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LÍNGUA PORTUGUESA Não faça previsões erradas

01/09/2017 por Eduardo de Moraes Sabbag

 

O presente artigo versa sobre flexão verbal. Não venho aqui tratar de um daqueles verbos “esotéricos”, relegados ao ostracismo, no meio dos milhares que permeiam nosso léxico. Pelo contrário, vamos revisitar o recorrente confronto entre os verbos VER e VIR. Mais precisamente, trataremos do verbo PREVER.

 

O motivo? Na última semana, uma dúvida de aluno despertou minha atenção, motivando-me a escrever sobre o tema: “devemos falar ‘quando eu prever’ ou ‘quando eu previr’?”.

 

O verbo “ver”, no sentido de “enxergar, notar pela visão”, oferece conjugações simples, sem grandes celeumas, exceto em algumas flexões pontuais. Exemplos: quando se está no modo indicativo, devemos falar, no tempo presente, “eu vejo (hoje)” e “nós vemos (hoje)”; no pretérito perfeito, “eu vi (ontem)” e “nós vimos (ontem)”; no futuro, “eu verei (amanhã)” e “nós veremos (amanhã)”. Por amor à precaução, deixemos registrado, desde já, no modo subjuntivo, o tempo futuro: “quando eu vir (o filme)” e “quando nós virmos (o filme)”.

 

De outra banda, o verbo “vir”, na acepção de “aproximar-se, chegar”, indica flexões não menos automáticas, tirante alguns casos que reputo pertinente revelar: no modo indicativo, devemos falar, no tempo presente, “eu venho (hoje)” e “nós vimos (hoje)”; no pretérito perfeito, “eu vim (ontem)” e “nós viemos (ontem)”; no futuro, “eu virei (amanhã)” e “nós viremos (amanhã)”. Igualmente, por amor ao zelo, vamos já registrar, no modo subjuntivo, o tempo futuro: “quando eu vier (da China)” e “quando nós viermos (da China)”.

 

Resumidamente, chegamos ao seguinte quadro comparativo:

 

 

VER

VIR

 

MODO INDICATIVO

 

PRESENTE

PRETÉRITO PERFEITO

FUTURO

PRESENTE

PRETÉRITO PERFEITO

FUTURO

VEJO

VI

VEREI

VENHO

VIM

VIREI

VEMOS

VIMOS

VEREMOS

VIMOS

VIEMOS

VIREMOS

 

MODO SUBJUNTIVO (FUTURO)

 

VIR

VIER

VIRMOS

VIERMOS

 

 

O quadro em epígrafe sinaliza conclusões curiosas. No modo indicativo, a flexão “VIMOS” do pretérito perfeito do verbo VER é a mesma do presente do verbo VIR. Portanto, devemos falar “nós vimos o filme ontem” e “vimos, pela presente, (hoje) requerer o ofício”. Observe:

 

 

VER

VIR

MODO INDICATIVO

 

PRETÉRITO PERFEITO

PRESENTE

VI

VENHO

VIMOS

VIMOS

 

 

Em tempo, à luz do quadro comparativo inicial, evidencia-se que não devemos confundir o modo subjuntivo. Se queremos mandar um abraço a um amigo, que poderá ser encontrado por você, diremos: “quando você o vir, mande-lhe meu abraço” (e não “quando você ‘ver’ ele...”). Por outro lado, se desejamos pedir chocolates àquele visitante que retornará da bela Gramado, afirmaremos: “quando você vier, traga-me os chocolates” (e não “quando você ‘vir’ de...”).

 

Feitas as observações preliminares, abrimos espaço para enfrentar o tema central de nossa discussão – o verbo PREVER.

 

A notícia é muito boa. Sua conjugação respeita, do começo ao fim, as flexões do verbo VER. O que se conjugar lá, repetiremos aqui. Vamos aos exemplos, propositadamente simétricos: no modo indicativo, devemos falar, no tempo presente, “eu prevejo (hoje)” e “nós prevemos (hoje)”; no pretérito perfeito, “eu previ (ontem)” e “nós previmos (ontem)”; no futuro, “eu preverei (amanhã)” e “nós preveremos (amanhã)”. Ainda, no modo subjuntivo, revela o tempo presente: “quando eu previr (o ocorrido)” e “quando nós previrmos (o ocorrido)”.

 

Nessa medida, teremos os seguintes resultados:

 

 

PREVER

 

MODO INDICATIVO

 

PRESENTE

PRETÉRITO PERFEITO

FUTURO

PREVEJO

PREVI

PREVEREI

PREVEMOS

PREVIMOS

PREVEREMOS

 

MODO SUBJUNTIVO (FUTURO)

 

PREVIR

PREVIRMOS

 

 

Por todo o exposto, já temos subsídios bastantes para ajudar aquele aluno, em seu dilema. Lembra-se dele? Falaremos “quando eu prever” ou “quando eu previr”? A resposta correta é “quando eu previr”, exatamente pela mesma razão por que falamos “quando eu vir (o filme)” ou “quando você o vir, mande-lhe meu abraço”.

 

Entretanto, antes de nos despedirmos, vale a pena deixar claro que a regra apresentada estende-se para os verbos derivados do primitivo VER, como REVER e ANTEVER. Nessa medida, diremos com exatidão:

  1. “Quando ele ‘revir’ os textos, terei condições de os ler”;
  2. “Se o relator ‘revir’ a sua posição, poderemos ter a procedência do pedido”;
  3. “Se ela ‘antevir’ o futuro, todos ganharemos muito dinheiro”.

 

A exceção existente – e quase sempre elas pintam por aí... – ocorre com o verbo PROVER, no sentido de “abastecer, munir-se”. Aqui o futuro do subjuntivo não seguirá a flexão do verbo primitivo VER. Teremos, pois, o seguinte resultado:

 

  1. “Quando ele prover a casa de alimentos, pagar-lhe-ei o que devo” (e não “Quando ele ‘provir’...);
  2. “Se ele prover os hipossuficientes, ganhará votos” (e não “Se ele ‘provir’...).

 

Diante disso, não façamos “previsões” erradas: dizendo “se eu previr”, “se eu revir”, “se eu antevir” e, finalmente, “quando eu prover”, não precisaremos “rever” a gramática. Já estaremos “providos” do conhecimento gramatical necessário. Em suma, vale a regra: prevendo...e provendo...

 

 

 

 

 

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EDUARDO DE MORAES SABBAG

Eduardo de Moraes Sabbag

Advogado, Professor e Autor de Obras Jurídicas, entre elas o "Manual de Direito Tributário" pela Editora Saraiva; Doutor em Direito Tributário, pela PUC/SP; Doutorando em Língua Portuguesa, pela PUC/SP; Professor de Direito Tributário, Redação e de Língua Portuguesa. Site e Redes Sociais: professorsabbag.

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