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Crônicas Forenses O Genro

04/12/2006 por Roberto Delmanto

A respeitável senhora era descendente de tradicional família paulistana. Riquíssima, possuía enorme patrimônio imobiliário, constituído principalmente de prédios de apartamentos.

 

Um desses edifícios, próximo à zona do meretrício, acabou, pouco a pouco, sendo ocupado exclusivamente por prostitutas. A proprietária ignorava a real profissão das inquilinas, já que a locação era feita por conhecida empresa administradora de imóveis, a quem outorgara procuração.

 

Por solicitação de vizinhos do prédio foi instaurado um inquérito policial. Concluído este, um Promotor de Justiça acabou por denunciar a dona do edifício pelo vexatório crime de exploração do lenocínio.

 

A veneranda senhora, constrangida, incumbiu o genro, jovem executivo, de contratar-nos para ser seus advogados.

 

Meu pai Dante, com sua larga experiência profissional, apesar do absurdo da acusação, preferiu não impetrar uma ordem de habeas corpus para tentar trancar o processo. Optou por orientar o genro a contratar um advogado cível e promover o despejo das indesejáveis inquilinas, por desvirtuamento da locação.

Ao final do processo criminal, o próprio Promotor que denunciara a veneranda dama, tomando conhecimento das ações de despejo propostas, acabou por pedir a sua absolvição, que veio, então, a ser decretada.

 

O genro, que durante a ação penal tivera muito contato comigo, guardava seu carro na mesma garagem do centro da cidade em que eu costumava deixar o meu.

 

Apesar da justíssima absolvição da sogra, cada vez que, ao pegarmos nossos automóveis mais ou menos no mesmo horário do final da tarde, ele se encontrava comigo, ao invés de me cumprimentar, se escondia atrás de uma das colunas da garagem até que seu veículo fosse trazido pelo manobrista. Aí, então, se dirigia rapidamente ao mesmo sem olhar para os lados.

 

É verdade que os ex-clientes dos criminalistas não gostam, em geral, de reencontrar seus antigos advogados, ainda que tenham sido absolvidos. As lembranças das agruras do processo criminal certamente os leva a isso. Mas esconder-se atrás das colunas da garagem, quando o cliente sequer fora ele, mas sim a sogra, sem dúvida foi demais...

 

 

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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