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Crônicas Forenses O bom ladrão

01/09/2005 por Roberto Delmanto

O bom ladrão

Meneghetti, um imigrante italiano, foi o maior ladrão de São Paulo na primeira metade do século passado. Quando foi preso pela primeira vez, por volta dos 19 anos, submeteram-no a um exame criminológico. O médico que fez o exame previu, então, de forma enfática: ele tinha uma tendência inata para o furto e em sua vida futura tenderia a cometer outros delitos da mesma espécie.
Não deu outra. Em algumas décadas tornou-se o mais conhecido "amigo do alheio", espalhando-se sua fama por todo o Brasil.
Sua habilidade em escalar muros, arrombar portas e janelas era incrível. Jamais usava, entretanto, de violência ou ameaça, nunca tendo ferido ou matado ninguém. Preferia agir quando os moradores estivessem ausentes de suas casas.
Devido a sua notoriedade, inúmeros ladrões, para se livrarem de suas responsabilidades, passaram a acusá-lo de ser o autor de seus furtos.
Os processos contra Meneghetti aumentaram, por isso, enormemente, até que um jovem advogado, após minuciosa investigação, conseguiu a revisão de muitas condenações. Provou que ele, injustamente, tinha sido condenado muitas vezes por furtos cometidos no mesmo dia e horário, em locais extremos da cidade, como a Zona Norte e a Zona Sul.
Meneghetti costumava se comportar muito mal durante as audiências no Fórum Criminal, ofendendo as testemunhas e as partes, sendo quase sempre retirado da sala.
Certa ocasião, para a surpresa de todos, ele permanecia bem comportado. O Juiz resolveu, então, aproveitar para ouvir todas as testemunhas presentes. Ao final da audiência, as inúmeras páginas de depoimentos, já assinadas por todo, foram entregues a ele, para que, como réu, também as assinasse. Foi aí que Meneghetti, com incrível rapidez, sem que os guardas que o ladeavam pudessem evitar, rasgou as folhas em vários pedaços. Seguro pelos policiais, foi retirado da sala, ofendendo aos gritos os presentes. Como na época não havia computador, todo o trabalho foi perdido, sendo necessário marcar uma nova audiência para refazê-lo.
Meneghetti passou boa parte de sua vida atrás das grades. Quando foi solto pela última vez, já tinha mais de 80 anos.
A figura lendária, tornara-se folclórica. Como não dispunha de meios para se sustentar, um órgão de imprensa promoveu uma campanha a seu favor e a Prefeitura lhe concedeu licença para ter uma banca de jornais.
Algum tempo depois, não só aquele jornal, mas todos, davam a incrível notícia: Meneghetti fora, mais uma vez, autuado em flagrante por tentativa de furto, ao despencar do teto de um galinheiro de uma casa vizinha para dentro deste.
Desta vez, acabou sendo absolvido, oficialmente por insuficiência de provas, na verdade por piedade...
Com a criminalidade violenta, o crime organizado e os crimes de "colarinho branco" de hoje, podemos dizer que Meneghetti foi um "bom" ladrão...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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