mais que denuncie declínio, investindo em ciências cosméticas.

 

O prazo de validade expira aos cerca oitenta ou noventa anos e subdividem-se entre os que são ou não dotados de órgão reprodutor externo, mas alguns são confusos quanto a isso. Em pico de ebulição hormonal, anseiam por se unirem em cópula, de onde extraem prazer e, eventualmente, geram descendentes.

 

Estabelecem leis e penalidades para inúmeras atividades sociais, supervisionadas por órgãos competentes. Exigem autorização ou licença do Estado para dirigir os veículos que os transportam, unirem-se em matrimônio, movimentar recursos em instituições financeiras, aventurar-se em negócios, realizar viagens e até mesmo para exercer a cidadania, que nos regimes democráticos caracteriza-se pelo direito de eleger seus representantes através do voto.

 

Curiosamente, para a atividade mais importante e irreversível da existência, que é a concepção e a responsabilidade no cuidado de seres indefesos, não há requisito prévio. Mesmo os desprovidos, os ainda em tenra idade e os inaptos (reféns de vícios e demais desequilíbrios psíquicos) procriam livremente.

 

Parte significativa das mazelas que os afligem reside exatamente no desprezo a essa questão, pois sabem que a prole quando bem-vinda e bem cuidada revela-se mais apta ao bom desenvolvimento tanto físico quanto psíquico.

 

No último século, tem sido comum casais se unirem, gerarem e desistirem da companhia um do outro enquanto a prole ainda não está apta a subsistir. Nessas ocasiões, não é raro que haja conflitos.

 

Aliás, conflitos são a tônica de muitas das relações que travam ao longo da existência. Desde os primórdios, são gregários e, por maior intimidade, os laços consanguíneos são fontes de salvaguarda e de dissabores.

 

Vaidosos, apreciam ser enaltecidos, relatam façanhas e buscam aplausos dos pares, que elegem como os “superiores” dentro de seus círculos. Todos, em maior ou menor grau, são reféns da “vanitas”. Patéticas, muitas dessas vaidades são até ingênuas: exibem orgulhosos o alimento que ingerem, por onde andam e o que fazem.

 

Fonte de vaidade também são as características físicas, os dons e talentos. Enaltecem a harmonia das proporções físicas e, por haver variação nas cores de pele, cabelos e olhos, medem-se uns aos outros, recorrendo a métodos que propiciem atrativos que os destaquem, tornando-os alvo de inveja do grupo.

 

Tal qual os dedos de suas mãos, não são iguais, mas parecidos. Após cerca de dezesseis horas em atividades que assegurem a subsistência, a manutenção do status alcançado ou ainda empenhando-se em atingir o almejado, o organismo exige repouso. Alimentam-se cerca de três vezes ao dia, são dotados de mecanismos excretores eficazes e não sobrevivem sem ar e água.

 

Seus instintos – quando não domesticados – os levam a atos de barbárie contra os indefesos, sobretudo crianças e, mesmo cônscios do quão irreversíveis são tais perversidades, negligenciam a interditos como incesto e pedofilia, que perpassam sorrateiramente por séculos de existência. Alvos de injustiça e violência são também os desprovidos de acesso à educação, de recursos e os idosos.

 

Através de mecanismos de fala e escrita, compartilham descobertas notáveis e incessantes, assegurando-se de progressos em saúde, segurança, comodidade e conforto, itens que pautam a estratificação social, pois subdividem-se em classes que denominam: baixa, média e alta.

 

Como em tudo, há subdivisões. Quanto menor a capacidade de acesso aos bens, mais baixo o nível econômico e menor a garantia de uma existência digna, enquanto que, quanto mais elevado o estrato social, maior o desfrute de privilégios, cujo anseio é constante e insaciável.

 

Soberbos, são atraídos pela demonstração de poder, com o qual, além de assegurar luxos e exclusividades, exercem comando sobre os demais. O poder, sobretudo político (zelar pela pólis, pela res pública) é pervertido em seu propósito e manipulado a fim de angariar fama, honras e principalmente fortunas, pois no afã de amealhar tesouros sobre a Terra, ferrenhos e costumeiros transgressores de Leis, impiedosamente, enganam, mentem, desrespeitam, roubam, ludibriam, extorquem e até matam.

 

Xenófobos, são condescendentes com aqueles que consideram como sendo “os seus”. E de muita má vontade para com os que não compactuam com costumes, crenças ideias e ideais.

 

Talvez, “de fora”, percebamos melhor quem somos.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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