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FILOSOFIA Movimentos filosóficos helenísticos? o epicurismo (Parte I)

04/11/2013 por Luciene Félix

 

Assim como a palavra “cínico”, hoje em dia, não se refere mais à escola filosófica fundada por Diógenes de Sínope (artigo de Setembro, na CF), mas designa alguém dissimulado, o termo “epicurista” nomeia erroneamente alguém “escravo dos prazeres”, especialmente os sexuais, mas para essa escola, o prazer, que é o valor supremo, na verdade é a ausência de dor e de sofrimentos.

 

O epicurismo surgiu na mesma época que o estoicismo de Zenão (vide artigo anterior) e foi fundado pelo filósofo grego Epicuro (341 a.C.) que, por volta dos 35 anos se estabeleceu em Atenas e adquiriu um terreno cercado por jardins para erigir sua escola, que ficou conhecida como “O Jardim”, onde veio a ensinar até os setenta anos.

 

Segundo Néstor Luis Cordero, tanto Epicuro quanto o epicurismo foram longe e, em meados do séc. II a.C., o epicurismo instalou-se em Roma: “(...) e o primeiro filósofo que escreveu em uma língua não grega foi um epicurista, Lucrécio”, aponta o estudioso.

 

Também como Diógenes e Zenão, Epicuro não encontrou as respostas que buscava nas escolas já estabelecidas (na Academia, de Platão ou no Liceu de Aristóteles), pois elas colocavam a felicidade como meta de uma longa série de estudos, e para o imediatista Epicuro, “o ser humano vive ‘hoje’, e a filosofia que conduz à felicidade, é uma atividade urgente, quase um serviço de primeiros socorros”, ressalta Cordero.

 

Epicuro escreveu muito, mas dele chegaram apenas três cartas e duas coleções de máximas ou sentenças, conhecidas tardiamente e que são chamadas de “as Máximas capitais” e “Sentenças Vaticanas”, guardadas na biblioteca do Vaticano.

 

Para e escola epicurista, a causa da infelicidade humana é sermos vítimas “do que se diz”, principalmente sobre os deuses, a morte e o sofrimento.

 

Para eles, se escutarmos a voz da natureza, tais temores desaparecem, mas para isso é necessário filosofar. E filosofar seriamente e não meramente fazer de conta: “Não se trata de aparentar ter uma boa saúde, diz Epicuro, mas de estar saudável de fato”.

 

A filosofia é como um medicamento que deve ser administrado o quanto antes: “Que ninguém, quando jovem, tarde em filosofar, nem, quando velho, se canse de filosofar, pois nunca é nem demasiado cedo, nem demasiado tarde para obter a saúde da alma”, roga Epicuro, na “Carta a Meneceu”, disponível em nosso Blog.

 

Cordero afirma que para a escola epicurista, o conhecimento da verdadeira natureza das coisas constitui a física (ciência da phýsis), e a aplicação dos conhecimentos que dela são obtidos fazem parte da ética (lembremo-nos, que os estoicos ressaltavam a lógica).

 

Epicuro nomeia o conhecimento dessa realidade de “fisiologia”, etimologicamente “conhecimento da phýsis” e aponta que esse conhecimento leva à felicidade, que é o “viver bem”.

 

Evitando prolongar-se nas investigações, os epicuristas adotaram a física dos atomistas, estabelecendo como princípios da realidade as partículas indivisíveis, os “átomos” e o espaço no qual eles vagueiam, em todas as direções.

 

Para Epicuro, esclarece Cordero, apenas do ponto de vista metafórico pode-se falar de um “para cima” e de um “para baixo” no movimento desses átomos no vazio e pode-se então imaginar uma “queda” dos átomos: “Em função desta queda, atribui-se a Epicuro a possibilidade de que, em algum momento, se produza um “desvio” na trajetória, o que justificaria a liberdade da vontade”.

 

Tanto a natureza quanto os seres humanos, tudo é constituído por átomos e vazio e para os epicuristas a alma também é material: “Aqueles que afirmam que a alma é incorpórea, falam para não dizer nada, pois, se o fosse, seria incapaz de padecer ou de atuar sobre qualquer outra coisa” (Epicuro, em “Carta a Heródoto”, 67).

