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CONCURSOS - ENTREVISTA Minha trajetória nos concursos

Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

Durante a graduação em Direito, na Universidade de Brasília (Unb), tive a oportunidade de participar de diversos programas de estágio. Entre eles, passei pelo MPDFT e pelo MPF. Interessei-me imediatamente.

Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

Assim que conclui a graduação (1999), busquei a Fundação Escola Superior do MPDFT, que promove curso de pós-graduação lato sensu (2000). A extensa carga horária e a amplitude programática do curso me propiciaram uma revisão e um aprofundamento dos temas tratados na graduação. Esse período foi o momento de amadurecimento para uma preparação voltada a concursos públicos.

Como fazia para lidar com as matérias que tinha maior dificuldade?

Descobri que só não gostava de determinada disciplina porque não a conhecia com profundidade. O desafio da preparação para o concurso público, me parece, é conciliar um estudo que amplo, extensivo, a um aprofundamento nos temas que sejam mais relevantes para a carreira almejada. Matérias em que eu tinha (aliás, tenho) dificuldade? A solução era mesmo passar mais tempo com "o inimigo": decifrá-lo devorando-o, para brincar com o enigma da esfinge. A experiência profissional também me ajudou a enfrentar os temas em que tinha mais dificuldade.

Quanto tempo demorou para ser aprovado no primeiro concurso?

Tive a oportunidade de atuar como advogado tão logo conclui a graduação. No ano seguinte à graduação, em 2000, fui aprovado e nomeado para o cargo de analista judiciário do TJDFT. Seguidamente ocupei outros cargos (analista judiciário do MPU, Defensor Público da União, Promotor de Justiça no Estado da Bahia, Procurador de Assistência Judiciária no DF) e consegui outras aprovações (Delegado da PF e Consultor legislativo da Câmara dos Deputados). Ingressei na carreira do MPDFT em abril de 2003.

O Ministério Público sempre foi seu foco principal?

Escolhemos as nossas carreiras, claro, mas acredito que toda experiência profissional seja válida. Sempre tive o Ministério Público como meta principal, mas me dediquei a cada uma das carreiras que tive a oportunidade (diria, em verdade, "privilégio") de vivenciar como se fossem elas meu objetivo maior. Isso foi importante para que eu conseguisse me motivar para continuar estudando, mas também sentir orgulho do trabalho que eu já fazia. Como destaquei, acho que a experiência profissional é um importante aliado na preparação de um candidato a uma carreira jurídica (seja ela qual for).

O senhor sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?

Cobrança, não. Havia uma expectativa pelo meu êxito e isso é natural. Acho que a maior cobrança vinha de mim mesmo. Da minha família e dos amigos, apenas sentimentos bons.

Depois de aprovado, como foi sua rotina de promotor de justiça recém empossado?

Minha experiência profissional anterior me ajudou muito. Além disso, a instituição foi muito receptiva: colegas mais antigos se dispuseram sempre a auxiliar naquelas tarefas que exigiam maior experiência e sensibilidade. As dificuldades eram superadas pela alegria da aprovação (como eu mencionei, até hoje eu me alegro com isso!).

Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?

No dia da posse, já vestido com a beca de Promotor de Justiça, meu pai estava tão empolgado que me perguntou se os pais dos empossandos também usariam algum tipo de "roupa especial". A lida no sistema de justiça criminal também já me proporcionou alguns episódios inusitados. Numa audiência criminal, houve um furto de aparelho celular em que a vítima e o réu eram surdos. Sem pensar muito, o Juiz, talvez indignado com o número de feitos quase repetitivos tratando de furto, se levantou e imediatamente perguntou "para que dois surdos querem aparelho celular, pelo amor de Deus". Diante do óbvio silêncio na sala de audiência, um deles sacou um papel e escreveu um bilhetinho ao Magistrado: "para trocar mensagens de texto, Excelência". Ah, sim.

E o mais triste?

Atuei num caso em que um filho matou a própria mãe e a enterrou no interior da casa em que viviam. Tratava-se de uma senhora que foi mãe de três filhos e, dez anos antes, ela havia perdido seu filho do meio num latrocínio. O matricídio foi praticado pelo filho caçula. O processo tramitou rapidamente e o júri ocorreu poucos meses depois do fato. A tristeza daquela tragédia familiar me tocou, especialmente por conta da irresignação do filho mais velho da vítima, que não conseguia entender a razão de o irmão caçula ter agido da forma como agiu. Aliás, ninguém entendeu (talvez nem mesmo o próprio réu).

Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?

Acredito que seja ter em mente que o concurso público, com todos os seus problemas ou questões, ainda é uma forma de recrutamento de profissionais para determinada carreira. Seu objetivo é selecionar os melhores profissionais. Então, não espere ser aprovado para se tornar um profissional competente. O verdadeiro profissional conjuga o verbo "ser" no presente, ele não espera aprovação ou outra razão para mostrar serviço e qualidade. É bom fixar uma meta remota, a carreira para a qual você se prepara. É essa decisão que orientará a eleição dos temas mais importantes, as disciplinas que reclamarão maior atenção. Persistência e compromisso são palavras-chave, além da certeza de que os sacrifícios serão recompensados.

O que deve esperar o concursando na hora de optar pela carreira no Ministério Público?

Parece óbvio, mas é bom lembrar que o Ministério Público é feito das pessoas que o integram. A instituição é maior do que as pessoas que por ali passam, mas ela não existe por si só. Então, na hora de optar pelo Ministério Público, acho importante ter em mente que o Promotor de Justiça (ou Procurador da República ou do Trabalho) assume uma missão de concretização da Constituição, de realização da dignidade humana. É um compromisso prévio, permanente e também teleológico. Afinal, a estatura constitucional que o Ministério Público possui hoje não veio de "presente"; é resultado de lutas, de conquistas históricas e da necessidade de que o Estado transforme em realidade as promessas feitas aos cidadãos em nossa Carta Política.


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ANTONIO HENRIQUE GRACIANO SUXBERGER

Antonio Henrique Graciano Suxberger
Promotor de Justiça do MPDFT ;  Doutor em Direito e Desenvolvimento pela Universidade Pablo de Olavide/ Espanha; Mestre em Direito pela Universidade de Brasília (UnB).

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