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Penal Insultos Sutis

 

Há muitos anos, foi assistindo ao belo filme "Concorrência desleal", de Ettore Scola, que conheci a expressão francesa "esprit d'escalier", espírito de escada. É aquela resposta inteligente que, por desgraça, não nos socorre na hora da discussão acesa, e só nos vai ocorrer tarde demais, quando já estamos descendo a escada. Por que não disse aquilo?!

 

Encontrei "esprit d'escalier" num artigo muito inteligente de Michael Kepp, divulgado pela Internet. Seu título: "Insultos sutis". Achei-o tão bem escrito que o reproduzo aqui e prometi escrever sobre ele.

 

Nesta época em que vivemos saturados de informações e temos pouco tempo para digeri-las e memorizá-las, o sinal mais indiscutível de que algo realmente nos marcou é a circunstância de o fato voltar depois, várias vezes, à nossa memória.

 

Foi o que aconteceu comigo com o artigo de Michael Kepp, jornalista norte-americano que publicou, pela Editora Record, um livro de crônicas: "Sonhando com Sotaque - Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro".

 

Kepp mostra que existem ditos formal e aparentemente elogiosos, mas que, na realidade, ferem de modo sutil. Algumas vezes, são involuntários e constituem as famosas "gaffes", palavra francesa que os puristas da Língua preferiam traduzir por "ratas" e os jovens de hoje chamam de "mancadas", “pisou no tomate”, “mano, a casa caiu”.

 

Muitas vezes, porém, são ofensas dolosas, com inegável, se bem que oculto, animus injuriandi. Algumas delas são tão sutis que só mais tarde a vítima se dará conta do dano sofrido, na hora em que estiver descendo a escada... Poderiam, talvez, ser chamadas "venenos de escada", ou "poisons d'escalier".

 

Kepp enumera, no artigo, vários casos. Não vou repeti-los aqui, mas vou prestar uma homenagem ao talento de Kepp, mostrando que seu escrito me marcou tanto que, durante vários dias, andei com um papelzinho no bolso, anotando sempre que via alguma situação dessas.

 

Aqui vão algumas das minhas anotações esparsas, separadas por histórias minhas:

- Puxa, Professor, o Sr. é realmente ativo! Nem parece a idade que tem!

(Essa me ocorreu, recentemente! Responder, o quê?)

 

- Dr., essa mulher só gosta de meninos. Pode ficar sossegado, ela nunca vai se interessar pelo senhor.

(Ocorreu também comigo).

- Que menino bonito! É filho de vocês?...

(Além de levantar dúvidas sobre a legitimidade do rebento, insinua que o pai e a mãe não são lá grandes modelos de beleza...).

 

- Linda criança, tem a mesma carinha da mãe!

(Nem o pai nem a mãe vão gostar. O pai vai entender que se é feio, ou que não é o pai. Quanto à mãe, ela se perguntará se a pessoa não insinuou que o pai não era o marido!).

 

- Que bonitinhos! Um puxou ao pai, o outro, à mãe!

(Tentativa de corrigir o erro anterior. É o caso de dizer que a emenda saiu pior que o soneto!).

 

- Como a senhora fica elegante quando está grávida!

(Nota: a mulher não está grávida).

- Você é uma pessoa muito culta. Vê-se que ainda pegou Latim no Ginásio.

(Você é velho mesmo, não adianta disfarçar...).

 

- Você tem um grande futuro pela frente...Depende de se esforçar!

(Pode significar: Você é preguiçoso, mesmo! E, se for dito a alguém que já tem currículo do qual se orgulha, dizer que ele ainda tem futuro pode parecer que se está desmerecendo o que já fez no passado).

 

- Você está forte, com ótima aparência!

(Ainda que ditas com a melhor das intenções, uma pessoa obesa sempre sentir-se-á ofendida com essas palavras).

 

- Você prefere com adoçante, não é?

(Tradução: se não prefere, devia preferir, porque está gordo mesmo!).

 

- Fiquei admirado com seu discurso! Português impecável! Maravilhoso!

(Tradução: de você, o que se podia esperar era um discurso péssimo, cheio de erros de Português).

 

- Nem sei como é que você ainda tem essa disposição física para viajar tanto!

(Já fui vítima disso. Significa: Com a idade que você tem, devia estar aproveitando a aposentadoria).

 

- Que ideia interessante! Onde foi que você leu isso?

(Significa: uma ideia dessas não podia ter nascido de sua cabeça).

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DAMÁSIO EVANGELISTA DE JESUS

Damásio Evangelista de Jesus

Advogado, Professor de Direito Penal, Presidente do Complexo Jurídico Damásio de Jesus e Diretor-Geral da Faculdade de Direito Damásio de Jesus. Autor da Editora Saraiva.

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