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Concursos Minha trajetória nos concursos

Carta Forense - Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

Haman Tabosa de Moraes e Córdova  - Iniciei minha vida profissional como qualquer estudante de Direito, fazendo estágios nos mais diversos órgãos públicos, em especial em Tribunais, no Ministério Público e na Defensoria Pública, a fim de conhecer as atribuições dos membros dessas carreiras e poder escolher, de maneira mais acertada, qual direção eu gostaria de dar à minha vida profissional.

Não obstante, assim que me formei tive meu primeiro emprego em escritório de advocacia de um professor da faculdade, onde adquiri importante experiência no dia a dia forense e pude constatar quão importante foi ter militado na advocacia privada antes de ingressar na carreira de Defensor Público Federal.

Preocupado em manter meus conhecimentos jurídicos atualizados, optei por fazer uma pós-graduação lato sensu paralelamente ao exercício da advocacia, o que viria a ser meus primeiros passos rumo ao serviço público, pois adquiri uma base forte para começar a me arriscar em alguns concursos públicos.

CF - Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?         
HTMC - Iniciei meus preparos no ano de 2001, com a pós-graduação citada, mas já havia passado no meu primeiro concurso para nível superior no ano de 1999, logo que me formei na faculdade, para o qual vim a ser nomeado apenas alguns anos mais tarde, quando já me preparava para outros concursos mais difíceis e, consequentemente, mais atrativos.

A metodologia que utilizei, porém, não recomendo aos que querem fazer concursos. Me inscrevia em todos os certames que abriam e com isso perdia muito o foco dos concursos que verdadeiramente me interessavam, pois muitas vezes me debruçava sobre matérias outras que não as principais e mais cobradas nos concursos mais visados.

Mas como tudo tem seu lado positivo, se de um lado perdi algum tempo estudando algumas matérias não tão cobradas pelos examinadores, de outro adquiri uma visão geral do Direito, que certamente me auxiliou a me tornar um Defensor Público e a me realizar profissionalmente.

Recomendo, todavia, que os estudantes foquem o concurso que realmente querem, uma vez que ao se definir a carreira que se quer seguir, ganha-se tempo estudando apenas um edital, cujas variações de uma edição para outra do mesmo concurso são bastante diminutas, encurtando-se consideravelmente o inevitável tempo que se leva até a aprovação.


CF - Quanto tempo demorou para ser aprovado no primeiro concurso?    
HTMC - Após o início de estudos próprios para concurso público, levei aproximadamente um ano para lograr êxito no primeiro deles, muito embora o cargo para o qual fui aprovado ainda não fosse o que eu gostaria de ocupar definitivamente no serviço público.

 

 CF - O senhor sofreu alguma cobrança de familiares e amigos pelo resultado pretendido?          
HTMC - Minha família me ajudou muito nesse aspecto. Não sofria pressões, pois meu esforço era contínuo e visível. Foram muitas horas de biblioteca e, consequentemente, de ausência no convívio com os familiares, mas sem dúvida alguma valeu muito à pena e hoje a convivência se torna muito mais prazerosa com a independência financeira alcançada.

CF- Depois de aprovado, como foi sua rotina de defensor recém empossado?    
HTMC - A rotina é muito interessante, pois a cada dia um novo caso chega às nossas mãos e devemos dar a ele a máxima atenção possível. São pessoas carentes que clamam por ajuda, e cabe ao Defensor Público extrair dessa pessoa o que realmente ela pretende e, não sendo possível obter de uma forma extrajudicial o pretendido, bater às portas do Judiciário e tentar convencer o julgador de que o direito daquela pessoa é bom, é justo.

Todos os dias vários casos são submetidos à nossa apreciação, muitos ainda em fase de elaboração da tese a ser defendida, outros tantos já com ação judicial em curso e prazos a serem atendidos, sendo relevante destacar, nesse aspecto, a imprescindibilidade do prazo em dobro para o Defensor Público, pois são muitos os feitos a que se deve dar andamento, sem prejuízo do constante deslocamento ao prédio da Justiça para a realização de audiências. Mas é gratificante.


CF - Que atividades já exerceu antes de ser defensor público da União? 
HTMC - Exerci as profissões de advogado, escrivão de polícia federal, analista judiciário do Superior Tribunal de Justiça e, por fim, defensor público da União.

CF - Qual foi o momento mais engraçado ou curioso da sua carreira até agora?
HTMC - Houve uma assistida, quando eu ainda estava lotado na unidade da Defensoria Pública da União no Rio de Janeiro, que queria ver reconhecido seu vínculo conjugal com determinada pessoa já falecida, para fins de obter pensão por morte. A assistida era bastante humilde, já em idade avançada, e logo após tê-la ouvido, conversado e explicado seus direitos ela levantou-se e, como os olhos marejados perguntou-me: Doutor, posso lhe dar um beijo? Ao perceber meu espanto ela imediatamente continuou: na face! Depois ri bastante desse fato.

CF - E o mais triste?    
HTMC - O mais triste acontece todos os dias, ao vermos dezenas de pessoas nas filas da DPU em busca dos seus direitos mais básicos, negados pelo próprio Estado que, todavia, é disciplinado por uma lei que assegura a maioria desses direitos: a Constituição Federal de 1988. É triste ver que na maioria das vezes essas pessoas já tiveram todas as outras portas fechadas, restando-lhes bater na última delas: a da Defensoria Pública.

CF- Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?           
HTMC - O primeiro passo é buscar uma disciplina de estudo, uma rotina que seja religiosamente cumprida para que produza os efeitos necessários sem que o nosso tempo livre, tão sagrado, seja desperdiçado. Estudar para ingressar em uma carreira pública é um caminho que pode ser escolhido por absolutamente qualquer pessoa. Não existem os mais e os menos inteligentes, mas existem os mais e menos esforçados. Assim como numa prova de maratona, é preciso que iniciemos os treinos com corridas mais curtas, menos intensas e, com o passar do tempo, passamos a adquirir mais resistência e confiança, até que conseguimos completar todo o longo percurso. No concurso público é da mesma forma. Com o passar do tempo a bagagem de conhecimento aumenta de forma acelerada e os certames começam a parar de nos derrotar, de modo que, sem sombra de dúvidas, a perseverança é o primeiro passo para se chegar ao serviço público.

CF- O que deve esperar o concursando na hora de optar pela carreira na Defensoria Pública da União?

HTMC - Deve primeiramente se auto-avaliar para saber se é vocacionado para ajudar as pessoas. Ao responder positivamente, deve saber que é uma carreira muito atrativa, repleta de desafios devido à sua jovialidade, mas que vem sendo construída de forma sólida, notadamente nos últimos anos, e que busca, por meio de seus membros comprometidos com a instituição e com as pessoas carentes, cumprir o papel que lhe foi reservado pela Carta de Outubro de 1988.

Mesmo aqueles candidatos que não sabem se são vocacionados ao exercício da profissão de defensor público, convido-os a viverem essa experiência, pois é possível nos encontramos dentro da instituição. Há muito ainda a ser feito na Defensoria Pública da União e precisamos criar em nosso país a cultura da defesa das pessoas sem recursos por meio de uma carreira forte, aparelhada, no mesmo nível do Ministério Público e do Judiciário. Ainda hoje nos deparamos com uma mentalidade equivocada no sentido de que para "os pobres" serve qualquer coisa. É preciso dar um basta nessa situação e impor ao Estado brasileiro o dever de prestar assistência jurídica gratuita às pessoas carentes por meio de uma carreira de Estado, e não pela via do improviso e do "jeitinho", como tem sido desde sempre.

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