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Língua Portuguesa O Hífen e o acordo

03/02/2009 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

Desde o dia 1° de janeiro deste ano, estão valendo as novas regras de acentuação e ortografia impostas pelo Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

 

Sabe-se que o período de transição para o uso das mudanças em nosso dia-a-dia é longo - quatro anos -, porém se faz necessário, desde já, enfrentar os pontos mais delicados das novas regras.

 

Um deles refere-se ao uso do hífen, considerado um dos "vilões" do Acordo. O motivo é simples: antes das mudanças, o uso do hífen já se mostrava deveras complicado. Após o acordo, espera-se que o usuário da língua se mostre mais disposto a assimilá-lo.

 

Sendo assim, antes que este "sinalzinho" venha recriar problemas entre nós, vamos tratar dele com a merecida atenção:

 

Com boa parte dos prefixos (proto-, extra-, pseudo-, semi-, infra-, e outros), o hífen sempre foi utilizado antes de palavras que se iniciavam por H, R, S e vogal.

 

Agora a regra mudou. Após o Acordo, o hífen só será utilizado se o segundo elemento iniciar-se por H ou por vogal idêntica àquela do final de certos prefixos. Traduzindo:

 

1. Se antes o hífen era obrigatório em auto-escola, agora se escreve autoescola, pois "escola" se inicia pela vogal "e", que não é idêntica à vogal final "o" do prefixo "auto";

 

2. Se antes o hífen era obrigatório em contra-indicação, agora se escreve contraindicação, pois "indicação" se inicia pela vogal "i", que não é idêntica à vogal final "a" do prefixo "contra".

 

Em sala de aula, tenho usado um lúdico recurso para que os alunos memorizem a regra, principalmente para concursos públicos. Refere-se à analogia da regra com a canção de roda, de nossa infância, "Atirei o Pau no Gato".

 

Observe o quadro comparativo e tente entoar a canção, aplicando-a à regra do hífen:

 

 

 

 

Cantiga de Roda

Regra do Hífen

 

Atirei o pau no gato (tô tô)

Mas o gato (tô tô)

Não morreu (reu reu)

Dona Chica (cá)

Admirou-se (se)

Do berro, do "berrô" que o gato deu

Miau !!!

 

 

PROTO, EXTRA, PSEUDO, SEMI, (mi)

 

INFRA, SUPRA, (prá)

 

INTRA, NEO, ULTRA

 

CONTRA, AUTO, (tô)

 

Levam hífen, (fén)

 

Antes de H

 

E idêntica vogal!!!

 

 

 

Nota-se que o recurso musical é meramente subsidiário, em homenagem à melhor didática. Isso porque, como se pôde notar, a adaptação não é de todo simétrica, todavia é mais uma forma de se assimilar uma regra pouco convidativa, ainda mais em razão do extenso rol de prefixos a ela associados.

 

Buscando-se, ainda, auxiliar a memorização, demonstramos abaixo algumas palavras que sofreram modificações com o Acordo, a fim de que o leitor possa visualizar a mudança - e ratificar a grafia à luz do recurso musical acima sugerido:

 

Grafia anterior ao Acordo

Como ficou...

Extra-escolar

Extraescolar

Contra-oferta

Contraoferta

Contra-indicação

Contraindicação

Intra-ocular

Intraocular

Auto-estima

Autoestima

Auto-ajuda

Autoajuda

Extra-oficial

Extraoficial

Semi-aberto

Semiaberto

 

 

Por fim, registre-se que o hífen deverá ocorrer nas palavras em que o segundo elemento iniciar-se por idêntica vogal, o que se dava, normalmente, antes do Acordo. Note os exemplos:

 

Anti-ibérico

Arqui-irmandade

Semi-interno

Contra-almirante

Auto-observação

Supra-auricular

 

 

Da mesma forma, o hífen aparecerá nas palavras em que o segundo elemento iniciar-se pela consoante "h", o que também ocorria, antes do Acordo. Observe os exemplos:

Extra-humano

Semi-hospitalar

Ultra-hiperbólico

Semi-histórico

 

 

 

 

Essas são algumas regrinhas para o hífen. Tenho dito que o tempo será o responsável pela nossa adequada assimilação do Acordo. Enquanto isso, não devemos adotar a postura comodista de "dar tempo ao tempo". É "hoje" o tempo da assimilação, do estudo, da aprendizagem. Que venha o Acordo! Ele é "bem-vindo"! Aliás, mais uma palavra que continua hifenizada após o Acordo...  Boa sorte a todos nós!

 

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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