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FILOSOFIA Nietzsche - Culpa, castigo e... Festa?

03/11/2011 por Luciene Félix

Dentre temas tão intrigantes, o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) esmiuça a origem da culpa.

 

O homem é um ser que promete e, pelo porte da promessa que julga poder cumprir, se afirma, entrelaça e equipara seu ego à magnitude de seu poder em honrar o compromisso.

 

Mas também é um ser que se esquece. Justamente por ser dotado dessa capacidade (de esquecimento) é que essa mesma "potência" se transmutará num poder ativo, numa força que educa e disciplina: a memória.

 

Eis aqui a origem da responsabilidade. Ser assaltado pela memória leva-nos a ponderar: "Esta tarefa de educar e disciplinar um animal que possa fazer promessa pressupõe outra tarefa: a de fazer o homem determinado, uniforme, regular, e, por conseguinte, calculador."

 

Essa proeza coube à moral, num constante e longínquo trabalho, desde a aurora, até o presente de nossa existência: "unicamente, pela moralização dos costumes e pela camisa de força social, chegou o homem a ser realmente calculador." Previdentes, governamos, pressentimos, enfim, tornamo-nos senhores, responsáveis.

 

Soberano, o homem que pode prometer é um indivíduo de vontade própria: "possui em si próprio a consciência da liberdade e do poder, o sentimento de ter chegado à perfeição humana.", aponta.

 

Por julgarmo-nos merecedores de crédito, não reconhecemos nem nos deixamos limitar pelas coisas que não podemos prometer, noutras palavras, não nos atemos ao imponderável e, seguimos ávidos: "(...) quanta confiança, temor e respeito inspirou o "e;merece (...)". Julgamos-nos superiores aos demais, os de vontade menos potente.

 

Assim, o homem "e;livre"e;, "o senhor de uma vontade vasta e indomável, encontra nessa posse a sua escala de valores; fundado em si próprio, para julgar os outros, respeita ou despreza, e assim como venera os seus semelhantes, os fortes que [igualmente como ele] podem prometer (...)".

 

Mas há os que são fortes e prometem como soberanos, somente depois de pensar, refletir: "(...) que dão a sua palavra como tábua de mármore, que se sentem capaz de cumpri-la, a despeito de tudo, ainda a despeito do "e;destino"e; (...)." E há também os fúteis, que prometem levianamente, sem serem verdadeiramente donos de suas promessas.

 

O filósofo afirma que estar cônscio dessa liberdade rara, "e poder sobre si e o destino chegando às profundidades maiores de seu ser passou ao estado de instinto dominante (...)". A esse instinto dominante de: "Responder por si mesmo e responder com orgulho, dizer sim a si mesmo.", Nietzsche identifica e nomeia "e;consciência"e;.

 

A primeva técnica de imprimir memória - mnemotécnica - é terrivelmente eficaz: "Imprime-se algo por meio de fogo para que fique na memória somente o que sempre dói." A memória nos faz cumprir a promessa de não brincar com fogo.

 

Onde há solenidade, gravidade, mistério e cores sombrias, diz ele, fica um vestígio de espanto, que noutro tempo presidia às transações, aos contratos, às promessas: "o passado, o longínquo, obscuro e cruel passado, ferve em nós quando nos pomos "e;graves"e;. Noutro tempo, quando o homem julgava necessário criar uma memória, uma recordação, não era sem suplício, sem martírios e sacrifícios (...) nos rituais mais cruéis de todos os cultos religiosos (porque todas as religiões foram em última análise sistemas de crueldade), tudo isso tem a sua origem naquele instinto que descobriu na dor o auxílio mais poderoso da mnemotécnica."

 

Certas ideias devem fixar-se indeléveis na memória, diz Nietzsche, a fim de hipnotizar para torná-las inesquecíveis: "o rigor das leis penais permite apreciar especialmente as dificuldades que ela [a memória] experimentou antes de se fazer senhora do esquecimento e para manter presentes na memória destes escravos das paixões e dos desejos algumas exigências primitivas da vida social."

