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FILOSOFIA Movimentos filosóficos helenísticos ? Os estoicos

03/10/2013 por Luciene Félix

A moral roga que suportemos “estoicamente” os reveses da vida. Mas, no que consiste e por quais linhas se pauta essa escola que surgiu em Atenas, por volta de 310 a.C.?

 

As bases do estoicismo foram lançadas por Zenão, que se tornou ouvinte do cínico Crates, discípulo de Diógenes de Sínope (vide artigo anterior).

 

Na ágora havia pórticos (grego, stoá) e por Zenão estar sempre por lá, identificaram-no como sendo “o do pórtico”, e de “estoico” (stoikós) os que costumavam acompanhá-lo.

 

No cinismo de Diógenes, as ideias eram apaixonantes, mas marginais, as de Zenão caíram no gosto dos escravos e até dos poderosos porque “(...) o tipo de vida proposto pelo estoicismo não diz respeito à exterioridade do ser humano, mas sim a seu foro íntimo”, afirma o estudioso Néstor Luis Cordero.

 

Esse universalismo interior ofereceu um norte ao emergente cidadão do cosmos (kosmopolités), pois toda diferença de nacionalidade, de raça e até mesmo de status social é tida como antinatural.

 

O estoicismo é a primeira escola filosófica que se apresenta como um sistema que se organiza sobre três principais eixos interligados, formando uma unidade: física, ética e lógica. A filosofia é como um animal: ossos e tendões são a lógica; sangue e carne, a física; e a alma é a ética. Essas três partes encontram-se reunidas na máxima que resume a filosofia estoica: “É preciso viver segundo a natureza [phýsis]”.

 

O âmbito privilegiado é o da ética (alma) e, prática, a filosofia estoica é um exercício cotidiano, daí retomarem dos cínicos o termo áskesis que é “refinar graças a um exercício” diário. Para eles, somente uma vida segundo a natureza conduz à felicidade, que é o bem supremo.

 

A convivência social já não é o que costumava ser e Zenão não encontra respostas satisfatórias nem na Academia nem no Liceu, para ele, urge que o ser humano alcance a felicidade, cujas regras devem ser ditadas pela phýsis.

 

Diz-se que do oráculo, Zenão ouviu: “Toma o aspecto dos mortos” e ele interpretou que deveria estudar os filósofos do passado: “É assim que sua doutrina da natureza recolhe vários elementos dos pensadores pré-socráticos, que interpretavam a phýsis abarcando toda a realidade (em função de certos elementos ou princípios) e que sublinhavam seu caráter material e mesmo vital”.

 

Defendiam a eternidade da matéria, já que não admitiam a noção de criação: “E como a única entidade éter é a divindade, os estoicos assimilavam deus à natureza”.

 

A física – estudo da natureza – ensina de que “(...) a totalidade da realidade é divina” e no materialismo dos estoicos estão incluídos também valores, sentimentos e as qualidades morais. Definem que: “existe aquilo que é capaz de atuar ou de sofrer uma ação” e consideram que a vergonha, por exemplo, é uma emoção: faz-nos enrubescer, ou seja, influencia no corpo, e se influi é porque é material.

 

 

Diógenes Laércio postula que: “os princípios de todas as coisas são de dois tipos: o que atua (agente) e o que padece (paciente). O que padece é a matéria; o agente é o lógos que se encontra nela, quer dizer, a centelha divina (deus). Este, que é eterno, modela tudo por intermédio da matéria”. Eis a teoria exposta por Zenão.

 

Os dois princípios [agente e paciente] são eternos e opostos: limitada, a matéria é passiva, e o lógos, ativo. Quando os dois princípios se unem – pois um ‘fecunda’ o outro –, a realidade que resulta é ativa e passiva ao mesmo tempo.

 

O lógos, que é divino fecundará a matéria: “O lógos tem um projeto do que pensa fazer, como o carpinteiro tem em mente o plano de sua mesa. O lógos “racionaliza” sua produção, e por esta razão apenas no estoicismo o termo lógos adquire plenamente o sentido de ‘razão’”. E, como é divino, o universo é fabricado com materiais preexistentes, por uma razão divina. Essa originalidade da teoria estoicista influenciará a doutrina cristã.

 

Sendo o lógos imanente à matéria, fecunda-a de dentro dela mesma. Inspira-se em Heráclito: “(...) o lógos está presente na matéria como um sopro ígneo que, como o fogo do ferreiro, molda a matéria (...)”.

 

Crisipo associará a esse sopro ígneo a noção de pnéuma, “espírito” (adotada pelo cristianismo), que também é material, mesmo que não o enxerguemos, como o vento. Em maior ou menor grau, o pnéuma-lógos está presente em tudo o que há por “simpatia” (syn+pathós) universal.