 

Em seu poema, o epicurista romano Lucrécio afirma: “A alma está contida na totalidade do corpo; ela é seu guardião, pois assegura sua salvação; raízes comuns os unem mutuamente, e não pode separá-los sem destruí-los”.

 

Para Epicuro, aquele que vive bem encontra calma e serenidade e isso ocorre, quando a filosofia nos cura das principais doenças da alma: o medo dos deuses, o medo da morte, o medo do sofrimento.

 

Quanto aos deuses, ressalta o intérprete, se sabemos o que são, não há nada a temer. Mas só temos “suposições” e não “pré-concepções” e, como Cícero diz: “somente ele [Epicuro] viu com clareza que os deuses existiam, já que a própria natureza imprimiu sua noção no espírito dos homens. Com efeito, qual é a razão humana que não tem, sem que se lhe precise ensinar, uma pré-concepção dos deuses?”.

 

Sendo assim, as imagens dos deuses não entram pelos sentidos, mas antes, são percebidas nos sonhos: “Mas a pré-concepção dos deuses torna-se efetiva no interior de cada indivíduo. Os deuses existem objetivamente, mas apenas se consolidam quando se forma a pré-concepção, e esta se produz em uma parte da alma”.

 

Para os epicuristas, os deuses são modelos de conduta individuais, pois cada indivíduo elabora sua “pré-concepção” em função da vida bem-aventurada a que cada um aspira, aponta o autor.

 

E isso é assim porque “os deuses são seres vivos incorruptíveis e bem-aventurados”, e não deve se lhes atribuir nada que prejudique esse estado, diz Epicuro.

 

Os deuses existem, então, tal como os concebemos na pré-concepção deles, mas não existem da maneira que se “supõe” que existam, quer dizer “como crê o vulgo”, que se apega a “suposições”, ressalta Epicuro.

 

Epicuro contesta a crença na existência de deuses tradicionais, os que estão a todo tempo nos observando, julgando e castigando e no chamado “deus dos filósofos”, que se encarregam primeiro de produzir e depois de regular a ordem universal: “O mundo não foi fabricado pela divindade, uma vez que é completamente defeituoso”, escreve o epicurista romano Lucrécio.

 

Epicuro insistiu que não é ímpio quem elimina os deuses da massa, e diz-se que Lucrécio assimila essas opiniões da massa à da religião de seu tempo, enaltecendo-o como “um grego que teve a coragem de olhar de frente a religião”, que com seu peso “esmagava a espécie humana”.

 

Os deuses, para Epicuro, tomam forma, ou seja, adquirem “realidade”, apenas no interior do ser humano e, mesmo assim, têm uma consistência muito tênue (o que o aproxima do ateísmo) e essa certa “impotência” divina garante que sejam incapazes de influir na vida humana. Se for assim, por que temê-los? O temor aos deuses não tem sentido, conclui.

 

Quanto à morte, temê-la é causa de grande infortúnio, mas um conhecimento preciso da realidade dela dissipa tal temor: “Acostuma-te a pensar que a morte não é nada para nós, pois todo bem e todo mal residem na sensação, e a morte é a privação da sensação”, roga Epicuro.

 

A sensação é a base do conhecimento e não experimentamos nenhuma sensação da morte, portanto, não devemos temê-la, pois não podemos senti-la: “Quando estamos vivos, a morte não está presente, e quando ela estiver presente, já não estaremos vivos”, diz Epicuro.

 

A opinião de que a morte nos faz sofrer não tem fundamento, é mera suposição, o filósofo francês Michel de Montaigne esclarece dizendo: “Na realidade, o que mais dizemos temer na morte é a dor, seu pregoeiro habitual”.

 

Mas, a morte e os demais sofrimentos podem esperar, prossigamos.

 

PS: Confiram imagens do Curso de Mitologia em Roma, acessando: www.cursodemitologiaemroma.blogspot.com

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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