 

Em Nietzsche, o conceito essencial da "culpa" tem sua origem na ideia material de "dívida". Culpa é dívida; seja finita ou infinita - eterna, - como a que alicerça os dogmas judaico-cristãos. 

 

Já o castigo, "enquanto represália, se desenvolveu independentemente de toda a hipótese de livre-arbítrio e de obrigação". Somente depois é que o animal homem se humanizou e "começou a distinguir entre ideias muito mais primitivas, por exemplo, "e;de propósito"e;, "e;por descuido"e;, "e;por acaso"e;, "e;com discernimento"e;, e os seus contrários para pô-los em relação com a severidade do castigo."

 

Sendo assim, se hoje temos a ideia de que "o criminoso merece o castigo porque teria podido proceder de outro modo" é devido a uma forma muito tardia e requintada do juízo e da indução, diz o alemão.

 

Em tempos cegos d"e;Outrora, o castigo fora empregado com fúria: "(...) esta cólera é mantida em certos limites e modificada no sentido de que todo o dano encontre de algum modo o seu equivalente, sendo susceptível de compensar-se ao menos por uma dor que sofra o autor do prejuízo." O ultraje que o dano excita exige reparação.

 

A ideia de que prejuízo e dor são equivalentes, diz Nietzsche, é tirada das relações contratuais entre credores e devedores "que são tão antigas quanto os processos que, por sua vez, nos levam às formas primitivas da compra e venda, do câmbio, comércio e relações."

 

Prometer instaura a memória, compromete: "O devedor, para inspirar confiança na sua promessa de pagamento, para dar uma garantia de sua seriedade, para gravar na sua própria consciência a necessidade de pagamento sob a forma de dever, da obrigação, compromete-se, em virtude de um contrato com o credor, a indenizá-lo, em caso de insolvência, com alguma coisa que "e;possui"e; [seu corpo, sua mulher, filhos, sua liberdade, a vida e até seu sossego no túmulo] (...)."

 

Nesta nefasta forma de ressarcimento (ao invés de dinheiro, bens, etc.), "concedia-se ao credor certa satisfação e gozo à maneira de compensação e pagamento, o júbilo de exercer impunemente o seu poderio com respeito a um ser reduzido à impotência (...) e este gozo é tanto mais intenso quanto mais baixa é na escala social a classe do credor, quanto mais humilde é a sua condição, porque então é-lhe mais saboroso o bocado."

 

Desconfortável aos espíritos mais sensíveis, o alemão perturbador constata que "Pelo castigo do devedor, o credor participa do direito de senhor: finalmente chegou a sua vez de saborear uma sensação enobrecedora, de desprezar e maltratar o que esteja por baixo dele (...). A compensação consiste, pois, na promessa e no direito de ser cruel."

 

Para Nietzsche, a origem dos conceitos morais de "e;culpa"e;, "e;consciência"e;, "e;dever"e;, "e;santidade do dever"e;, "e;dor"e;, encontram-se nessa esfera (da crueldade). A dor compensava as dívidas simplesmente porque "o fazer sofrer causava um prazer imenso à parte prejudicada (...), o extraordinário gozo de fazer cobrar - isto era uma verdadeira festa!"

 

Quanto à ideia de vingança, indagando: "Como é que o fazer sofrer pode ser uma satisfação?", explica que essa é uma verdade repugnante: "(...) a crueldade era o gozo favorito da humanidade primitiva e entrava como ingrediente em quase todos os seus prazeres, e, por outro lado, quão inocente e cândida parecia esta necessidade de crueldade, esta "e;maldade desinteressada"e;."

 

Revelando algo assaz abjeto, Nietzsche professa: "Ver sofrer, alegra; fazer sofrer alegra mais ainda." Reconhece que há nisto uma frase dura, uma antiga verdade "e;humana, demasiado humana"e;.

 

O funesto espetáculo público, que foi a morte do ditador líbio Muamar Gaddafi corrobora-o: "Sem crueldade não há gozo, eis o que nos ensina a mais antiga e remota história do homem; o castigo é também uma festa." Agora, de dimensões globais.

 

Blog: www.lucienefelix.blogspot.com

 

 

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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