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Língua Portuguesa O Brasil pára para o Futebol

30/06/2006 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

 

Um aluno me indagou, um dia desses, sobre o que eu achava a respeito da Copa do Mundo. Disse-lhe que gostava muito, que torcia bastante, que assistia aos jogos com animação, mas não pude deixar de fazer um trocadilho, em abono da versatilidade de nosso idioma:

 

- "De dezembro a janeiro, o Brasil parou. Com a Copa do Mundo, o Brasil pára. Na iminência das eleições, está parando! No próximo carnaval, parará! Ninguém acredita: como o Brasil anda!?"

 

 

Com efeito, a frase encerra duas verdades: uma fática e uma gramatical. A primeira poderá nos levar ao hexacampeonato - isso é bom! A segunda - por exigir conhecimentos gramaticais - poderá ofertar ao curioso dicas importantes sobre a acentuação do verbo enfatizado - isso é melhor!

 

Assim, atenhamo-nos a esta convidativa evolução gramatical, suscitada pelo trocadilho propositado, deixando aos habilidosos jogadores de nossa seleção de futebol a concretização da primeira verdade.

 

Pergunta-se: qual é a regra de acentuação dos verbos "pára" e "parará"?

 

A forma "parará" tem a última sílaba como tônica, o que lhe dá o conceito de "oxítona". Entre várias regras que se deve conhecer, uma vem a calhar: acentuam-se as oxítonas terminadas por -a. Exemplos: vatapá, Paraná, gambá, será etc.

 

Por outro lado, o acento em "pára" visa evitar confusão. Isso mesmo! Existem os termos "para" (sem acento) e "pára" (com acento). O primeiro indica a preposição, enquanto o segundo corresponde ao verbo. É a regra do acento diferencial.

 

Note: quando digo "o time luta para vencer", uso a preposição, sem acento; em outro giro, se afirmo "o goleiro pára diante da bola", utilizo, com o acento, o verbo; por fim, se digo "o Brasil pára para o futebol", valho-me do verbo e da preposição, respectivamente. Aliás, aquele se conjuga, no presente do indicativo, como: eu paro, tu paras (sem acento), ele pára (com acento), nós paramos, vós parais, eles param (sem acento).

 

Quanto à vitória na Copa do Mundo, surge uma dúvida prosódica: sabemos pronunciar com adequação o termo "hexacampeão"?

 

É que a Copa atual fez ressurgir uma palavrinha pouco usual: "hexa". Todos falam e repetem, "enchendo a boca" para anunciar! Será que a pronúncia é fácil? Veremos que não. Vamos, então, à análise:

 

Existe divergência, entre os dicionaristas, quanto à pronúncia desse termo: há quem defenda a pronúncia original do grego héks (seis), informando que se deve utilizar o fonema /K/ no meio da palavra, que Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, ao lado de Caldas Aulete, Cândido de Figueiredo e do próprio Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa - VOLP, mostra como /cs/. Antônio Houaiss, adepto da simplicidade, afirma que a letra -x de "hexa" deve ser pronunciada como /z/. Portanto, deve-se falar "hecsacampeão" (como em "fixo"), para o Aurélio, e "hezacampeão" (como em "exame"), para o Houaiss.

 

O intrigante é que desponta divergência até mesmo entre fortes "times" de dicionaristas! E não pára por . O eminente gramático Domingos Paschoal Cegalla adota pronúncia diversa: he/gz/acampeão.

 

E nós, que estamos nas "arquibancadas", por quem devemos "torcer" nessa disputa?

 

Penso que, em disputas desse tipo, não exista campeão. Sem receio, opte e torça! Todas as formas são aceitáveis. Afinal, o valor fonético do -x é quase irrelevante perto do desejo de ser "hexa", não acha? O lado bom - oxalá! - é que na próxima Copa não teremos tal problema prosódico: o Brasil será heptacampeão! E há de ser, surpreendentemente, parando...parando...e andando!?

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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