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Língua Portuguesa O Futebol e a Língua Portuguesa

05/10/2005 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

Há poucos meses, a bola rolou nos pés de jovens carentes vindos de seis países que, ao lado do Brasil, integram a CPLP - Comunidade de Países de Língua Portuguesa - Portugal, Angola, Guiné Bissau, Cabo Verde, Moçambique e Ilhas São Tomé e Príncipe.

Tratava-se de uma espécie de copa do futebol entre países de língua portuguesa. O futebol foi o meio escolhido para integrar as sete nações lusófonas que compartilham o mesmo idioma. Uma dúvida poderia surgir:

"Qual a ligação entre o futebol e a língua portuguesa?"

O futebol é a linguagem dos pés, é gramática pura. Assim como nossa música popular o é. Na verdade, o futebol e a MPB são ambientes que congregam acontecimentos lingüísticos de relevo. Quem disse que a gramática só se encontra nela própria?

Entretanto, há um fenômeno lingüístico curioso na linguagem futebolística: o abuso de estrangeirismos. Qual seria a razão? É fácil descobrir. Como foram os ingleses que introduziram aqui o futebol, é natural que tenhamos adotado vocábulos de sua língua: penalty, corner, shoot, football, crack, team e dribble. Com o tempo, é claro, tratamos de aportuguesá-los, preferindo na prata da casa os termos equivalentes. Hoje temos "pênalti", "escanteio", "chute", "futebol", "craque", "time" e "driblar". Como dizia Gilberto Freyre, nós os "tropicalizamos".

Aliás, com relação ao termo "futebol", não há dúvida de que "pegou", apesar de alguns puristas radicais terem proposto a adoção da estranha latinização da forma para "balípodo" ou "ludopédio", baseando-se em palavras latinas que significam "jogo" e "pé". Já imaginaram um "ludopédio entre São Paulo e Palmeiras", por exemplo? Não faz o menor sentido, pois "futebol" é um aportuguesamento suficiente.

Na seara da "tropicalização", há um longo caminho a percorrer, pois algumas palavras estrangeiras se mantêm fortes no linguajar cotidiano do apaixonado pelo esporte, sem que se adote a pronúncia doméstica, mais adequada. Um exemplo é o tal de "play off", no lugar de "a melhor de três", de "eliminatórias" ou de "semifinais". Importamos o termo do basquete norte-americano e aqui o plantamos, fincando raízes...Sabemos que estrangeirismo é léxico. É "a janela da língua com o mundo", conforme Evanildo Bechara, mas não haveria aí um certo exagero?

Não obstante, podemos dizer que, na luta pela prevalência das formas, o português tem levado a melhor. O futebol é a prova mais elucidativa de que o idioma nacional triunfou. Se o esporte é originariamente inglês, todos sabem que, no passado, era jogado em inglês e só. Portanto, não entravam em campo o goleiro, mas o "e;"e;goalkeeper, e nem o zagueiro, mas o "e;"e;back. Tudo isso mostra a vitória triunfal da língua pátria que acaba por refletir o próprio futebol em nossas terras.

Assim, esta prática esportiva nos é hoje particular, e o é com aquilo que temos de mais íntimo e peculiar - o idioma. Não jogamos mais "football" à inglesa, mas futebol à brasileira. Que orgulho, não acham?

Quanto aos clubes, sempre se pergunta sobre como devemos nos referir a eles: no masculino ou no feminino?
De fato, não é de hoje que a imprensa se vê em uma interessante polêmica: qual o gênero dos clubes? Fala-se "o Palmeiras", mas é sabido que temos ""e;a"e; Sociedade Esportiva Palmeiras"; fala-se "a Juventus" e "a Fiorentina" (equipes italianas), mas o gênero seria mesmo feminino? Particularmente, nesse último caso, a concordância, no idioma italiano, seria justificável, pois subentendem os vocábulos italianos femininos "associazone" ou "squadra". O problema é que falamos "português" por aqui, não?
Nesse passo, aconselho o apego à tradição segundo a qual os times de futebol devem conter o gênero masculino: o flamengo, o Palmeiras, o Corinthians. Para nós, é notório que a pronúncia dos clubes ou times sempre veio no gênero masculino, exceto para situações específicas, como "a" Portuguesa (Associação Portuguesa de Desportos). Seguir o gênero preciso obrigaria "o Palmeiras" - Sociedade Esportiva Palmeiras" - virar "a Palmeiras". E acho que ninguém aqui - torcedor, rival, imprensa - iria gostar...

É fácil perceber que, embora sejamos cultores da norma e de seu rigor, às vezes, devemos nos deixar levar pela razoabilidade, sem "histeria" demasiada. Seguir o gênero ideal na nomenclatura de times poderia rimar com o purismo, entretanto, seria um atentado ao costume brasileiro - o que faz do nosso futebol ser tão nosso... Aqui se fala em futebol dia a dia; comenta-se o gol, não como um simples ponto que se marca com a transposição da baliza do adversário, mas como um sinal de poder, de hierarquia, de justificação social. Aliás, se um time vence por 1 x 0, tem-se um gol. Agora, se um time vence por 2 x 0, tem-se o quê? Qual seria o plural de gol?

Até o VOLP - Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, nas edições de 1999 e 2004, consagrou textualmente o plural desse substantivo. O plural de gol usado no Brasil é "gols". O normal seria que fosse gois (ô), todavia não foi essa forma que se adotou como vernácula.

Aqueles jovens carentes, ao representarem as nações lusófonas, por meio do futebol, expressaram-se com os pés...e todos se comunicaram. Portanto, não há dúvida que o futebol e a língua portuguesa têm algo em comum, que torna o primeiro uma poderosa manifestação da segunda - uma espécie de "língua da língua". Viva o futebol... e a língua portuguesa!

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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