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CRÔNICAS FORENSES O Estranho Crime de Marselha

03/08/2010 por Roberto Delmanto

Em Marselha, no sul da França, há muitos anos houve um crime que abalou a opinião pública.

O contador de uma grande empresa todos os sábados sacava vultosa quantia do banco e pagava o salário semanal dos funcionários. Em seguida, costumava passar no consultório de seu médico e amigo, para um bate-papo.

Certa feita, após retirar o dinheiro do banco, simplesmente desapareceu sem pagar os empregados, tendo sua firma comunicado o desaparecimento à polícia, que passou a investigá-lo.

Informados pela esposa do contador do hábito que ele tinha de visitar o médico, os policiais foram procurá-lo, tendo ele declarado que, naquele sábado, o contador excepcionalmente não aparecera.

Meses depois, um dos investigadores - persistente como são os bons policiais - descobriu que o médico, quando jovem, morando em cidade vizinha, dera um cheque sem fundos, e resolveu retornar à clinica para reinquirí-lo.

Ao fazê-lo, o médico manteve a mesma versão. Nessa oportunidade, entretanto, o investigador estranhou o mau cheiro existente na sala de espera. Retornou algum tempo depois e o odor se tornara mais forte.

A polícia resolveu, então, vistoriar o consultório, terminando por encontrar, enterrado em uma das paredes da sala de espera, o corpo do contador. Necropsiado, foi constatada uma única lesão na cabeça, que poderia ter resultado tanto de um golpe quanto do próprio emparedamento.

Preso, o médico mudou sua versão. Disse que o contador, naquele sábado, realmente estivera em seu consultório, ocasião em que estava passando muito mal. Aplicou-lhe uma injeção na veia e, imediatamente depois, ele faleceu. Temendo ser processado por um erro médico, que atingiria sua reputação, resolveu sumir com o corpo, emparedando-o. Quanto ao dinheiro, afirmou que o contador não portava consigo qualquer valor.

Em sua nova versão, insistiu o médico no fato de que, se fosse o cadáver exumado, certamente seriam descobertos vestígios da droga que aplicara. Seu defensor, famoso criminalista, pleiteou a exumação, mas ela foi negada em todas as instâncias.

Condenado à prisão perpétua, o médico foi enviado à terrível prisão da Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, da qual, em razão das fortes correntes marítimas e da grande presença de tubarões, ninguém escapava vivo.

O médico conseguiu, contudo, fugir, homiziando-se na vizinha ilha de Martinica, até hoje possessão francesa. Voltando a clinicar sob um falso nome, ganhou notoriedade, tendo, inclusive, em certa ocasião, curado de grave doença a filha do governador local.

Anos depois, descoberta a verdadeira identidade do médico, a França passou a pedir sua extradição. Muito grato a ele, o governador opôs-se ao pedido, e o médico continuou morando e clinicando na Martinica. Admirado e estimado por todos em virtude de sua competência e humanidade, lá viveu por muitos anos, vindo a falecer bastante idoso.

Diante da negativa da exumação pela justiça francesa, que poderia corroborar a segunda versão do médico, o crime permaneceu no terreno da dúvida, e, assim, entrou para os anais forenses....

 

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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