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CRÔNICAS FORENSES Je suis désolé

02/12/2011 por Roberto Delmanto
No Brasil há uma verdadeira "indústria" de multas de trânsito, onde o principal objetivo é arrecadar. Na Europa, continente civilizado, muito ao contrário se procura, prioritariamente, educar e, só sendo realmente necessário, multar.

Em Paris, cidade que conheço razoavelmente bem, costumo alugar um carro já no aeroporto. Não para usá-lo obrigatoriamente de dia, quando o melhor transporte é o metrô que, ligado à excelente malha ferroviária (R.E.R), cobre toda a capital francesa e seus arredores.

Certa ocasião, após o jantar, noite estrelada e de lua cheia, dirigia o automóvel com minha mulher ao lado, contemplando a cidade feericamente iluminada. Passei pela belíssima Place de La Concorde, vendo no horizonte a Tour Eiffel, e ingressei na Avenida Champs Elysées, sem dúvida a mais bonita do mundo.

Foi quando, com as sirenes ligadas, duas motocicletas da polícia emparelharam-se comigo, fazendo seus ocupantes sinal para que parasse. Obedeci imediatamente, estacionando. Os policiais desceram nervosos de suas motos e aproximaram-se do carro, dizendo que eu havia atravessado um dos cruzamentos mais perigosos de Paris com o feu rouge (farol vermelho). Desculpei-me, usando da expressão que invariavelmente "desarma" qualquer francês: je suis désolé (ao pé da letra, eu estou desolado), explicando-lhes que a beleza da cidade me distraíra.

Os policiais, mais calmos, pediram meus documentos e os do carro. Quando um deles viu meu passaporte, dirigindo-se ao colega falou, com ar de desapontamento: un autre brésilien (um outro brasileiro). Ou seja, algum patrício já aprontara naquela noite... Sem me multar, recomendou que dirigisse com mais atenção, para que pudéssemos aproveitar a viagem e retornar sãos e salvos ao nosso país...

Alguns anos antes, algo parecido me acontecera em Mônaco, pequeno e encantador país vizinho à França, que é também um paraíso fiscal, com muitos banqueiros e, principalmente, advogados.

Dirigia outro carro alugado, acompanhado da minha mulher, quando, após cruzar uma avenida, fui parado por um guarda, alto e de farda e capacete impecavelmente brancos, como todos os policiais monegascos.

Disse-me, com ar severo, que eu cruzara com o feu rouge a mais importante avenida de Monte Carlo, podendo ter sofrido um grave acidente. Desculpei-me com o infalível je suis désolé e ele me pediu o passaporte. Ao abri-lo e ver qual era a minha profissão, murmurou conformado: "un autre avocat" (um outro advogado)... E, igualmente sem me multar, aconselhou-me a dirigir com mais atenção para que nada de mal nos acontecesse durante a viagem...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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