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FILOSOFIA Hamartía - O Exterminador do Futuro

02/06/2011 por Luciene Félix

"A verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da família."  Léon Tolstoi


Recentemente, a mídia internacional trouxe à tona a notícia de duvidosos comportamentos de duas personalidades públicas: Dominique Strauss-Kahn, economista e ex-diretor do FMI e Arnold Schwarznegger, ator e ex-governador da Califórnia.


Como vimos no artigo anterior, "Kant e uma Filosofia da História - Para onde caminha a humanidade?", publicado nesta Carta Forense, tal qual a natureza, a razão também possui um télos (propósito) e este pode ser constatado através do crivo que ela mesma impõe às ações humanas: àquilo que fere a harmonia, o bom senso, à Justiça, como um corpo estranho ao juízo sensato, aos poucos (às vezes, milhares de anos) é excluído da norma.

O lógos marcha com vagar e, entre avanços e retrocessos, põe em relevo a correção moral, o decoro, a compostura, tributando valor à honradez e ao pudor.

No mundo globalizado, dispondo de nossas iluministas e humanistas atuais categorias mentais, não há como aceitar passivamente atitudes deploráveis e indignas, como se ainda fôssemos reféns de senhores feudais. A sociedade (opinião pública) aponta, denuncia, defende-se.

Até porque, indefensáveis, tanto na vida política quanto nas atividades corporativas, vilezas ético-morais têm sido punidas com renúncia (demissão voluntária ou sob coação), prisão, ostracismo, expulsão, banimento, desprezo.

Sucumbir às (ir) resistíveis paixões da carne em detrimento da ordem, invertendo valores tão caros à ratio, desde os tempos homéricos (Ilíada), ascende da mera insensatez à bestialidade. No âmbito político (público) e nos ambientes corporativos, por exemplo, a retaliação da sociedade é patente.

E quanto ao reparo à gravidade da vileza na esfera doméstica, privada?

Génos - além de raça, estirpe, família - é descendência, sendo também uma explicitação da natureza dos genitores. Comportamento desonroso no lar acarreta numa "hamartía", palavra grega que designa a "marca" (falta) que um descendente traz de origem (vide o artigo já publicado aqui mesmo na Carta Forense: "O Mito de Tântalo").

Enquanto meras "e;marcas"e;, as hamartías constituem virtudes e vícios: dons culinários, aspirações intelectuais, espírito indômito, desbravador, inclinação aos vícios (do sexo, jogo ou drogas), ao otimismo, bom humor, às doenças físicas e psíquicas, como a depressão, tendência à procrastinação (preguiça), enfim, reconhecendo-os e cultivando-os ou repelindo-os, ora transmitimos talentos, ora imprimimos características constrangedoramente negativas.

Não há como prever o comportamento de um indivíduo (nem mesmo perscrutando a psyché "e;Alma"e;, como os psicanalistas: "me fale de seus pais") ou mensurar a profundidade da desalentadora dor causada pelo ultraje que os familiares são obrigados a vivenciar. Há muito sabemos que origem não é, obrigatoriamente, destino e que, cabe a cada um de nós a responsabilidade de interromper a transmissão hereditária de indisfarçáveis deficiências.

Desnorteadas, muitas "Marias" se vêem acometidas pela atér, cegueira que induz ao estado de desvario, depois à ação desvairada e por fim, à ruína.

Isso porque um lar não é um órgão como o FMI ou um país onde, tranquilamente, outro(a) economista ou candidato(a) substitui o execrável, com discurso persuasivo que induz a enxergarmos, no novo, talento e competência ainda maior.

Devastadoramente destrutiva na esfera privada e sacra da célula familiar, onde prisão, ostracismo, renúncia e expulsão não eliminam o problema (e tampouco é possível aventar legítima substituição), a sorrateira ausência de ética, ao estabelecer o imperativo da hamartía, legando a "e;falta"e;, desampara inocentes, extermina o futuro.


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LUCIENE FÉLIX

Luciene Félix

Professora de Filosofia e Mitologia Grega da Escola Superior de Direito Constitucional -
ESDC - www.esdc.com.br Blog: www.lucienefelix.blogspot.com
E-mail: mitologia@esdc.com.br

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