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Cidadania O encontro mafioso de Temer com Joesley Batista

01/06/2017 por Luiz Flávio Gomes

 

 

O perverso crime organizado dos poderosos no Brasil já começa a revelar contornos semelhantes aos da máfia siciliana. Um exemplo disso foi o encontro clandestino, fora da visibilidade pública, nos porões do Palácio Jaburu, às 23h, entre Michel Temer e Joesley Batista. Este gravou o teor bombástico da conversa.  

 

Parafraseando Ernesto Rossi, citado no livro Cleptocracia, de G. Sapelli (SAPELLI, 1998), diríamos (veja nosso livro O jogo sujo da corrupção, Astral Cultural Editora):

 

1. Quando os detentores mafiosos do poder econômico e fi­nanceiro (Odebrecht, JBS, alguns bancos etc.), ou seja, a plutocracia delinquente, financiam as caríssimas campanhas eleitorais dos políticos corruptos, por meio de seus departamentos específicos de propinas, transformando-se em árbitros do sucesso ou fracasso eletivo dos candidatos;

 

2. Quando esses poderosos econômicos, financeiros e também midiáticos podem pressionar ou extorquir o governo, perturbando ou manobrando, consoante seus interesses, a ordem pú­blica, a credibilidade na política, a confiança nas instituições, a produção legislativa, algumas importantes decisões judiciais, a bolsa de valores (com suas especulações), a estabilidade dos governantes, o clamor po­pular e setores das redes sociais;

 

3. Quando tudo isso acontece com a conivência ou cumplicidade das instituições fiscalizatórias, como Parlamento, tribunais de contas, mídia, Justiça, povo etc.;

 

4. Quando dentro das elites dirigentes destacam-se algumas fortunas (plutocracia) ou pessoas influentes (donos do poder) que conseguem dominar os grandes meios de comunicação que formam e manipulam, de acordo com sua conveniência, a chamada “opinião pública”;

 

5. Quando nas mãos dos donos do poder se acham armas muito perigosas para o bom funcionamento das instituições responsáveis pelo desenvolvimento saudável do país;

 

6. Quando esses poderosos, no lugar do capitalismo competitivo, deliberam construir um tipo de relacionamento promíscuo entre a eco­nomia e a política, intermediada pela corrupção, criando-se um capita­lismo particular — à brasileira, de compadres ou “político” —, regido pelos cartéis, monopólios e oligopólios;

 

7. Quando os donos do poder econômico e financeiro são regidos por uma legalidade particular, a extralegalidade, “comprando” leis específicas para atendimento dos seus interesses, ou seja, quando a força econômica se transforma também em força política, manipulando todas as instituições da democracia e até mesmo a qualidade dela;

 

8. Quando buscam, diuturnamente, o máximo de riqueza para seus bolsos, sem nenhum projeto de nação, tornando invisíveis e desprezíveis os cidadãos restantes do país;

 

9. Quando o propósito é conquistar fortunas indevidas ou politica­mente favorecidas com o dinheiro público para satisfação dos seus ex­clusivos fins particulares;

 

10. Quando o enriquecimento pode ser al­cançado mais por meio da ilicitude impune ou do favorecimento político que pelo esforço do mercado competitivo, desestimulando as leis impessoais assim como a legalidade racional;

 

11. Quando todos os cálculos econômicos concluem que a corrupção constitui o cami­nho de menor resistência para a criação de fortunas e concentração da riqueza do país (para cada R$ 1 bilhão que a Odebrecht “in­vestiu” em propinas teve o retorno de R$ 4 bilhões em contratos);

 

12. Quando as castas dominantes interfe­rem nas leis e no funcionamento da Justiça para alcançarem a impunidade dos seus des­mandos, delitos e caprichos;

 

Sem sombra de dúvida, estamos diante de uma cleptocracia, de um governo de ladrões, amalgamada a uma plutodelinquência, em que endinheirados da plutocracia influenciam o poder político para surrupiar o dinheiro pú­blico, impunemente.

 

Juntas (cleptocracia + plutodelinquência) elas sequestraram a democracia venal, de baixa intensidade, bloqueiam o crescimento econômico sustentado do país, impedem as políticas de de­senvolvimento humano, geram brutal desi­gualdade, pobreza, fome e miséria, além de mortes, e ainda afetam a coesão social (que, reconhecidamente, está na iminência de uma verdadeira explosão). A hora é agora. Temos que assumir nossa responsabilidade cidadã, faxinando os velhos caciques carcomidos do sistema. Só com novas lideranças e novas instituições faremos do Brasil um país próspero.

 

 

 

 

 

 

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LUIZ FLÁVIO GOMES

Luiz Flávio Gomes

Doutor em Direito penal pela Universidade Complutense de Madri, Mestre em Direito Penal pela USP e Diretor-Presidente da Rede de Ensino LFG. Foi Promotor de Justiça (1980 a 1983), Juiz de Direito (1983 a 1998) e Advogado (1999 a 2001). Autor de obras pela RT e Saraiva.

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