Página Inicial   >   Colunas

Quando eu era estudante de Direito Maria Claudia Crespo Brauner é Professora na Universidade de Caxias do sul

01/07/2008 por Maria Claudia C. Brauner
Refletir e escrever sobre tempos idos requer um mergulho no baú de memórias. Momento nem sempre fácil mas encorajado pela possibilidade de parar um pouco e relembrar a trajetória de nossa vida. É como assistir a um filme e se identificar com uma das personagens. Minha narrativa requer um tempo e um lugar. O tempo, o ano de 1981, o lugar, uma cidade do Rio Grande do sul - denominada Pelotas, em homenagem às embarcações, canoas de couro utilizadas pelos índios para atravessar os rios. Um lugar então calmo, com uma vida universitária animada e marcado por invernos rigorosos. Ingressei em meu primeiro vestibular para o curso de Direito na Universidade Federal de Pelotas. Foi a primeira e única opção, o tema da justiça me atraía e adorava ler muito. Lá passei bons anos de minha juventude e proponho partilhar com os leitores alguns detalhes dessa experiência nas terras do sul.

Nesse tempo a vida universitária era envolvida por ideologias. No curso de Direito haviam militantes de diversos grupos políticos e manifestações pela democracia. O fim da ditadura, o surgimento de um nova sociedade democrática e a defesa do ensino público e gratuito, eram temas permanentes das reuniões que íam até o amanhecer. Nesses momentos se organizavam as greves, as passeatas, e as assembléias intermináveis, onde todos queriam falar. Não fiquei como mera expectadora dos acontecimentos, me envolvi com o movimento estudantil. Conheci nesse momento a importância do direito à livre expressão.

Não havia neutralidade, ou você era de direita e apoiava os militares e a ditadura ou, era de esquerda e vestia boina ao estilo ghevariano e sonhava com uma sociedade mais justa, menos opressiva, onde a terra e riqueza fossem partilhadas com os mais pobres. Assim, conheci a vida universitária e a política estudantil. E, me apaixonei por ambas.

No transcurso das aulas foi possível perceber a importância do Direito, o seu papel que pode ser revolucionário e transformador e servir à formação de uma sociedade livre e justa, ou opressor e elitista, servindo ao interesse de determinados grupos que se mantém no poder pela opressão e violência. A descoberta aguçou o interesse pela escolha do curso e pela pluralidade de perspectivas que a carreira oferecia.

O mundo se revelou a meus olhos, da realidade de uma vida familiar tranqüila, de um ninho seguro e conhecido tomei contato com os excluídos da sociedade. O estágio no serviço de assistência judiciária da faculdade mostrou que havia muito a ser feito. Tanto sofrimento e abandono legitimavam os movimentos sociais que reivindicavam por justiça, pelo fim das arbitrariedades praticadas por um Estado rígido e excludente. No curso haviam também os infiltrados no movimento estudantil, que denunciavam os agitadores e comunistas. Imaginem se isso não estimulou ainda mais nossas ações?

Os livros, mas nem todos aqueles recomendados pelos professores, abriram novos horizontes e, para além das idéias passadas na monótona disciplina de OSPB, organização social e política brasileira, ministrada para alienar os jovens e manter o sistema, se formou um grupo atuante, comprometido com as causas sociais.

Mas tudo não era tão sério o tempo todo, além das aulas, das passeatas e panfletagens haviam as festas que representavam momentos de descontração e integração com alunos de outros cursos e de outros horizontes. Havia muita música, vinho e poesia.

No alvoroço de momentos tão envolventes era possível perder o interesse pelos estudos. Senti que era preciso equilibrar a dedicação às aulas e aos livros com as atividades políticas e culturais. Desenvolvi uma certa disciplina de trabalho, conciliando a atenção com o presente e a projeção de uma carreira futura.

Alguns professores e professoras se tornaram modelos de inspiração pela dedicação e pelos conhecimentos compartilhados com os alunos. Havia muito respeito entre alunos e professores e uma sutil formalidade nessas relações, mas nunca houve arrogância ou descortesia em sala de aula. A cordialidade é essencial à vida acadêmica.

    Às vezes, sem perceber, queremos repetir as experiências boas da vida. Talvez eu tenha me sentido tão integrada à vida universitária e me realizado com os estudos que pouco tempo depois da formatura, voltei à universidade. Desta vez fui  buscar na França, no ano de 1987, influenciada pelos ideais da revolução francesa - liberté, égalité et fraternité, a continuidade de minha formação.

    Vivi três anos em Toulouse e, depois três anos em Paris. Cidades bem diferentes e com intensa vida cultural. Um novo horizonte se descortinou. Havia muito para conhecer e compreender e muitos desafios à enfrentar. Depois de um curso de formação filosófica, um curso de estudos aprofundados (DEA) e por fim, um doutorado em Direito, concluído na Université de Rennes, chegou a esperada hora de voltar, em 1993. Tudo só foi possível graças ao programa de bolsas de estudos do governo brasileiro e de muita persistência e dedicação.

     Na volta para casa, aguardava-me um país diferente, que vivia a democracia em ebulição. Não restavam dúvidas de que minha escolha profissional se dirigia à docência e à pesquisa no Direito. E assim, voltei mais uma vez à universidade. Havia muito a construir na academia e, sobretudo nos cursos de Direito. Fundar os núcleos de pesquisa, estimular as publicações docentes, preparar e aprovar os programas de pós-graduação. Uma fase de grande expansão e qualificação do ensino jurídico que ainda está em curso.

Como em todos os fatos da vida, momentos difíceis se apresentaram, mas a escolha pela docência me fez conhecer a realização profissional e possibilitou a concretização dos sonhos daquela jovem idealista. E, não se esqueçam de que muitos dos sonhos desta geração se tornaram realidade. Mas há tantos outros à realizar....

O Direito é uma arte, pode servir para resistir ao ceticismo que contagia, para preservar a esperança de um mundo possível representando uma fonte inesgotável de superação de tensões, de sucessivos ajustes que podem mudar o destino da humanidade. É no que ainda acredito.  A aventura continua. Não dá para desanimar. Essa história ainda está sendo escrita.  

Comentários

BEM-VINDO À CARTA FORENSE | LOG IN
E-MAIL:
SENHA: OK esqueceu?

MARIA CLAUDIA C. BRAUNER

Maria Claudia C. Brauner

NEWSLETTER

Receba nossas novidades

© 2001-2020 - Jornal Carta Forense, São Paulo

tel: (11) 3045-8488 e-mail: contato@cartaforense.com.br