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CRÔNICAS FORENSE O Escrivão - Juiz

01/09/2009 por Roberto Delmanto

Sua verdadeira vocação era a magistratura e seu maior desejo ser juiz como o irmão desembargador.

Não conseguindo, tornou-se escrivão. Ou melhor: um dos mais conceituados e eficientes que o Fórum Criminal de São Paulo já teve.

Seu cartório funcionava como um relógio. Tudo ali corria de modo perfeito: os processos tinham o andamento sempre em dia, as diligências eram todas cumpridas a tempo e certificadas nos autos, e os prazos, respeitados.

Tratava sempre bem os escreventes, sem deixar de manter o respeito e a disciplina. Era atencioso e cordial com o juiz, com o promotor, com os advogados e com qualquer pessoa que procurasse uma informação em seu cartório.

Sempre bem vestido, nunca faltava ao serviço, exercendo seu cargo com absoluta dignidade. Sua mesa ficava em cima de um estrado que a deixava mais alta que as demais, e sobre ela havia uma placa com seu nome em letras maiúsculas: DR. OLIVEIRA.

Mas a frustração de não ser juiz, embora bem disfarçada, permanecia apesar dos anos que se passavam.

Percebendo-a, um dos magistrados que ficou por muito tempo naquela Vara resolveu incumbir-lhe de presidir, no próprio cartório, um ato judicial que deveria ser realizado na sala de audiências por ele, juiz: a audiência admonitória do sursis, ou seja, da suspensão condicional da pena.

Era o dia de glória do Dr. Oliveira. Na hora aprazada, quando o réu e seu defensor chegavam, ordenava que o acusado ficasse de pé na frente de sua mesa, convidando gentilmente o advogado a sentar-se ao lado dele, escrivão.

O cartório parava, então, literalmente: os escreventes interrompiam seus serviços e o próprio balcão deixava de ser atendido. Todas as vistas voltavam-se para a mesa do escrivão e o ato se realizava com a maior solenidade. Ele, como se juiz fosse, lia para o réu a parte final da sentença onde constava a pena imposta, explicava-lhe as condições que deveria cumprir durante o sursis e, ao final, exortava-o a se regenerar e seguir o bom caminho.

Quando estava para se aposentar, o escrivão-juiz viu seu antigo sonho realizar-se na pessoa do filho bacharel que, tendo passado em dificílimo concurso, entrou para a magistratura...       

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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