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CRÔNICAS FORENSES O ASSALTANTE

01/02/2018 por Roberto Delmanto

 

            Com a decretação do Ato Institucional nº 5, em 1968, a ditadura militar recrudesceu: o habeas corpus foi abolido, entidades civis como a União Nacional dos Estudantes foram banidas, aumentaram muito os homicídios, os desaparecimentos de pessoas e, principalmente, a tortura – o mais hediondo dos crimes contra os direitos humanos. Em contrapartida, grupos subversivos assaltavam bancos para arrecadar fundos em prol da luta pela derrubada do regime.

 

            O jovem italiano, que emigrara para nosso país ainda adolescente, aqui trabalhou em importantes empresas, casou-se com moça de tradicional família brasileira e com ela teve um filho. Simpático, alegre e querido por todos, não costumava falar de política.

 

            Foi, assim, uma total surpresa quando os jornais noticiaram  sua prisão em flagrante. Teria cooptado o motorista de um carro de transporte de valores que, todavia, o delatou, revelando o plano: quando o veículo retornasse de uma fábrica de automóveis com grande quantidade de dinheiro, o italiano o interceptaria em certo lugar da Via Anchieta; no seu carro, haveria uma mala com uma bomba.

 

            Detido pela polícia que o aguardava no local combinado,  verificou-se que  dentro da mala, da qual saía um pavio, só havia um travesseiro. Imediatamente levado ao DOPS, o famigerado Departamento de Ordem Política e Social, após a lavratura do auto de prisão em flagrante, sofreu inúmeras torturas por acreditarem os policiais que ele faria parte de uma organização subversiva. Negou qualquer vínculo político, alegando que planejara o assalto sozinho e apenas para se locupletar.

 

            Assumindo sua defesa juntamente com meu pai Dante, conseguimos o relaxamento do flagrante e ele passou a se defender em liberdade. Resolveu, então, voltar à Itália. Ao se despedir de mim, disse, chorando, acreditar que talvez nunca tornasse a ver o filho.

 

            Quis, contudo, o misterioso destino que, muitos anos depois, pai e filho, este já adulto, viessem a se reencontrar em solo italiano. No emocionante encontro, o pai lhe confessou que sua atuação fora de fato política, pois pertencera a uma organização subversiva brasileira com ramificação na Itália. E, como prova, lhe mostrou uma antiga e já esmaecida carteira de membro do Partido Comunista Italiano, do qual já não fazia parte, acrescentando que perdera a esposa, a infância e adolescência do filho, mas jamais denunciara qualquer companheiro de antigos ideais...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas,
A Antessala da Esperança, Causos Criminais e Momentos de Paraíso - memórias de um criminalista, os três primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar.

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