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Minha trajetória nos concursos José Wanderley Kozima é Advogado da União

01/07/2008 por José Wanderley Kozima
Carta Forense - Em que momento decidiu se enveredar pelos concursos públicos?

José Wanderley Kozima - Tinha uma visão distorcida e estereotipada do serviço público e meu interesse por concursos públicos, de modo geral, foi sempre longínquo. Os poucos que fiz foram feitos sob aquela perspectiva de ver como era, identificar as dificuldades, para a partir daí começar a estudar, o que nunca ocorria. Quando saí da faculdade meu ideal era ter meu próprio escritório de advocacia, pois sempre gostei de lidar com clientes e ter metas bem definidas. Meu interesse mais concreto se deu quando já era advogado de um grande banco estatal, mas as condições de trabalho e a motivação das equipes eram bastante insatisfatórias, no final da década de 1990. Por coincidência, em 1998 foi aberto o 2º concurso para Advogado da União. Como minha primeira pretensão sempre foi a de ser advogado, achei que era uma oportunidade imperdível e resolvi encarar o desafio com responsabilidade.

CF - Quando iniciou seu preparo? Qual metodologia usou?

JWK - Tive menos tempo para estudar do que gostaria, seja em razão da carga horária de trabalho, seja em razão dos prazos do concurso em vista e a extensão do programa. Considero verdadeiros heróis os colegas que, divididos entre o trabalho e a família, conseguem separar três ou quatro horas por dia e obtém aprovação nos concursos objetivados. É a vitória da autodeterminação sobre as dificuldades. Não acho que eu seja um bom exemplo do que normalmente ocorre em concursos. De toda a forma, tentei ser o mais objetivo possível e direcionar o foco, identificando as horas que poderia dedicar ao estudo e examinando criticamente todo o programa, para ver quais os pontos que requeriam maior dedicação que os demais, e escolhendo com atenção a bibliografia que seria utilizada.

CF - Que medidas o senhor tomava para enfrentar as matérias que tinha mais dificuldade?

JWK - Mais horas de leitura, e, quando possível, conversa com pessoas que dominavam a matéria e tinham maior experiência em concursos, o que nem sempre é fácil encontrar. O que penso ter contribuído foi que, na minha atividade de advogado, sempre fui muito curioso, poucas vezes tendo feito uma peça judicial, ainda que simples, sem ler o que estava disponível sobre as questões implicadas ou conversar com quem sabia mais. Isso ajuda a vencer nossas deficiências, mormente aquelas que nem sabemos que temos.  Também ajudou eu ter realizado pós-graduação e me acostumado com um grande volume de leituras com prazos relativamente curtos a serem cumpridos.

CF - Quanto tempo demorou para ser aprovado no primeiro concurso?

JWK - Na área jurídica, dentro da mínima perspectiva de competir, isto é, é mediante dedicação e direcionamento dos estudos, este concurso, para Advogado da União, foi o primeiro.  Acho que tive um pouco de sorte, pois até uma questão envolvendo tema que eu havia estudado durante a pós-graduação caiu na prova dissertativa, o que favoreceu um resultado positivo.

CF - A Advocacia da União sempre foi seu foco principal?

JWK - A advocacia sempre foi o meu foco. A advocacia pública surge num contexto em que não podia experimentar um decréscimo de renda, mas estava insatisfeito com o meu emprego, que inclusive inviabilizava o exercício da advocacia particular. A Advocacia-Geral da União, por outro lado, veio como a promessa de ser uma grande e valorizada instituição constitucional e republicana, com um leque muito grande de competências e áreas de atuação, tendo sido vislumbrada por mim e por muitos como a instituição jurídica do futuro.

CF - O senhor sofreu com a cobrança de familiares e amigos em relação à aprovação?

JWK - Não. Foi uma escolha estritamente pessoal, como todas as que tomei em minha vida profissional, desde os 13 anos. Do ponto de vista econômico, tive que abrir mão de cerca de R$ 2 mil brutos de remuneração, mas nem nos momentos mais difíceis houve arrependimento, pois o trabalho é muitíssimo gratificante. Acho que a pressão não ajuda, apenas aumenta a ansiedade.

CF - Depois de aprovado, como foi sua rotina de AGU recém empossado?

JWK - Não tivemos curso de introdução à instituição. A AGU era, e continua sendo sob certos aspectos, muito precária. Em fevereiro/2000, quanto tomei posse, na Procuradoria da União do Estado do Espírito Santo, o que esperava a mim e meus companheiros de concurso era um espaço bastante reduzido, ausência de computadores pessoais e de servidores de apoio... E, no mais, pilhas e pilhas de processos. A rotina consistia em tentarmos fazer o máximo que pudéssemos no menor prazo possível, valendo da experiência trocada e na base de muito coleguismo. Do meu grupo, aliás, ficaram muitos poucos, pois, infelizmente, a maioria preferiu deixar a AGU pelo Ministério Público e pela Magistratura.

 CF - Quando um acadêmico ou bacharel toma a decisão de ingressar numa carreira pública, qual o primeiro passo a ser dado?

JWK - Penso que seja focar especificamente o concurso público visado. Tomar familiaridade com os últimos programas e provas, selecionar uma excelente bibliografia e desenvolver um calendário próprio de estudos, cumprindo-o com o máximo de disciplina e determinação, ajuda bastante. Dos muitos colegas que vi que tiveram êxito em concursos públicos dificílimos, neles detecto quatro características comuns: disciplina, concentração, auto-confiança e determinação. Não são características naturais ou dons, mas resultado de um esforço direcionado.

CF - O que deve esperar o concursando na hora de optar pela AGU?

JWK - Deve vir preparado para brigar muito, pois a instituição ainda está se estruturando e temos muito o que fazer para que ela possa chegar ao nível de reconhecimento e valorização que merece. Percebemos nitidamente nesta última campanha salarial que o governo vê a advocacia pública não como uma atividade fundamental e de primeira grandeza, mas como mais uma atividade meio do Estado, em que muitas vezes esbarram decisões políticas que não encontram amparo na lei. Por outro lado,  o concursando pode esperar uma satisfação muito grande em poder atuar de forma direta e múltipla na defesa do patrimônio, rendas e políticas públicas.

CF - Quais são os maiores desafios dos Advogados da União atualmente?

JWK - Penso que seja fazer com a instituição AGU alcance a autonomia em todos os aspectos, técnico, administrativo e orçamentário, de modo a que seu futuro não fique condicionado à boa vontade dos governantes, que nem sempre desejam instituições fortes e independentes, especialmente atuando em sede de controle da legalidade dos atos administrativos.

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JOSÉ WANDERLEY KOZIMA

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