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FILOSOFIA Medeia e a Tragédia da Alienação Parental

01/06/2012 por Luciene Félix

Medeia é a famosa personagem da tragédia grega que, abandonada, assassina os próprios filhos a fim de se vingar do marido.

Alienação parental também é uma dissimulada forma de ‘assassínio’: independente da idade cronológica, inocentes são consciente ou inconscientemente ‘sacrificados’ como forma de retaliação a um ultraje que se acredita ter sofrido.

Nesse peculiar modo de destruição, preserva-se o corpo (soma) enquanto velada e sorrateiramente, aniquila-se a alma (psyché). E são muitos os que, embora vivos, se sentem mortos.

Como pode o amor avizinhar-se de tamanha fúria, transmutando o que outrora era doce, no mais amargo fel?

Antigas e ao mesmo tempo atuais, tragédias são atemporais. Será sobre as potestades que presidem ‘medéicos’ casos de alienação parental, que versaremos.

Na comovente peça, escrita em 341 a.C. por Eurípides (480 -406 a.C.), Medeia é a nobre que se apaixona por Jasão e se empenha ferrenhamente para que ele reconquiste a elevada posição social que almeja.

Após casar-se e gerar um casal de filhos, a estrangeira se vê traída, pois fora preterida em favor de uma nova aliança, dessa vez com a filha de Creonte. Narro o drama nesse link: www.esdc.com.br/audio/02.mp3.

A tragédia, ao fazer emergir o embate entre o ‘pré-direito’ x ‘direito’, como diz Rachel Gazolla, em sua obra “Pensar mítico e filosófico” (Ed. Loyola), trata da dramatização de antigos – e até então, intocáveis valores, que alicerçavam famílias e fratrias – diante dos novos (e constantemente retocados) rumos que a pólis do discurso prenuncia.

E, na cidade, em caótica ebulição, alimentando o conteúdo desses episódios – uniões com estrangeiros, novos contratos sobrepujando os antigos, direitos antigos versus novas leis, que a retórica faz eclodir e, claro, o dramático modo pelo qual essas inescrutáveis e invisíveis instâncias – titânicas (ctônicas) ou olímpicas – se fazem notar.

Entrelaçando retórica e política à poética, as tragédias (trágos = bode + aoidé = canto) – consideradas por Aristóteles educativas por excelência, pois formadoras do espírito – remontam aos rituais que explicitam sagrados interditos e tensões que afloram quando se menospreza o peso do sagrado.

Nos primórdios “do uso de uma linguagem técnico-jurídica”, a tragédia inculca penalidades por profanação de valores, como o são o cosmos e as leis antigas (vide Antígona, na CF) que, quando infringidos, são tratados no tribunal do Areópago, que vigia e responde pelos crimes de sangue.

Mas a tragédia, ritual político-religioso que visa ensinar aos novos cidadãos os antigos paradigmas aristocráticos do bem agir, aos poucos, vai se laicizando: os gregos já contam com tribunais e uma assembleia (laica e isonômica) para a discussão de grandes delitos ou corriqueiras desavenças.

Graças à logógrafos como Lísias, Górgias e Protágoras, muitas peças contendo acusações, defesas e sentenças são organizadas e devidamente arquivadas para consulta e/ou modelo: o lógos bem concatenado persuade e a retórica ameniza a penalidade ou, até mesmo, liberta criminosos.

A instância que hoje denominamos de ‘jurídico’ já está presente no modo da poesia dialógica encenada da aconselhadora tragédia. A kátharsis (purificação) não redime, mas expondo, alertando e punindo o réu diante do público, ensina.

Numa época em que cada vez mais e com maior frequência, grandes impasses entre o mundo ‘invisível’ (leis de Antígona) e o mundo ‘visível’ (leis de Creonte) começam a ser decidido na oralidade (via persuasão) o trágico emerge como reduto onde o ‘invisível’ de uma ‘justiça divina’ se manifesta sequestrando o juízo de quem a subestima.

São inúmeras as leituras e os ensinamentos a serem extraídos dos mitos e das tragédias: o cônjuge traído e/ou abandonado, como Medeia, é um ‘clássico’ atemporal e, por isso mesmo, atualíssimo, vide as alienações parentais.

Se o encerramento de contratos antigos fosse lúcida e pacificamente aceito, não perscrutaríamos potências que, em fúria cega, desencadeiam ódio e vingança.

Curiosamente, filhas do mesmo pai e nascidas no mesmo instante, gêmeas opostas, ‘estrelas’ de grandes tragédias são elas: Afrodite e as Erínias (Moiras, as Fúrias), intensas dýnamis (potência), presentes no cerne de toda polemós.

Em sua origem mítica, Afrodite, a arrebatadora deusa do amor e da atraente beleza, detentora do poder que promove a união, nasce do esperma dos órgãos genitais de Ouranós (o Céu), ceifado por Chronos (o Tempo).

Concomitantemente, do sangue vertido por tal violenta foice, surgem atentas Erínias, que governam a sinistra fatalidade do Destino, o lote de cada um nessa vida; instâncias cruéis, sob cujos domínios, nem mesmo os deuses escapam.

Uniões ilícitas (como a de Édipo), amores desprezados ou ultrajados, desencadeiam guerras, vinganças, retaliações. Sabemos que o rapto de Helena sela o fim de uma dinastia e que a predileção de Hipólito por uma austera e casta divindade (Ártemis) em detrimento de outra (Afrodite) culmina na morte do jovem.

Expoente mor de alienação parental, pois portadora de uma terrível hamartía (marca da falta, erro), Medeia anseia pela desforra contra Jasão e, nisso, seu comportamento assemelha-se ao que militam denegrindo cônjuges. Sim, ela os mata. E afirma retirar ‘forças’ para empreender tão nefasta façanha, imaginando o martírio do ‘ex’.

Rancorosos, mas cônscios de que essas dissimuladas atitudes afetam àqueles por quem miseravelmente nutrem aversão, alienadores parentais, tomados por um mau daímon (a preside furor, maldição e vingança) egoisticamente ignoram os incomensuráveis e muitas vezes irreversíveis danos psíquicos naqueles que dizem (e até acreditam!) zelar.

Tomados pela atér (cegueira que leva ao desvario, à ação desvairada e por fim à ruína), ao arregimentar os frutos do que outrora fora amor, alienadores parentais, gradativamente, desferem-lhes sutis – mas certeiros – golpes psíquicos, afastando-os afetivamente, não somente do progenitor desmoralizado, mas também negando aos próprios filhos o direito à plena eudaimonia (felicidade).

Oriundo do arcaico, o ‘bode expiatório’ ressoa. É no inocente – caprichosa exigência do trágico – que recai a expurgação.

Ampliar categorias mentais que incluam o simbolismo sagrado presente nas tragédias – “Qual homem que não tendo qualquer autoridade a temer, se comporta com Justiça?”, indaga Platão –, nos permite reconhecer, considerar o “invisível” e, até por questão de bom senso, respeitá-lo.

PS: Recomendo a Palestra do Prof. Flavio Bastos sobre “Alienação Parental”, disponível no youtube : http://www.youtube.com/watch?v=KbhYOMSXJRI

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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