 

O pnéuma, que é o lógos ígneo, vai se misturando com a matéria de forma progressiva e hierárquica: numa rocha (minimamente), nos vegetais (phýsis), nos animais (psyché, princípio de movimento) e nos seres humanos (diánoia, o raciocínio).

 

Esse universo não comporta a dicotomia teoria/práxis, mas presume que a teoria só tem sentido em função da ação prática e que esta supõe uma teoria prévia: “(...) deves (...) conhecer as coisas divinas e humanas para atuar em cada caso com a certeza de que há um encadeamento mútuo de todas as coisas”, recomenda Marco Aurélio.

 

O imperativo “Viver segundo a natureza” visa à busca racional pela felicidade e significa tomar consciência do estado natural do ser humano, adequando condutas que não violentem nem ponha em perigo esse estado natural.

 

Cícero afirma que o ser vivo tem uma “tendência (ou inclinação) a amar sua natureza, quer dizer, tudo o que é capaz de conservá-la, e a fugir de tudo o que pode destruí-la.”, e o ser humano possui a razão, que permite “julgar, apreciar e valorar tudo o que a natureza oferece”.

 

Há noções valiosas (áxios), boas, justamente porque estão de acordo com a natureza (justiça, sabedoria) e não valiosas (anáxios) e más porque são contrárias à natureza (injustiça, loucura).

 

O senso comum apontará cada uma delas como sendo boa ou má, mas há também a vida, a morte, a saúde, doença, prazer, dor, riqueza e pobreza – indiferentes –, pois “tudo depende do uso que se lhes dê, o que supõe a responsabilidade do sujeito moral”.

 

Obviamente, alguns são preferíveis enquanto outros são “suprimíveis” e entre os preferíveis, tudo aquilo que é positivo segundo a natureza, diz Cordero, merece o nome de “conveniente”.

 

Às ações apropriadas, adequadas, estoicos romanos denominaram “officium”, que é uma contração de “opus facio”, “faço o que devo”, afirma o autor. E tudo o que se opõe às ações convenientes é chamado de ‘falta’, termo que os cristãos transformaram em ‘pecado’.

 

Ações convenientes que permitem alcançar a excelência ou virtude (areté) são ditas “perfeitas” e trazem a presença do bem supremo em cada ser humano, que é o summum da ética estoica.

 

A meta é atingir a excelência, a consciência daquilo que nos falta: “Quem alcança a excelência ‘possui’ o bem supremo, que é um habitus, uma posse (latim habeo, possuo) inalienável. O indivíduo excelente pode estar privado de tudo (liberdade, bens, etc.), mas ninguém pode despojá-lo de seu bem supremo.”.

 

O sujeito moral estoico sabe escolher, devido à faculdade da phrónesis (prudência, sagacidade) que é o que nos previne contra nosso pior inimigo: as paixões, que, como alerta Diógenes Laércio “é um movimento da alma irracional e contrário à natureza”, pois ao invés de nos incitar a viver ‘segundo’ a natureza, nos leva a atuar ‘contra’ ela.

 

Se considerarmos que nossa natureza é ser racional, tudo o que vai ‘contra’ essa faculdade é irracional e prejudicial, pois a alma, ao invés de raciocinar, se deixa levar “pelo que se diz” e, por vaidade e ganância, por exemplo, seguindo falsos valores, enreda-se em ciúmes, raiva, mágoas, etc. Esse caráter das paixões será denominado pelos estoicos romanos de “perversio” ou “perturbatio”.

 

O antídoto contra esse embotamento seria ver as coisas como elas são “o bem reside no bom uso das representações”, diz Epiteto. E Cordero enfatiza: “A origem da paixão é um erro de apreciação, de juízo”.

 

Quem for capaz de vencer as paixões e viver segundo a razão torna-se “sábio” (sophós): “O sábio não é apático (privado de “pathós”, paixão), mas antes imperturbável, já que sabe distinguir entre aquilo que depende de nós e aquilo que escapa ao nosso controle”.

 

Riqueza, fama ou honras não dependem de nós, mas das circunstâncias; já nossos desejos, tendências e aversões, estão em nossas mãos.

 

Sábio é aceitar o que escapa ao nosso controle e regularmos nossa vida em função do que depende de nós, harmonizando nossa vontade com o que nos acontece. Somos artífices de tudo o que ocorre no universo, responsáveis pelo equilíbrio (ou desequilíbrio) cósmico.

Comentários

  • Jaci Da Silva Pinheiro
    24/10/2013 14:40:55

    Extasiante a aula, sou um admirador e acompanho seus artigos de longa data. Parabéns Professora.

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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