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FILOSOFIA Movimentos filosóficos helenísticos: Epicurismo (Parte II)

03/12/2013 por Luciene Félix

Nem movimento hippie, nem punk, tampouco o grunge, nas últimas edições trouxemos as principais ideias propostas por três movimentos que surpreenderam os antigos Greco-romanos, conquistando muitos adeptos: o cinismo de Diógenes de Sínope, o estoicismo de Zenão e o epicurismo, de Epicuro.

 

Para concluir esse breve resumo de algumas das ideias propostas por Epicuro, versaremos sobre a importância de controlar, de “calibrar” nossos desejos para conquistar o prazer de uma vida feliz que, além de ser a principal característica do epicurismo é também a maior fonte de mal-entendidos e de preconceitos quanto a essa corrente filosófica.

 

Em sua “Carta a Meneceu”, Epicuro foi bem claro: “Quando dizemos que o prazer é o fim [télos = propósito, objetivo, finalidade] da vida, não nos referimos aos prazeres da gente dissoluta [desregrada, devassa, libertina] e aos que residem no gozo, como acreditam aqueles que ignoram nossa doutrina”. Obviamente, há prazeres vis e prazeres legítimos, edificantes.

 

O desvirtuamento do que é uma vida prazerosa se acentuou quando o epicurismo foi adotado em Roma, tornando-se sinônimo de lascívia, de indolência.

 

O prazer (em grego, hedoné) para Epicuro é a ausência de sofrimento e não sensualidade, luxúria. O que ele intenta, através de sua filosofia é certa “tranquilidade prazerosa” atestando que o prazer já está “programado” em nossos genes.

 

Cícero, discípulo de Epicuro, escreveu: “Todo animal, desde o nascimento, busca o prazer e foge da dor como o maior dos males [...].”, afirmação esta que sabemos ter sido corroborada, séculos depois, pelo “Pai” da psicanálise, Sigmund Freud.

 

Cordero chama a atenção para o fato de que essa relação entre a dor a ser evitada e o prazer a ser alcançado é essencial para que possamos compreender o que é o prazer para Epicuro, que em uma de suas Máximas Capitais afirma: “A eliminação do sofrimento é limite do alcance do prazer. Quando o prazer está presente, a dor, a pena, ou ambos de uma só vez, estão ausentes”.

 

Podemos pensar a felicidade e o prazer como sendo frutos da ausência de sofrimentos, sem dúvida, mas como percebemos os sofrimentos?

 

Através da sensação, indica o epicurismo: “É a sensação que detecta tanto o sofrimento como o momento em que este cessa, mas os estímulos sensoriais chegam à alma, que é a que efetivamente sente”.

 

Sendo assim, é a alma que deve analisar quais prazeres ela precisa eleger e quais convêm de que se abstenha para que não soframos: “Esse controle da alma se exerce sobre os desejos, já que o prazer é a concretização de um desejo”, insiste Epicuro.

 

Desejo em grego é “epithymía”, sendo que o prefixo “epi” significa dirigir-se, ir até. E, “thymós”, significa peito, coração. O desejo, então, é uma tensão em busca de algo, um anseio por algo que preencha o peito.

 

Mas é ela, nossa alma, a responsável por permitir ou impedir que esse desejo se realize, ou seja, que se transforme em prazer.

 

Para a filosofia epicurista, nossos desejos podem ser estratificados como sendo: a) naturais e necessários; b) naturais, mas desnecessários ou ainda, c) nem naturais nem necessários: vazios.

 

Quanto aos nossos desejos naturais e necessários, a alma deve admiti-los, pois seu objetivo é assegurar a sobrevivência do ser humano: “Este é o clamor da carne: não ter fome, não ter sede, não ter frio. Quem alcança tais estados pode rivalizar com Zeus”. Além de comer, beber e vestir-se, morar, ter amigos e filosofar (que, segundo Epicuro é o que vai nos curar de todos os sofrimentos) também são desejos naturais e necessários.

 

Há outros desejos que, mesmo sendo naturais, são desnecessários e podemos optar por satisfazê-los ou ignorá-los. Entre eles está o desejo sexual e a tendência à beleza estética que “se trata de um desejo desnecessário, pois se pode prescindir dele para viver e, mais grave, pode ser pernicioso [doentio, nocivo] (...).”, pois, desenfreados, extrapolam, driblando o senso de saciedade.

 

Por fim, há os desejos que nem são naturais nem necessários, que Epicuro denomina-os de “vazios”, pois são ilimitados, como é o vazio. Como exemplos desses tipos de desejos, Epicuro cita o desejo de que a alma seja imortal, de acumular riquezas ou de amar infinitamente, tornando-nos ciumentos.

 

Segundo Epicuro, “Um estudo dos desejos deve condicionar toda escolha e toda recusa à saúde do corpo e à imperturbabilidade da alma, que é o fim da vida bem-aventurada”, sofremos quando estamos carentes de algo. Cessou a carência, surge o prazer.

 

Mas salienta que, uma vez que o sofrimento oriundo de uma carência cesse, isso não significa que o prazer possa aumentar: “Essa situação de quietude, de calma, de tranquilidade, caracteriza-se pela presença daquilo que Epicuro chama de ‘o prazer em repouso’”, diz o estudioso Néstor Luis Cordero.

 

Talvez, o que traduza bem essa sensação agradável de bem-estar e de serenidade seja o tão famoso quanto almejado “estar em paz”.

 

Para que tenhamos uma vida realmente feliz é necessário que saibamos escolher bem quais desejos iremos satisfazer e aos quais devemos recusar. Para sacar desse discernimento possuímos “sagacidade” (phrónesis), que Epicuro diz ser até superior à filosofia: “caso se escolha satisfazer o desejo de filosofar, é porque a sagacidade – que é prévia – escolheu bem”.

 

Assim como na Escola de Diógenes (os cínicos), para os epicuristas, uma das características dos sábios é justamente a autossuficiência (autarquia) que nos livra da tirania de sermos reféns da necessidade de bens exteriores, como diz Cordero: “Quem está acostumado a viver frugalmente, encontra um autêntico prazer em não precisar de nada; quem está acostumado à abundância, por outro lado, nunca estará satisfeito e será escravo da tirania e de falsas necessidades”.

 

Estarmos cônscios de que a morte não deve ser temida (vide as razões no artigo anterior, aqui na Carta Forense), sabermos escolher com lúcida sagacidade quais desejos serão privilegiados e que a liberdade é possível, isso é ser Sábio. Se agirmos assim: “viverás como um deus entre os homens”, diz Epicuro.

 

Dezembro. Vivenciamos o encerramento de mais um ciclo; o momento é oportuno para um balanço de vida, rever nossos sonhos e refletirmos sobre quais desejos eleger para que possamos atingir a plenitude dessa vida prazerosa e feliz acenada por Epicuro. Um Ano Novo de Paz, amigos.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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