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CRÔNICAS FORENSES IN VINO VERITAS

04/08/2015 por Roberto Delmanto

 

O caso, de grande repercussão, foi um dos primeiros a ser julgado em São Paulo pela Justiça Federal  de 1ª Instância, criada pelo Governo Militar após 1964.

 

A polícia federal, depois de longa investigação, desbaratara uma quadrilha de falsificadores de dólares americanos, entre os quais alguns comerciantes do ramo de suínos.

 

Na prisão em flagrante efetuada foram presos, entre outros, dois escrivães da Polícia Civil de São Paulo, tendo eu assumido a defesa de um deles, filho de um antigo advogado, amigo de meu pai Dante. O flagrante foi convertido na prisão preventiva de todos e as audiências, dado o grande número de acusados, eram realizadas no salão do júri do prédio da Justiça Federal à época localizado na Praça da República.

 

Terminada a inquirição das testemunhas de acusação, designou-se data para ouvir as de defesa, entre quais as arroladas pelos dois escrivães. Durante a oitiva das testemunhas do escrivão que não era meu cliente, seu advogado teve de se ausentar, pedindo-me que o representasse, com o que concordei.

 

Prestando depoimento, uma dessas testemunhas, conceituado dentista, em certo momento revelou, espontaneamente, que além de conhecer o escrivão que o arrolara, também conhecera meu cliente alguns meses antes da sua prisão em uma praia do Guarujá em que tinha apartamento. Relatou que, após tomar algumas caipirinhas em um quiosque, ele deixara escapar que conseguira se infiltrar em uma quadrilha de falsificadores de dólares e que, se obtivesse êxito em desbaratá-la , esperava conseguir uma grande promoção em sua carreira.

 

Apesar do impacto que essa revelação causou em todos os presentes,  pois justificava o motivo do escrivão ter sido encontrado com outros réus por ocasião do flagrante, o ilustre Juiz Federal  Paulo Pimentel Portugal, que  presidia a audiência, manteve a prisão preventiva de meu cliente.

 

Mas, na sentença que proferiu algum tempo depois e que foi confirmada pelo então Tribunal Federal de Recursos, o grande Magistrado o absolveu em face da dúvida que aquele depoimento lhe provocara, lembrando a máxima latina in vino veritas (“ no vinho a verdade”). Ou seja, alcoolizado, a pessoa fala inconveniências, mas, às vezes, também o que realmente ocorreu...

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ROBERTO DELMANTO

Roberto Delmanto

Advogado criminal, é autor dos livros Código Penal Comentado, Leis Penais Especiais Comentadas, O Gesto e o Quadro, A Antessala da Esperança, Momentos de Paraíso-memórias de um criminalista e Causos Criminais, os quatro primeiros pela Saraiva e os demais pela Renovar”

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