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Quando eu era Estudante de Direito Nicolau Eládio Bassalo Crispino

Ingressava no curso de Ciências Jurídicas, no início de 1981, da Universidade Federal do Pará (UFPA.), quando contava com apenas dezesseis anos e, confesso, verdadeiramente, não me sentia ainda, com a maturidade da maioria de meus colegas. Por essa razão, poderia haver a incerteza de ter feito a escolha certa. Entretanto, eu já demonstrava ter a segurança de que era esse o curso que eu gostaria de freqüentar.

 

Esse despertar pelas ciências jurídicas, sofreu uma grande influência de meus pais, os quais cursaram juntos o curso de Direito da então Faculdade do Largo da Trindade, em Belém do Pará. Essa influência foi ainda mais forte quando observava meu pai, saindo para trabalhar todos os dias, com o seu usual e bem cuidado terno e gravata. Tal idéia sedimentou-se em minha mente quando o via preparar suas dedicadas aulas de Introdução à Ciência do Direito para os calouros recém-chegados à Faculdade de Direito privada que havia em Belém, antigo CESEP, atual Universidade da Amazônia.

 

Antes mesmo de ingressar no curso de Ciências Jurídicas da UFPA, ficava encantado com os diálogos que presenciava entre meu pai e seus colegas acerca dos mais diversos assuntos jurídicos que os via discutir.

 

Contudo, apesar de minha pouca idade, já demonstrava ter feito a escolha certa, ainda mais pelo fato de que, sempre em minhas férias escolares, ainda cursando o antigo 2º. grau, freqüentava o escritório de meu pai, quando ele necessitava de alguma ajuda, o que me fazia ficar sempre próximo dos problemas que meu pai, como advogado, enfrentava no dia-a-dia.

 

Voltando aos bancos de faculdade, lembro-me da formação dos primeiros grupos de estudo, contudo, ainda havia uma ligação muito grande entre os colegas que conheci ao longo da preparação para o vestibular, pois, parece que as batalhas mais difíceis que travei no período estudantil pré-vestibular, fizeram com que conservasse amizades seguidas ao longo de todo o tempo de curso, algumas até hoje.

 

Naquele primeiro ano de faculdade, tive o contato com o famoso campus central da Universidade Federal do Pará, o qual, em minha opinião, é um dos mais bucólicos que este país oferece. O campus se localiza às margens do rio Guamá na Bacia do Guajará, rio esse que banha grande parte da morena Belém do Pará. Essa visão do rio, fazia com que os períodos extra-classes se tornassem muito mais agradáveis. Durante os intervalos das aulas e principalmente após as aulas que havia no final da tarde, contemplava um dos melhores momentos desfrutados em minha juventude. Ficava com alguns colegas, até as primeiras horas da noite, conversando sobre tudo de novo que aparecia naquele mundo que se descortinava para mim e meus companheiros.

 

Para mim, naqueles meses iniciais de faculdade, tudo parecia muito novo, o que é muito normal. Entretanto, foi no primeiro ano de faculdade que comecei a me sentir independente, parecendo ser eu o "e;dono de meu próprio destino"e;, como se eu tivesse pleno controle de minha vida.

 

Essa fase inicial foi inesquecível, principalmente, porque comecei a freqüentar as reuniões noturnas que os acadêmicos participavam todas as sextas, no bar que ficava localizado no ponto de recreio do setor básico da universidade. Esse local era carinhosamente denominado pelos acadêmicos de "vadião". No bar eram realizadas festas de danças nas sextas-feiras, chamadas de "forró no vadião", onde se reuniam estudantes de todos os cursos da Universidade. Essas festas, pela sua denominação, aconteciam com bastante musica de forró, regadas a um bom bate papo ao longo de toda a noite. Imaginem as reuniões dos acadêmicos, embalados por música bem animada e às margens do Guamá, o qual era testemunha de conversas sobre os mais diversos assuntos, desde os problemas do dia-a-dia da Universidade, até os aspectos mais individuais de cada um.

 

O rio Guamá banha toda a orla do campus central da Universidade Federal do Pará. Os finais de tarde que passava apreciando o rio, eram maravilhosos. A visão do rio no final de tarde anunciando a chegada da noite é inesquecível.

 

Não saem de minha lembrança as vezes em que eu, ao apreciar o rio em frente ao campus, via a passagem de alguma embarcação pelo seu leito, a qual deveria ter em seu interior pessoas que viviam mundos diametralmente opostos àqueles que vivenciavam os acadêmicos.

 

Verdadeiramente, o campus principal da Universidade Federal do Pará é maravilhoso, pois, além de ser banhado por um dos rios mais importantes para a cidade de Belém, é cortado pelo "Igarapé" Tucunduva, cujas águas entram pelo bairro, dividindo os dois grandes setores do campus, o setor básico e o setor profissional. Margeando esse igarapé há várias árvores frondosas determinando áreas de muita sombra, amenizando o clima tropical do campus.

