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CRÔNICAS FORENSES O gesto e o quadro

03/11/2015 por Roberto Delmanto

A jovem, pertencente a tradicional e conceituada família, casada e com filhos ainda menores, depois de separar-se do marido, uniu-se a um policial militar.Após alguns anos de conturbada  convivência, o companheiro, por ciúmes, matou-a a tiros sem qualquer chance de defesa.

 

Os pais da moça eram, há muitos anos, amigos de meu pai Dante,  e ele foi  no caso seu advogado. Acompanhou o inquérito policial, a instrução judicial, a pronúncia, a confirmação desta pelo Tribunal de Justiça e, por fim, atuou como assistente da promotoria no júri a que o policial foi submetido.

 

Condenado a elevada pena por homicídio duplamente qualificado, a  decisão foi confirmada em 2ª Instância e transitou em julgado. O policial, que já estava preso provisoriamente, passou, então, a cumprir a pena privativa de liberdade em regime fechado.

 

Como não havia sido firmado um contrato de honorários com a família da vítima, esta perguntou a meu pai o valor de seus honorários.Tendo ele respondido que, em razão dos laços de amizade existentes, nada havia a ser pago, o avô da ofendida, patriarca da família, deu a meu pai um belíssimo quadro que adquirira em uma exposição internacional de Paris e estava na sala principal de sua casa.

 

De autoria do pintor francês  Henri Royer, mostra uma cena em praia da Normandia. Três mulheres- mãe e duas filhas- aguardam o retorno do marido e pai pescador , que tarda a voltar do mar agitado.

 

O semblante de cada uma delas é diferente : uma das filhas, desolada, nada mais espera; a outra , muito apreensiva, teme pelo pior; já a mãe, no meio delas, rezando o terço, tem o rosto sereno e confiante na ajuda de Deus para a volta dele...

 

O quadro, lembrando o penúltimo julgamento popular de que meu pai participou, seu nobre gesto e a gratidão do avô da ofendida, está hoje na sala de reuniões de nosso escritório. E a figura da mãe simboliza, para mim, a esperança que os criminalistas, como defensores ou acusadores, devem sempre ter no triunfo final da Justiça...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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