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FILOSOFIA Nietzsche e o caráter distintivo de nobreza

03/10/2011 por Luciene Félix

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) é acusado por muitos - sobretudo os que não o compreenderam - de ser "destruidor da moral", um "filho de satã". No entanto, ele tributou a Cristo o reconhecimento de ter sido revolucionário, verdadeiro e único cristão.

Corajoso, Nietzsche teve a audácia de colocar a moral num tribunal, examinando as origens e as deturpações do não egoísmo, da compaixão (altruísmo, renúncia), sabidamente possuidores de "e;valores em si"e;, além de questionar a supremacia do Bem sobre o mal, do Bom sobre o mau.

Ele estudou uma antiquíssima religião persa, o Zoroastrismo, do profeta Zaratustra, que tem como divindade suprema Ahura-Mazda, um deus que abarca em si o bem e o mal. Em seus estudos, sempre privilegiou os primórdios: Heráclito e Sófocles inspiraram-lhe.

De uma tradicional família de pastores, ele foi também um filólogo (estudioso de línguas clássicas) contundente, apaixonado, que revolucionou os alicerces da metafísica socrático-platônica, da religião judaico-cristã e de cânones da História da Filosofia, tornando-se um dos maiores expoentes da filosofia dita "Contemporânea".

Em "A genealogia da Moral", Nietzsche confessa que desde os treze anos, na idade em que "Deus e os brinquedos da infância enchem o coração", teria indagado: "Que origem teria propriamente os conceitos de bem e mal?". E afirma que, assim que distinguiu o preconceito teológico do preconceito moral deixou de procurar a origem do mal no "além", detendo-se aqui mesmo, entre os homens, na terra.

Logo depois, diz ter visto esse problema transformar-se neste outro: "De que modo inventou o homem estas apreciações de valor: o bem e o mal? E que valor tem em si mesmas? (...)".

Para tanto, afirma ser necessário conhecer as condições e o meio ambiente em que nasceram, em que se desenvolveram e se deformaram, ou seja, na linguagem, ferramenta habilmente manejada pelos poderosos.

Foi a deformação dos valores que o intrigou: "a moral como consequência, como máscara, como hipocrisia, como enfermidade ou como equívoco, e também a moral como causa, remédio, estimulante, freio ou veneno".

Nietzsche penetrou nos recônditos da linguagem a fim de descobrir "como a besta humana de Darwin estende gentilmente a mão ao humilde efeminado da moral", rogando àqueles "que estudam a alma ao microscópio, sejam criaturas generosas, valentes, magnânimas, e dignas, que saibam refrear o coração e sacrificar os seus desejos à verdade, a toda a verdade, ainda à verdade simples, repugnante, anticristã e imoral... porque tais verdades existem".

Disse ter descoberto o método quando se perguntou: "Qual é, segundo a etimologia, o sentido da palavra "e;bom"e; nas diversas línguas?"

"Ao princípio - dizem - as ações altruístas foram louvadas e reputadas boas por aqueles a quem eram úteis (...)." Mais tarde, afirma, "foi esquecida a origem deste louvor e chamaram-se boas as ações altruístas por costume adquirido da linguagem, como se fossem boas em si mesmas".

Dessa primeira derivação, diz Nietzsche: "encontramos nisto "e;utilidade"e;, "e;esquecimento"e;, "e;costume"e;, e, por fim, "e;erro"e;, e tudo para servir de base a uma escala de valor que até hoje parecia privilégio dos homens superiores (...)". Erro porque não se trata mais de destemidos altruístas.

Uma palavra, duas conotações! A palavra grega "kairós", por exemplo: em contraponto à divindade "Chronos", que também traduzimos por tempo, mas o cronológico, kairós é o tempo oportuno. Essa palavra foi cunhada no seio da necessidade de sobrevivência, do guerreiro saber o momento apropriado para desferir com precisão o golpe certeiro na jugular do inimigo.

No mesmo espírito afirmativo, primitivamente, a palavra "bom", aptidão do forte também abarcava a conotação moral da ação julgada "boa" (útil, eficaz) em contraponto à ação "ruim" (inútil, ineficaz) e não à ação "má", no sentido de maldade.

Desviando-se do significado primevo ("Bom" em contraponto ao "ruim") a ação não-egoísta se apoderou da consciência e a origem de seu louvor foi esquecida, de modo que a ação "e;ruim"e;, confundiu-se com a má.

Em todas as línguas, esta palavra deriva de uma mesma transformação de ideias: "a ideia de "e;distinção"e;, de "e;nobreza"e;, no sentido de ordem social, é a ideia-mãe donde nasce e se desenvolve necessariamente a ideia do "e;bom"e; no sentido de "e;privilegiado quanto à alma"e; [destemida, corajosa]." E salienta que: "este desenvolvimento é sempre paralelo à transformação das noções "e;vulgar"e;, "e;plebeu"e;, "e;baixo"e;, finalmente, na noção de "e;mau"e;."

Através das raízes que significam "e;bom"e;, transparece o matiz principal pelo qual os "e;nobres"e; se sentiam homens de uma classe superior - sendo úteis, glorificavam-se: "um traço típico de caráter determina o epíteto (...)."

Com o tempo, na maior parte dos casos, diz ele, os poderosos (os donos, os chefes) tomaram o nome da superioridade do seu poder, ou dos sinais exteriores desta superioridade (os ricos, os possuidores) como rótulo, deformando o teor original, pois o traço típico, o caráter distintivo da nobreza é o de ser verdadeiro: "Chamam-se, por exemplo, "e;os verídicos"e;".

Nietzsche esclarece que "A palavra esdlos significa pela origem "e;alguém que é"e;, alguém que é real, que é verdadeiro; depois, por uma modificação subjetiva, o verdadeiro vem a ser o verídico: a esta fase de transformação da ideia vemos que a palavra que a expressa vem a ser a contrasenha da nobreza, e toma em absoluto o sentido de "e;nobre"e; por oposição ao homem vulgar, ao homem que mente (...)." Quando a nobreza guerreira declina, diz, aquela palavra vem a significar a nobreza da alma.

Na palavra kakós [mau daimon], como em deilos (que designa o plebeu em oposição ao agathos - Bom) está sublinhada a covardia, diz Nietzsche.

Tendo a regra transformado o conceito político num conceito psicológico, houve uma diferença entre "e;bom"e; e "e;mau"e; num sentido não de aptidão, mas de crueldade. Originalmente era o que distinguia o que profere a verdade, é útil e glorifica-se daquele que mente, é inútil e humilha-se.

Dizer a verdade é tarefa assumida por afirmativos, fortes, sadios, enfim, por nobres. Já a mentira é sempre acalentada pelos desprezíveis, aduladores e doentes que, covardes, não têm do quê se orgulhar.

Estes, invejosos e ressentidos, devido à debilidade senil da vontade sacarão de uma ardilosidade peculiar para realizar uma transvaloração dos valores e impor a "sua" moral: a do pobre "coitadinho". Nesta inversão de valores, caberá aos "e;bons"e; se culparem e se arrependerem tornando-se seguidores de rebanho. Prossigamos, com Nietzsche, há muito a desvelar.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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