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CRÔNICAS FORENSES O cabo e os pães

02/03/2016 por Roberto Delmanto

 

Em 1964 o Brasil estava dividido e radicalizado entre a esquerda e a direita. Esta temia um golpe que implantasse uma ditadura comunista semelhante a de Cuba; aquela receava outro, que instaurasse uma ditadura militar. Venceu a direita, cujo golpe, com apoio dos Estados Unidos através do embaixador Lincoln Gordon, vinha sendo preparado há tempos.O estopim que o deflagrou foi o famoso comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, convocado pela esquerda, quando o cabo Anselmo, da Marinha, na presença do Presidente João Goulart, pregou a sublevação no meio militar.

 

Logo em seguida, em 31 de março, há 52 anos, o General Mourão Filho, com apoio do Governador Magalhães Pinto, partia de Minas com suas tropas em direção ao sul.Com a adesão de outras lideranças militares e civis, João Goulart foi deposto, exilando-se no Uruguai.

 

O marechal Castelo Branco, que se destacara na Força Expedicionária Brasileira durante a 2ª Guerra Mundial, foi o primeiro presidente militar. O regime endureceu quando ele foi sucedido pelo general Costa e Silva. Proclamado o AI-5, foi abolido o habeas corpus, cerceados direitos de reunião e associação, e extintos sindicatos e entidades civis.

 

Entre as organizações banidas estava a U.N.E., que congregava as lideranças estudantis e decidira fazer, secretamente, um congresso em Ibiúna, no interior paulista. O máximo cuidado foi tomado para que nada transpirasse, pois em todo o país a polícia política estava de prontidão.

 

Tudo parecia correr bem, até que, logo no primeiro dia, dois estudantes encomendaram em uma padaria local mais de 300 pães, ficando de vir buscá-los na manhã seguinte. O padeiro, que nunca recebera encomenda tão grande, estranhou e avisou a polícia que prendeu todos os participantes.

 

A ditadura militar durou 21 longos anos. Em seu nome, inúmeros homicídios, desaparecimentos de pessoas e torturas - o mais execrando dos crimes contra os direitos humanos foram cometidos . A esquerda, através de organizações que a combatiam, também cometeu graves delitos, mas, certamente, em dimensão muito menor.

 

Com o restabelecimento da Democracia- que Churchill, embora a considerando um péssimo regime, dizia não existir outro melhor,o Cabo Anselmo confessou, publicamente, ter sido agente da CIA. E, com base na Lei da Anistia, ainda tentou obter indenização do Governo Brasileiro pelo período anterior à sua adesão ao serviço secreto norte- americano, época em que alegava ter sido perseguido. Obviamente, seu indecoroso pleito foi indeferido...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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