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Filosofia Magia, Mito, Rito e Religião

06/12/2006 por Luciene Félix

 

 

O homem, ao inserir-se no mundo, delimita o espaço e o tempo. Desde os primórdios, os antigos prestavam homenagens ao divino manifesto pois, o simples contemplar do infinito na abóbada celeste era suficiente para desencadear uma experiência de religião (re-ligare).

 

Intrigado com a Magia da physis, o homem imagina Mitos, elabora Ritos que re-atualiza o Tempo, religando-se ao Cosmos.

 

No paganismo arcaico, em gratidão à singela magia do cíclico germinar de cada semente ou à aurora de cada dia, o homem sacralizava o espaço de potentes cachoeiras, de imponentes rochedos que avançam aos céus e dos rios que o saciavam e alimentavam-no e, lá delimitava o fannum (sagrado). Neste, identificava o asylon (altar), onde depositava as primícias (primeiras colheitas) das dádivas da natureza. Pela suprema sacralidade do asylon, nele toda pessoa estava resguardada de sofrer qualquer ato de violência, daí o termo "asilo político", quando se pretende salvaguardar a vida de alguém que se encontra sob ameaça.

 

O tempo, para o homem religioso ou não, divide-se em sagrado e profano (fora do fannum), e será através dos ritos que ele atualizará o tempo mítico primordial. Segundo Mircea Eliade "toda festa religiosa, todo tempo litúrgico, representa a reatualização de um evento sagrado que teve lugar num passado mítico, nos primórdios".

 

Ao participar de festas como o Natal e o Ano Novo, deixamos o tempo ordinário e nos integramos no tempo mítico que é re-atualizado pela própria festa. Esse Tempo sagrado é indefinidamente recuperável, repetível. O homem reintegra esse Tempo Circular, periodicamente, pela linguagem ritual.

 

Na festa Cristã: a decoração festiva das árvores de natal; o capricho com que se busca reconstruir o cenário do nascimento de Jesus através dos elementos do presépio (o estábulo, a manjedoura, o burrico, as vaquinhas, a chegada, posterior, dos três Reis magos/astrólogos, que perseguiram por dias e noites a luminosa estrela de Belém, na verdade uma poderosa e brilhante conjunção planetária); a preparação de uma ceia especial, com seus alimentos típicos tais como peru, nozes, castanhas e panettones entre outros; a reunião e confraternização familiar com a troca de presentes. Tudo isso faz parte do rito que re-atualiza o mito, fruto de uma magia que nos religa ao Divino.

 

Em nosso mundo moderno, nos desligamos progressivamente  dos padrões rituais de re-ligação tradicionais, como se a santificação periódica do Tempo cósmico fosse insignificante e inútil. O significado religioso do nascimento do Cristo, com a repetição dos gestos exemplares é esquecido. Ainda segundo Eliade: "a repetição esvaziada de seu conteúdo conduz necessariamente a uma visão pessimista da existência". Dessacralizado, o Tempo cíclico torna-se terrífico: revela-se como um círculo girando indefinidamente sobre si mesmo, repetindo-se até o infinito.

 

O homem não-ritualista não acessa o mistério, pois para ele, o tempo constitui a mais rasa dimensão existencial, está ligado meramente à sua própria existência, tem apenas começo, meio e fim, que é a morte, e aí, sem religião, nenhum significado transcendente pode se inserir.

 

Já o Ano, dessacralizado, é um círculo matematicamente fechado, tem começo, meio e fim. Ritualizado, possui também o poder de "renascer" sob a forma de um Novo Ano. A cada reinício, recria-se um Tempo Novo, puro devir, porque ainda não foi usado.

 

Neste ano vindouro, o ingresso de Júpiter no signo de Sagitário prenuncia elevação dos Saberes, ampliação de conhecimentos filosóficos, de estudos superiores, abundância de riquezas materiais mas, em contrapartida, a expansão do fanatismo religioso o que, numa futura conjunção com Plutão, poderá culminar em tragédias de proporções alarmantes, mobilizando a intervenção de Zeus através dos homens.

 

Dentre os rituais para comemoração da chegada de um Novo Ano, está o trajar-se de branco, pular sete ondas no mar, brindar com champagne, comer lentilhas ou romãs e, mais uma vez, inevitavelmente, homo religiosus, nos dirigiremos à majestas da imensidade dos céus conclamando a Paz. Feliz Ano Novo!

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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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