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FILOSOFIA Memórias do Subsolo - Dostoiévski (Parte II)

02/04/2013 por Luciene Félix

“Há tantas coisas no homem que infundem espanto! A terra tem sido há muito tempo um asilo de dementes”.  Friedrich Nietzsche

 

O insolente homem do subsolo, trazido por Dostoiévski, proclama que “todos os belos sistemas, todas essas teorias para explicar à humanidade os seus interesses verdadeiros, normais – a fim de que ela [a humanidade], ansiando inexoravelmente por atingir essas vantagens, se torne de imediato bondosa e nobre” não passa de pura logística.

Astuto, afirma que somos tão afeiçoados ao nosso sistema e à dedução abstrata que estamos prontos a deturpar intencionalmente a verdade, a descrer de nossos olhos e ouvidos apenas para justificar nossa lógica, adequando-a a nossa caprichosa vontade.

Em todas as nossas relações, quantas vezes não agimos e testemunhamos outros agirem assim, de forma sorrateiramente mal embasada, nebulosamente descabida? E, por quê?

Porque a razão, diz ele, é uma coisa boa, não há dúvida, mas a razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer – a vontade –, constitui a manifestação de toda a vida humana, com a razão e com todo o coçar-se, ou seja, com tudo o mais que não se assenta em nenhuma razoabilidade.

Ele enfatiza que a nossa vida, embora resulte muitas vezes em algo bem desprezível, é sempre a vida e não apenas a extração de uma raiz quadrada: “Eu, por exemplo, quero viver muito naturalmente, para satisfazer toda a minha capacidade vital, e não apenas a minha capacidade racional (...). Que sabe a razão? Somente aquilo que teve tempo de conhecer, enquanto a natureza humana age em sua totalidade, com tudo o que nela existe de consciente e inconsciente (...)”.

Afirma que repetimos que é impossível a um homem culto e desenvolvido querer conscientemente algo desvantajoso para si, que isso é matemático, ou seja, lógico. Mas, indaga: “(...) o homem pode intencional e conscientemente desejar para si mesmo algo nocivo (...) ter o direito de desejar para si mesmo algo muito estúpido, sem estar comprometido com a obrigação de desejar apenas o que inteligente?”.

Concorda que isso é, de fato, um capricho muito estúpido: “mas realmente, senhores, talvez seja para a nossa gente, o mais vantajoso de tudo quanto existe na terra, sobretudo em certos casos.”. É inegável que a glória vã nos inflama, do contrário, não nos vangloriaríamos tanto.

E prossegue em seus argumentos: “Talvez seja mais vantajoso que todas as vantagens, mesmo no caso de nos trazer um prejuízo evidente de contradizer as conclusões mais sensatas da nossa razão, a respeito de vantagens; pois, em todo caso, conserva-nos o principal, o que nos é mais caro, isto é, a nossa personalidade e a nossa individualidade”.

Sobre a personalidade e a individualidade tão caros para o homem, diz que, “a vontade pode, naturalmente, se quiser, concordar com a razão (...) isto é útil e, às vezes, até louvável. Mas a vontade, com muita frequência e, na maioria dos casos, de modo absoluto e teimoso, diverge da razão (...)”.  É a essa notória discrepância que ele atina.

O homem é de uma estupidez fenomenal e, embora não seja de todo ignorante, é o ser mais ingrato que há no mundo, acusa nosso homem do subsolo: “É ingrato numa escala fenomenal. Penso até que a melhor definição do homem seja: um bípede ingrato [alusão à Platão, que definira o homem como ‘bípede implume’]”.

Mas isto ainda não é tudo, esse ainda não é nosso maior defeito. Nosso maior defeito, diz ele, é nossa permanente imoralidade: “Sim, permanente, desde o Dilúvio Universal”.

Estúpidos, ingratos e, constrangedoramente, imorais: “A imoralidade e, por conseguinte, também a falta de bom senso, pois há muito tempo se sabe que essa [falta de bom senso] provém unicamente da imoralidade”.

