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CRÔNICAS FORENSES O LADRÃO

03/10/2016 por Roberto Delmanto

 

            Era o tempo da ditadura militar depois do AI-5, quando a repressão do regime recrudescera, com o aumento de assassinatos, desaparecimentos de pessoas e torturas, o mais hediondo dos crimes contra os direitos humanos.

 

            A jornalista M. nunca fora comunista, como provavam os inúmeros artigos que publicara em importante jornal paulistano. Já Y., sua amiga de infância, entrara para a subversão, passando a viver com o chefe de uma conhecida organização clandestina.

 

            Ambas não se viam há anos, até que, em uma noite, Y. apareceu de surpresa no apartamento de M., pedindo-lhe ajuda. Ela, com outros guerrilheiros, fôra expulsa do Vale da Ribeira pelo exército. Seu estado era lastimável, com o corpo  todo deformado por picadas de mosquitos.

 

            Condoída com a situação de  Y., M. permitiu que ela pernoitasse em seu apartamento, encaminhando-a, na manhã seguinte, à casa de um amigo, médico recém-formado, que cuidou de seus ferimentos.

 

            Quando um militante era preso, dizia-se que "a casa caiu", pois, torturado, em geral denunciava os companheiros. Foi o que aconteceu com o grupo de Y., tendo os nomes de M. e do médico aparecido.

 

            Por ocasião do julgamento na Auditoria Militar do Exército em São Paulo, composta por um juiz auditor (togado) e quatro oficiais, o advogado do médico "inventou" um romance de seu cliente com M., que era casada, dizendo que ele só tratara da amiga dela por estar apaixonado.

 

            Em minha defesa oral perante o Conselho de Sentença,afirmei que tal argumentação não só não tinha qualquer apoio na prova dos autos, como também não era digna, sustentando que M. agira apenas por uma questão humanitária, nada mais do que isso.

 

            E, sabendo do sentimento de honra dos militares, contei-lhes a história do lorde inglês.

 

            Estava escalando, à noite, o muro da casa da amante para alcançar seu quarto, quando um guarda o surpreendeu e, iluminando-o com sua lanterna, perguntou-lhe:

 

            "O que você está fazendo aí?".  Ao que o lorde imediatamente respondeu: "Eu vim roubar".

 

            O Conselho absolveu M. por unanimidade, condenando o médico tão temerariamente defendido...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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