 

Chegando ao chamado período profissional, no segundo ano de curso, passava-se a ter contato, quase que exclusivamente, com os colegas do curso de direito, pois as aulas eram concentradas em dois blocos de salas, nas quais se tinha a maioria das aulas de direito.

 

A partir daí, fez-se um grupo de colegas que freqüentavam as disciplinas escolhidas durante o semestre letivo, porém, o que me marcou muito nesse período foi a freqüência das aulas, juntamente com o estágio forense, pois já me encontrava trabalhando no escritório de advocacia de meu pai, o que fazia com que eu freqüentasse, quase diariamente, a sede do Fórum da capital, o qual ainda se encontra no mesmo local, a frente da praça Felipe Patroni, no centro da cidade. Aliás, comecei a freqüentar o escritório de meu pai, no qual trabalhava, juntamente com meus três outros tios, compondo a banca de advocacia, desde o primeiro semestre na Universidade.

 

Ainda na parte recreativa da faculdade, destaco os campeonatos de futebol que os acadêmicos realizavam. Fiz grandes amizades ao longo desses campeonatos, as quais me acompanham até hoje. Eram campeonatos memoráveis. Lembro-me do último que participei, somente entre estudantes de direito, no qual, ao disputar um lance de jogo, pela lateral esquerda do campo adversário, fui arremessado de encontro à cerca de madeira que limitava o campo, fazendo com que abrisse um golpe em minha mão direita, cuja cicatriz abaixo de meu polegar carrego até hoje. O referido acidente fez com que o nosso time fosse eliminado, pois eu, meu irmão e outro colega tivemos que sair para cuidar do ferimento que me deixou três pontos na referida mão.

 

Engraçado que um de meus colegas de Ministério Público do Amapá, o qual freqüentava o mesmo curso, ao me ouvir comentar essa estória, em Macapá, onde resido, lembrou-se que estava naquele torneio, sagrando-se campeão.

 

Recordo-me também que, em virtude de ter ingressado na universidade bastante jovem, no meio do curso, exatamente no ano de 1983, ingressei, por opção própria, no curso de Aspirante a Oficial do Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva de 2ª. Classe, do 2º. Batalhão de Infantaria de Selva, em Belém. Nesse curso, participavam vários colegas de infância, sendo que, alguns dos quais já conhecia do curso de direito da UFPa. Apesar de ter me atrasado na Faculdade, esse curso militar foi muito gratificante em minha vida, pois me fez cultivar boas amizades, as quais me acompanham até hoje, não sofrendo abalos em razão da distância.

 

Esse período de caserna me trouxe uma grande alegria que foi acompanhar o curso de direito na mesma época que meu irmão do meio. Aliás, outra grande lembrança que trago em minha memória era o fato de eu e meus três irmãos havermos freqüentado o mesmo curso de ciências jurídicas. A minha irmã mais velha, eu, o meu irmão mais novo e, por último, minha irmã mais nova, cursávamos o mesmo curso, apenas com ingressos diferentes. Isso fez com que tivéssemos momentos de muita satisfação, principalmente no deslocamento de casa até a Universidade e vice-versa. Como mencionei antes, nossos pais formaram-se na mesma universidade, na época apenas Faculdade de Direito do Pará, situada no Largo da Trindade, atual sede da Ordem dos Advogados do Pará. Somos cinco irmãos, três homens e duas mulheres, dos quais, apenas o caçula não enveredou pelos caminhos das ciências jurídicas.

 

Essas lembranças da convivência familiar, imiscuídas com a convivência acadêmica, marcaram demais meus caminhos de estudante do Curso de Ciências Jurídicas. Quase sempre, ao me deparar com problemas na academia ou mesmo com as dificuldades no estágio, estava eu e minha família discutindo, dentro de casa ou no escritório, sobre os mais diversos assuntos, fazendo com que os assuntos jurídicos fossem uma constante nas discussões familiares. Isso reforçou ainda mais a convicção de que havia escolhido o curso certo, já que me sentia cada vez mais empolgado com os debates travados em família.

 

O período acadêmico, em meu sentir, foi uma fase de muito aprendizado de vida e de vivência pré-profissional, pois me fez freqüentar várias rodas de conversas entre antigos colegas e atuais amigos, as quais serviram de grande norte para enfrentar o meu trabalho ao longo de toda a minha vida profissional. Hoje, já há algum tempo na carreira de membro do Ministério Público do Estado do Amapá e de docente da Universidade Federal do mesmo Estado, valorizo muito a companhia que tive de brilhantes colegas, cujas vidas profissionais demonstram a capacidade e competência que eles já apresentavam desde os bancos acadêmicos. Com essa companhia, juntamente com os ensinamentos que tive de meus professores do curso de ciências jurídicas da UFPa., obtive o verdadeiro significado da importância das carreiras jurídicas na sociedade brasileira.

 

Até hoje, entendo que, desde os bancos acadêmicos, sou e serei sempre um estudante do direito, pois, pensando como o jurista uruguaio Eduardo Couture, quanto mais se afasta do estudo, se é cada vez menos profissional do direito.

 

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NICOLAU ELÁDIO BASSALO CRISPINO

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