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Crônicas Forenses O conselho, o discurso e o livro

04/06/2008 por Roberto Delmanto


            Meu avô materno, Mário Rodrigues Torres, era estudante de direito no Rio de Janeiro quando, em férias, na companhia de um amigo, esteve em Botucatu, no interior paulista. Apaixonou-se pela moça mais bonita da cidade e, formado, para lá voltou, com ela se casou e dali nunca mais saiu.

            Tornou-se advogado e político importante no município, tendo sido prefeito durante a Revolução de 30. Sem perder o espírito carioca, bonachão e tranqüilo, tinha um profundo amor pela liberdade, tanto política quanto individual.

            Certa vez, estava em seu escritório, com o pé sobre uma mesinha, amarrando o sapato, quando um antigo cliente, esbaforido, ali entrou de inopino.

            Travou-se, então, o seguinte e rápido diálogo:

            O cliente: "Dr. Mário, acabei de atirar numa pessoa!"
            
            Dr. Mário (continuando a amarrar o sapato): "Alguém viu?"

            O cliente: "Várias pessoas!"

            Dr. Mário (sem levantar a cabeça, ainda amarrando o sapato): "Então foge do flagrante, e depois me procura...".




            Logo após o golpe militar de 64, que extinguiu os partidos políticos então existentes, criando apenas dois novos - Arena e MDB -, a maioria dos parentes e amigos de meu avô filiou-se ao primeiro, que apoiava a nova ordem.

            Os netos de Mário, contrários ao golpe como a maioria dos jovens, mostravam-se inconformados.

            Algum tempo depois, a rádio local anunciou a realização de um comício em protesto contra o golpe militar.

            Na hora aprazada, proibidos pelos pais de comparecerem, mas com os ouvidos grudados no aparelho de rádio, os netos escutaram, com surpresa, o locutor anunciar o primeiro orador da noite: "Com a palavra, o ex-prefeito e advogado Mário Torres, do MDB!"

            E, em seguida, ouviram a voz sonora e inconfundível do avô: "Povo de Botucatu"...

            Os netos foram todos ao êxtase e, em seu idealismo, se sentiram confortados...


            Já com idade avançada, Mário continuava a ir diariamente ao escritório. Mas os clientes, como costuma acontecer, diminuíam, aparecendo apenas um ou outro de vez em quando. Na sua companhia, como secretário, ficava o neto Izalco Sardenberg, hoje conceituado jornalista.

            Certo dia, tendo comparecido ao escritório um cliente novo, Izalco entrou apressado na sala do avô para dar-lhe a boa notícia. Encontrou Mário tirando um bom cochilo.

            Acordando-o, Izalco perguntou-lhe se podia fazer o cliente entrar.

            Foi, aí, que Mário pediu-lhe  que,  antes,  pegasse um  livro na estante. Izalco perguntou-lhe qual e ele respondeu: "qualquer um".

            Ao recebê-lo das mãos do neto, abriu-o e, fazendo de conta que o lia atentamente, lhe disse: "agora, pode fazer o cliente entrar..."






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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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