Roga que examinemos o que se dá a todo o momento: “(...) surgem continuamente homens de bons costumes, sensatos, sábios e amantes da espécie humana, que têm justamente como objetivo portar-se, a vida toda, do modo mais moral e sensato, a  iluminar, por assim dizer, com a sua pessoa, o caminho para o próximo, e precisamente para demonstrar a este que, de fato, se pode viver de modo moral e sensato. E então? É sabido que muitos desses amantes da humanidade, cedo ou tarde, às vezes no fim da existência, traíram-se, dando motivo a anedotas às vezes do gênero mais indecente até”.

Quem não conhece pessoas assim, acima de qualquer suspeita, tragadas por vícios degradantes e abjetos, cujo alcance é impossível mensurar?

É terrivelmente perspicaz esse homem que nos fala do subsolo: “Pergunto-vos agora: o que se pode esperar do homem, como criatura provida de tão estranhas qualidades? Podeis cobri-lo de todos os bens terrestres, afogá-lo em felicidade (...); dar-lhe tal fartura, do ponto de vista econômico, que ele não tenha mais nada a fazer a não ser dormir, comer pão de ló e cuidar da continuação da história universal – pois, mesmo neste caso, o homem, unicamente por ingratidão e pasquinada [sátira], há de cometer alguma ignomínia [grande desonra, infâmia].”.

E diz mais: “Vai arriscar até o pão de ló e desejar, intencionalmente, o absurdo mais destrutivo, o mais antieconômico, apenas para acrescentar a toda essa sensatez positiva o seu elemento fantástico e destrutivo. Desejará conservar justamente os seus sonhos fantásticos, a sua mais vulgar estupidez, só para confirmar a si mesmo (como se isso fosse absolutamente indispensável) que os homens são sempre homens e não teclas de piano (...)”.

Não há lógica, bom senso, ciência ou matemática que corrija o homem: “(...) ainda assim ele não se tornaria razoável e cometeria intencionalmente alguma inconveniência, apenas por ingratidão e justamente para insistir na sua posição (...) no que é seu!”.

O fato é que nossa vontade – livre – nem sempre coincide com “interesses normais, com as leis da natureza e com a aritmética”, e bradamos: “ninguém me priva da minha vontade!”, por isso reivindicamos absoluta e total liberdade.

“Quereis, por exemplo, desacostumar uma pessoa dos seus velhos hábitos e corrigir-lhe a vontade, de acordo com as exigências da ciência e do bom senso. (...) De onde concluís que à vontade humana é tão indispensavelmente necessário corrigir-se?”, indaga o infeliz. “Por que estais tão certamente convictos de que não ir contra as vantagens reais, normais, asseguradas pelas conclusões da razão e pela aritmética, é de fato sempre vantajoso para o homem (...)?”.

Afirma que é indiscutível que o homem gosta de criar e de abrir estradas, mas também ama, apaixonadamente, a destruição e o caos.

Dostoiévski nos fala com propriedade sobre o inconsciente: “Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela nem mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio, e, em cada homem honesto, acumula-se um número bastante considerável de coisas no gênero”.

Salienta que, talvez não interesse ao homem a prosperidade, mas anseie pelo sofrimento, por, de algum modo, este lhe parecer vantajoso: “(...) espancar a nós mesmos (...) infunde ânimo”. Não, definitivamente, isso não é coerente. E, no entanto, há quem nos relate suas dificuldades e aflições com indisfarçável orgulho por seus sofrimentos.

Não somos somente lógica, coerência e razão. Sensíveis, acalentamos sentimentos, temos também coração que, quando obscurecido pela perversão, falta pureza: “(...) e, sem um coração puro, não pode haver consciência plena, correta”.

Tags: Filosofia

Comentários

  • Antonio
    17/02/2014 05:47:45

    Belo texto!!!

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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